Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
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Hélia Correia no Martinho da Arcada:
“Estamos de novo em Salamina”
07-12-2010 Hélia Correia

Há cinco anos empurrou-nos a paixão, uma combinação de herança e de frescura, a originalíssima organização de um sonho para o qual o querer de Deus não foi chamado. A candidatura de Manuel Alegre gerou, e essa era a sua natureza, uma extraordinária comoção – no sentido de gente que se move e leva um sentimento dentro dela.
O coração trabalhou muito e a voz também. Ao nosso «quase» não faltou o golpe de asa. Houve foi quem se orientasse mal, como os idosos que se enganam na auto-estrada, e se pusesse a atirar contra o seu pássaro, levando ao prejuízo que se viu.
Agora, amigos meus, a história é outra. O tempo de hoje tem tal velocidade que nos faz deslocar aos empurrões. Acordamos e achamo-nos num mapa cujas coordenadas nos escapam. Mas olhem bem: estamos de novo em Salamina.

Estamos no meio de uma luta decisiva entre a sociedade da beleza, da criação, da liberdade e da palavra – e uma civilização de crueldade que se propõe esmagar-nos sem apelo. Reparem nesses Gregos que convivem com os deuses e que continuamente os reinventam para que convenham à medida humana – e que não comem bem, e vestem pouco. Do outro lado estão, não os selvagens, mas o requinte e o luxo de um império, uma frieza onde se arrumam hierarquias.

A intenção destes conquistadores é a de nos cortarem as cabeças. Aliás, julgam que no-las cortaram já. Pois parece que em nós já não há bocas: não conseguimos, com as nossas frases, atingir meios de comunicação. Também parece que não temos cérebro onde possa alojar-se pensamento: pois eles declaram que não há nada para pensar. Os ouvidos perderam a função, como partes de um membro decepado. Não captam as linguagens dominantes; o que «eles» dizem é indecifrável. É uma corruptela de um latim que os sacerdotes deste novo deus entoam e que os seus seguidores papagueiam.

Este deus alimenta-se de sacrifícios, é um Baal que extermina os fracos e as crianças. O que fica para lá do santuário, sendo um mistério horrendo – não é nada. Quem se atreva a espreitar encontrará um moribundo atrás de um microfone. O que eu menos perdoo é que este deus se chame «economia», uma palavra grega feita de casa e lei, significando aquilo que se aplica ao governo da casa com justiça e à boa gestão dos recursos comuns.

Olhemos outra vez para Salamina, para a batalha em que os pequenos triunfaram: vejam como aquele povo miúdo e quezilento enche o mar com as suas embarcações precárias e impede o movimento das naus persas. Vejam como a medida do homem se salvou.

Deixem-me levar isto um pouco mais na direcção do que me interessa sugerir: os Gregos construíram essa armada por recomendação da pitonisa a quem Apolo segredou uma estratégia. «Construam uma cidade de madeira», aconselhou. Estava a fazer uma metáfora. Na verdade, devemos a primeira sobrevivência de tudo aquilo que está outra vez sob ameaça - a democracia, a liberdade, o humanismo - a uma figura de estilo devidamente lida e interpretada. Quero eu dizer: a inteligência é poética e a coragem também. Barcos ao mar!