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Opinião
Fernando Nobre pode perturbar?
01-03-2010 Elísio Estanque, Público

A candidatura presidencial de Fernando Nobre (FN), apresentada no passado dia 19 de Fevereiro, apareceu para alguns como se contribuísse para dividir as esquerdas e o próprio PS.

A aura humanista do dirigente da AMI e a sua experiência de participação em programas de solidariedade e assistência em catástrofes internacionais granjearam-lhe merecida notoriedade. Essa ligação permite-lhe que surja, numa primeira leitura, como um candidato gerado directamente pela "sociedade civil", ou seja, alheio à lógica de funcionamento dos partidos, o que, numa altura em que o cidadão comum desconfia cada vez mais da classe política, pode constituir uma potencial vantagem eleitoral.

Porém, tal leitura padece de ingenuidade. Como é sabido, a candidatura de FN só na aparência é espontânea. Ela surge directamente associada ao soarismo. Aqueles que nalgum momento sonharam com uma possível reaproximação de Mário Soares a Manuel Alegre (MA) já há muito perderam essa esperança. A vingança serve-se fria e o dr. Soares não perdoa. Não descansou enquanto não descobriu um nome que, pelo menos, pudesse dificultar (senão impedir) o esperado apoio do PS a Alegre. Este foi talvez o último, depois de vários outros que não se deixaram empurrar.

A questão agora é saber até que ponto a candidatura de FN fará estragos, ou não, à candidatura de MA. A conotação de FN com a área da esquerda também não é óbvia nem linear. E o "estrago" que pode fazer na campanha depende, desde logo, da consistência que venha a revelar e dos apoios que obtenha. Um candidato que já apoiou António Capucho, António Costa, Mário Soares, Durão Barroso e, mais recentemente, o Bloco de Esquerda, poderia, em tese, atrair votantes de diversos sectores (inclusive da direita). Mas tão evidente oscilação quanto a opções ideológicas, além de mostrar incoerência, deixa os eleitores confusos. Só não deixaria se se tratasse de alguém com suficiente carisma e poder para construir com sucesso uma deriva populista e antipartidos, se as condições para tal estivessem reunidas. O que, felizmente, não é o caso (por enquanto). Certamente que em todas as circunstâncias há e haverá sempre "dissidentes" e neste caso os exemplos existem, quer no PS quer no Bloco (além de dois ou três ex-alegristas ressentidos pela recusa de Alegre a embarcar na aventura de um novo partido). Mas também já se notaram demarcações claras, inclusive de figuras conotadas com o soarismo.

O certo é que no momento em que FN surgia no Padrão dos Descobrimentos, a maior sala de Coimbra era pequena para abrigar os mais de 500 apoiantes de Manuel Alegre, entre os quais se identificaram gradas figuras da cidade, destacados dirigentes locais e nacionais do PS e do BE, e com um dos fundadores do seu partido, António Arnaut, a fazer a apresentação do candidato-poeta.

A mensagem de Alegre foi, uma vez mais, contundente e clara. Perante esta massa de apoios, as indirectas a Cavaco Silva e a Mário Soares (esta a mais aplaudida da noite), bem como a atenção aos graves problemas da actualidade política, acrescentaram ainda maior dimensão a esta candidatura. Evidentemente que o PS e a sua direcção saberão interpretar o peso deste movimento. Num quadro em que o PSD avança para uma nova liderança e se prepara para realizar o seu velho sonho (uma maioria, um governo e um Presidente) contando com o auxílio de Cavaco Silva, o PS terá de, a muito curto prazo, tomar uma posição quanto às presidenciais, se quer derrotar a direita. Manuel Alegre aí está, pronto para a batalha. E Mário Soares não deixará de seguir a decisão do seu partido, como prometeu. Quanto a Fernando Nobre, poderá, afinal (caso não desista), mobilizar aqueles que - à esquerda e à direita -, sendo anti-Cavaco, não gostam de Alegre. Nesse caso pode até ser útil, contribuindo para reduzir a abstenção e, assim, ajudando a uma segunda volta.