Lisboa bairro a bairro rua a rua/ por seu reino e por seu rei/ quantos ao certo não sei/ defendiam uma bandeira rota/ além da morte além do fim./ Quando é assim/ não há derrota.
Manuel Alegre
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Sobre "Jornada de África" de Manuel Alegre
O primeiro romance
07-07-2017 Paulo Serra, Postal do Algarve, excerto de "Manuel Alegre - Prémio Camões 2017"

Em Maio de 2017 saiu a quarta reedição de Jornada de África, primeiro romance do autor primeiramente publicado em 1989, depois de ter já publicadas três obras de poesia: Praça da Canção (1965); O Canto e as Armas (1967); Atlântico (1981). Se pelo título e até pelo subtítulo, "Romance de Amor e Morte do Alferes Sebastião", podemos pensar que vamos entrar na epopeia, rapidamente percebemos que o registo é mais anti-épico.

A acção inicia-se na “Estrada da Beira”, Dezembro, mil novecentos e sessenta: é um dia cinzento, cai uma chuva miudinha” (p. 11), com Lázaro Asdrúbal, director da PIDE, para depois focar-se em Sebastião, em Coimbra, que dias depois irá embarcar para a guerra colonial. É em Sebastião que a acção se centra e sentem-se ecos da vida do autor, que, aliás, se imiscui por vezes na voz do narrador: “Sentado na cama, algures, talvez na Praceta Dias da Silva, está o poeta, o narrador, quem sabe quem.” (p. 18), numa incerteza claramente irónica, a começar pela imprecisão do algures para depois situar exactamente a personagem de Sebastião, para depois designa-lo como poeta e narrador, apesar de a narração ser feita na terceira pessoa. Esta auto/hétero designação surgirá novamente: “O poeta, o narrador, sabe-se lá quem, quer outra vida, outra escrita.” (p. 20).

A narração é feita em tom coloquial, com uso constante de expressões, e frequentes analepses, onde se sente a distância entre o conhecimento localizado e limitado da personagem face à omnisciência de um narrador mas velho que parece lembrar o que viveu: “em breve será mobilizado, mas disso não sabe ainda.” (p. 23).

Sebastião, o nosso herói, “gosta é da acção, da aventura, do lado heróico e romântico da intervenção na história” (p.21) conforme nos dá a saber o seu amigo designado de Pança. Para Pança um dos poucos defeitos de Sebastião é que “passa a vida a falar de Rilke, esse versejador decadente, chulo de marqueses, envenenado por uma rosa” (p. 22), sendo aliás curioso que uma das epígrafes de Jornada de África seja uma passagem da obra A Balada do Amor e da Morte do Alferes Cristóvão Rilke, cujo título faz eco no subtítulo do livro de Manuel Alegre. Com Pança prenuncia-se ainda o registo anti-épico da narrativa, pois não será inocente que o protagonista tenha como melhor amigo alguém conhecido por Pança, como, obviamente, o Sancho Pança de Dom Quixote. Veremos ainda como o seu Comandante adverte Sebastião para se deixar de “atitudes quixotescas” (p. 173), a propósito de ter a PIDE sempre no seu encalço. Mas mais importante do que a possibilidade de Sebastião representar um alter ego do autor, que deixa neste livro as memórias do que terá vivido a guerra, este nosso herói vive ainda outro dilema: um excesso de ser. Chegado a Luanda, note-se quando Sebastião pensa em Mariana, a namorada: “Aperta o isqueiro que ela lhe deu na véspera da partida. Tem as iniciais gravadas. Sebastião tem a impressão de não reconhecer o próprio nome. Murmura-o muito baixo: parece o nome de um outro.” (p. 33). Sebastião representa assim os milhares de alferes que combateram nessa guerra que não lhes pertencia, mas em particular sente-se como Sebastião evoca o rei D. Sebastião, talvez porque ambos combateram em guerras em África ou porque ambos podem estar destinados a perder e a sucumbir?

Dentro de quatro dias (23 de junho de 1415), terão passado quinhentos e quarente e sete anos sobre a partida para Ceuta. Talvez Sebastião tenha sido condenado a partir dessa data. (…) Há quase trezentos e oitenta e quatro anos (era no dia seguinte ao de S. João, diz a Relação da Jornada), um outro Sebastião partiu de Oeiras e com ele oitocentas velas. Está visto, Junho é o mês do embarque, pode ser o da glória ou o do desastre.” (p. 24). Leremos ainda, mais à frente, como este Sebastião “Agora vai de avião e não tem a certeza que a história não seja a mesma. Para Angola e em força. E o dedo apontado para ele.” (p. 26).

Estes 500 anos de História são ainda representados pelos constantes ecos da tradição literária. De Camões a Pessoa, seja pela citação directa de excertos da sua poesia, seja mais subtilmente na forma como o autor entretece breves trechos da sua poesia e os reutiliza, inserindo-os na sua escrita, como “nesse tempo em que festejavam ainda o dia dos seus anos” (p.19) ou “menino e moço o levaram da aldeia” (p.11). Haverá mesmo um capítulo na olha do Mussulo que cria um jogo intertextual paródico com a Ilha dos Amores. São ainda constantes as citações e alusões a outros autores, nomeadamente aos poetas franceses.

Ainda a propósito desse excesso de ser de Sebastião, identidade múltipla ou voz de uma colectividade histórica portuguesa, leia-se ainda a seguinte passagem: “Devia ter nascido uns séculos atrás, nunca mais poderá ser o primeiro a pisar terra desconhecida. (…) Há cinco séculos que estão a chegar aqui, traz dentro dele todas as viagens e todos os naufrágios, é um pedaço de História Trágico-Marítima em carne viva, não vem a descer de um avião, está a saltar de um verso de Camões para esta terra violada e virgem, de Rocinante é que vinha bem, ora pífaro, não é senão um alferes miliciano de infantaria.” (p. 29). Mais à frente, alguém lembra o nosso herói de que é “um Sebastião antisebastianista e anticolonialista” (p. 113).

Este desencanto irónico expressa a inutilidade desta guerra, pois nem o sacrifício dos combatentes nem esta guerra parecem fadados a entrar na História ou pelo menos não pelas melhores razões: “Não penses que alguém se interessa. Estamos longe, demasiado longe. Choram por nós, mas esquecem. Vamos ser os grandes cornos deste tempo. Todos nos estão a pô-los, o que é que pensas, o Estado, a família, os amigos, quem vai querer saber o que se passou aqui. Ninguém vai pôr em causa os brandos costumes, os mortos serão esquecidos, nós próprios faremos por esquecer, mais tarde ninguém contará.” (p. 105). Esse desencanto pode mesmo gerar um esquecimento ou obliteração nos anais da História: “A guerra não existe, um dia vais ver que nunca existiu.” (p. 105)

Paulo Serra, doutorado em Literatura na Universidade do Algarve, Investigador no CLEPUL