"Entre o agora e o nunca / lá onde só se chega não chegando / um pouco antes talvez depois / quando."
Manuel Alegre
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António Carlos Cortez sobre "Quando"
Hoje vi-te em Babilónia
10-02-2021 António Carlos Cortez, JL

Quando é o título substantivo, nominal, um lexema que procura estabelecer no fio do tempo – o passado e a sua tradição literária e o presente que tende a diluir esse passado, o presente viral em que nos encontramos – uma ideia de poesia. Manuel Alegre (MA) não é dos que tenha vendido ao gosto das épocas a sua fidelidade a uma ideia de poesia que, dos cancioneiros medievais a Dante, de Homero e Virgílio até Camões, sabe que a palavra de poesia cumpre um desígnio: cantar, isto é, reunir a Cidade em torno de uma palavra que resgate o humano das várias formas de alienação e de degradação.

Nesse sentido, para certo “comité da poesia”, expressão do poeta, em entrevista ao JL(*), este será um livro incómodo, heterodoxo, justamente porque a enunciação da voz do texto se coloca do lado da vox populi – quem canta, quem escreve, fá-lo em nome de uma possível redenção. Poema longo, com dez cantos, em moldes de epopeia lírica, a extensão é variável, ainda que seja o decassílabo um ritmo que subterraneamente anima o tónus deste poema único. Vale a pena, depois de termos lido as coordenadas gerais do livro no texto que aqui se publicou, de Paula Morão, aprofundar algumas dessas coordenadas.

De facto, a progressão do livro depende da situação em que o sujeito se encontra. Um sujeito cindido (“Estou e não estou em lado nenhum”), e que faz alinhar a inquirição dos tempos incertos em que (se) vive pela reiterada interrogação (“Como encontrar”). Perguntar para ver se o sentido irrompe das ruínas dum real que eclipsa o passado, logo no poema I a memória reenvia ao ubi sunt de raiz clássica, bíblica. Um simbólico pica-pau e a memória de uma “tia a tricotar”, mas sobretudo a memória do Príncipe Valente (ícone da infância, das primeiras leituras), ou de Ofélia, emblema literário, ou ainda a recordação de Elsenor, de shakespeariana ressonância, tudo se coloca na cena do texto numa dupla condição: Babilónia ao mal presente, Sião ao tempo passado, numa estrutural organização do livro que depende, julgo, dessa camoniana antítese.

Por isso é que, no II andamento, é num vale de lágrimas de onde se contempla a destruição do mundo (“Os glaciares estão a derreter as águas a subir / quem sabe se Amaurota a ilha da utopia / acabará engolida pelo mar. / Alterações climáticas. Furacões incêndios cheias. / Um vírus vira o Mundo do avesso.” (p.15)) que o poeta pode interpretar o peso da passagem do tempo. Tudo foi há muito tempo e passou rapidamente, “Tudo está tão diferente e afinal / tudo está tão na mesma” (diz-se ainda num verso de I), mas é essa sensação de um tempo ambíguo que, após a perseguição dum Julho de antanho, oposto ao Julho hodierno (onde aquele Julho mítico, com melros cantando, com o vento nos salgueiros? Onde esse doloroso, mas heroico exílio que levou o sujeito a atravessar o rio “que não tinha água nem fronteira”?) agudiza o canto, tornando-o urgente. Alegre, num complexo tecido rítmico, servindo uma dialética de oposições (para além do passado-presente, ou do ontem-agora, sobretudo opõe memória a esquecimento), denuncia: “Estátua de bronze um bocado de pedra. / Abaixo abaixo. Corta a cabeça de Colombo / corta a tua própria cabeça / e deita-a fora. / Rasga os livros sagrados / Homero Virgílio Dante Shakespeare Camões. / Poesia a mais. Pensamento a mais. / Palavra a mais. Faz delete / apaga a História apaga o poema apaga o passado. / Twita: / viva a noite o vazio o copo a coca a queca.” (p.16).

Elegíaco, palinódia para o nosso tempo, Quando é, assim, mais do que um advérbio que localiza na cronologia da História este apocalipse, o nosso. No Antropoceno, há lugar para o poético. Parece lembrar Drummond: “O que não tem poesia não existe, o que não existe não tem fala” - isso mesmo repete o poeta de Praça da Canção. Justamente contra um tempo desvitalizado, entregue aos que já nada sabem da Guerra Colonial ou sobre o nazismo e os fascismos, é em clave não só irónica que o sujeito afirma: “Talvez eu seja um poeta arcaico. / Sou primo de Gilgamesh.”.

A Europa e o mundo ocidental, esse titanic das utopias modernas afunda-se à nossa frente. À clave irónica soma-se a clave melancólica, um grito que lembra outras lutas: “Velhos de todo o mundo: uni-vos”, pois os novos bárbaros aí estão para impor o Novo. T. S. Eliot e The Wast Land não é aqui um eco, é uma presença real: no andamento VII, a escrita de um livro (“essa coisa que talvez não seja / senão um verso”, e que reenvia à memória da cultura, de Cartago a Tróia) funciona como indício do leitmotiv deste original canto: o fazer da poesia. Um fazer que exige que a cadeia de transmissão da alta cultura se não perca (“Cada poeta escreve esse recado”), conscientes, os que escrevem poesia, que “Ofélia jaz num verso antigo”. Se a tia “já não borda à sombra do cipreste”, se não pode o sujeito contemplar a “ameixieira em flor” e só o ruído contemporâneo se faz ouvir e ver, escrever é ato de resistência.

Num tom coloquial, bebido em Nobre (penso no poema “A Vida” ao ler este poema longo de MA), a escrita será o lugar da presentificação dum dizer antigo: voz do povo, voz de Deus, que o mesmo é dizer D. Eduarda e D. Etelvina, personagens (andamentos VI e VII) que o poeta traz para o livro, ao mesmo tempo que Rilke, Cervantes, Rimbaud, Whitman, Apollinaire e Hemingway. É a guerra de África o que ressoa nessa polifonia dramática: “Nunca vi ninguém morrer sem medo. / Tínhamos medo nós a pressionar artérias / tinham medo os que viam o sangue derramar-se / gritavam pela mãe mais do que por Deus.” (p.21). Também aqui a poesia é grito, à semelhança do grito projetado a um Deus silencioso (“O gajo é surdo”), blasfémia que se compensa com a grata recordação dum médico que salva, com dois choques, um sujeito a braços com a morte.

Quando resgata do olvido a morte como tema literário, hoje banalizado em muita poesia portuguesa. Quer dizer: a morte é, neste livro, a reiteração da existência: se nos jardins do mundo as rosas estão mais tristes (poema V), se “há uma pétala a sangrar em cada rosa”, nem por isso, a poesia se suspende. Há dúvidas, é certo, mas no olhar retrospetivo está a chave para persistir e guardar a memória. Se Dona Eduarda diz que “o mundo nunca mais será o que era”, se essa voz do povo declara “Qualquer dia o mundo acaba”, se tudo isto é o fado, é caminhando “de noite pela página fora/ pelas ruas da cidade e da imaginação” (p.27) que o poeta se figura um possível Mandela, em demanda dum “outro verbo”, essa palavra de poesia “redigida nas margens da própria escrita”. Nas margens, isto é, a procura do livro, pois, como em Mallarmé, tudo nasce para ser livro. Mas Quando é um livro marginal, não só escrito à margem, mas que arrisca – e bem – na injunção à própria poesia que não se quer aburguesada, antes sílaba que, como em Sena, é a “pequenina luz bruxuleante” que brilha ainda. Num tempo sem poetas, sem “mesas disponíveis para um verso”, MA pergunta-se, pergunta-nos: “Como encontrar um eco de poesia?”.

Como Osip Mandelstam, este mundo pode bem ser a nova Sibéria... Babilónia ao mal presente...Tem razão Paula Morão ao associar este cântico de realismo atual à voz de Cesário – também Manuel Alegre escreve com uma “luneta de uma lente só” e observa que “o poema não tem código. / Imita um deus antigo” (p.35), pondo o humano no trilho do regresso ao início. Um verso vindo da própria obra circunscreve o leitmotiv da escrita: “Ontem não te vi em Babilónia”, diagnóstico certeiro já que, nesta época em que “Os ratos invadiram os computadores / e vocábulos nunca vistos geram monstros / devoram a memória” (p.37), dizer-se Babilónia é, para o Homem vazio desta época, um enorme nada. Dante é a voz que, com a de Camões, vem dizer “O poema é a última conjura” ou que a poesia é a fera final, a força que ainda resiste à desumanização em curso: tal mi fece la bestia sanza pace.

(*) JL 1307, de 4/11/2020, com uma entrevista com o poeta, pré-publicação do livro e o texto de Paula Morão aqui referido