"Por vezes tive a sensação de que um discurso pode mudar as coisas"
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Miguel Real sobre Tentação do Norte, de Manuel Alegre
História e Ficção
17-11-2021 Miguel Real, JL 1334, 17 a 30 de novembro 2021

Manuel Alegre (MA) publicou recentemente Tentação do Norte, uma novela, na qual faz uma espantosa combinação entre o passado e o presente, entre a história e a ficção ou o modo como se interpreta o passado, evidenciando os “imprecisos limites” (Teresa Cerdeira da Silva) entre ambos.

Se, de certo modo, para José Saramago a leitura do passado é sempre vista segundo a interpretação do presente; se, para Oliveira Martins, o passado da História deve ser visto no presente através de uma síntese estética, dotada de uma sólida força semântica; se, para Fernando Campos, a ficção deve apenas desenvolver-se nos intervalos da História, mantendo a integridade desta; para MA História e Ficção, passado e presente, como Tentação do Norte evidencia, entrançam-se de tal modo que, no final, no ato da escrita, aparecem fundidas, como, aliás, na sua poesia.

Não assim em toda a sua obra em prosa. Jornada de África (1989), Alma (1995) e A Terceira Rosa (1998) seguem o estilo clássico da escrita do romance, o que, em MA, devido à sua contínua prática poética, significa uma visão lírica do mundo, que a novela ora publicada também acolhe. Rafael (2004) é o romance que mais se aproxima do estilo de Tentação do Norte, no caso por via de uma vida clandestina que obriga Rafael a alterar continuamente o seu nome, como se os nomes da clandestinidade se constituíssem como a sua “heteronímia” viva, a sua (de Rafael) “comunidade só minha” de Fernando Pessoa.

A novela nasce de um conto enviado por Alexandre para uma revista, cujo diretor reenvia para Ju, identificada como a protagonista do conto, a mulher com quem, em plena clandestinidade política, Alexandre se encontraria numa praia do Norte. Segundo este, haveria entre ambos um “amor absoluto, uma mulher e um homem numa praia do Norte, liberdade suprema subversiva de tão total, maior ainda, clandestina porque secreta, nenhuma ordem aguenta um amor assim, sem casa, só praia, só alma, vento e mar” (p. 19). Gorou-se este encontro devido à perseguição de forças policiais ao “comunista” (p. 21) Alexandre (a PIDE, a Guardia Civil, a ETA, a CIA – todas são a mesma porque impedem a realização do encontro): “É difícil saber o que aconteceu. O que são factos e ficção” (p. 19). Não se realizando, o malogrado encontro tornou-se um mito na mente de Alexandre, repercutiu-se por toda a sua vida, transformou-se num desejo irreprimível (pp. 7/8 e 34), que agora, já em democracia, regressa como “tentação do Norte”. Como teria sido a vida de Alexandre se o encontro se tivesse realizado, ele que, ameaçado (“Vamos senão eles matam-te”, p. 17), foi obrigado a fugir para o Sul?

Ju responde ao diretor, não tendo a certeza de ser a protagonista do conto: “Não sei se sou ou não essa personagem sem nome de um encontro nunca materializado” (p. 29), criticando a pretensão da revista de a identificar: “… parece-me que não é muito curial tentar perceber o que na obra de um autor é ou não ficção. Não digo verdade, nem realidade, já que, em meu entender, ficção pode ir mais fundo do que a realidade e ser mais verdadeira que a verdade, passe a expressão” (p. 29). Ju, em nova carta, considera que Alexandre ficciona o passado, o momento do malogrado encontro, assumindo personagens de Tolstoi, quando, atacado e em defesa própria, disparou sobre um PIDE: “Vai-te lixar, Sasha (Alexandre) mais a tua literatura, não era preciso inventares uma tentação no Norte…” (p. 37), a história da clandestinidade política já passou, já ninguém quer saber da ‘Resistência’”, “E assim se foi um tempo, uma cultura, um imaginário” (p. 37), “Os velhos que somos não podem abraçar os jovens que naquele dia se separaram” (p. 38).

Alexandre descreve o ataque da PIDE de que foi vítima perto da fronteira, em Coa, e a sua resposta violenta. Mas aquiesce: “Esta é a verdade. Se é que tudo não é ficção de ficção, fruto do muito imaginar” (p. 43).

MA, como autor, dá-nos assim, em Tentação do Norte, as duas perspetivas da realidade: Ju, mais atreita à verdade do passado histórico; Alexandre, mais atreito à interpretação fabulatória daquele, sendo incapaz de esquecer o período da Resistência, de que teria sido excelso protagonista.

Do ponto de vista da obra de MA, Alexandre prolonga a sua obra poética, fazendo da História de Portugal a referência principal, cruzando-a com história pessoal, mitificando poética e problematicamente um conjunto de episódios, a Guerra Colonial, a Resistência ao regime do Estado Novo, D. Sebastião, diversos poetas, tudo narrado segundo a figura da alegoria. A que contrapõe o pragmatismo de Ju, que vive a história sem dela pretender ser heroína. Ju não está fixa na Memória; Alexandre é um monstro de Memória, que recusa vê-la esboroar-se no labirinto decadente dos recentes acontecimentos. Na sua memória pessoal, Alexandre eleva a História a Ficção, ficção histórica, posteriormente assumida como História.

Belíssima novela, para o leitor ler e aplicar à sua própria memória, o que conterá de história autobiográfica e o que conterá de ficção.