" e de tudo o que vi o que doeu / foi ver que se tentou mas que no fundo / mais desigual que nunca está o Mundo."
Manuel Alegre
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Paula Morão sobre 'Quando' de Manuel Alegre
Outro modo de resistir
04-11-2020 Paula Morão, JL, nº 1307, de 4 a 17 de novembro de 2020

Quando, datado de Setembro de 2020, é um poema longo estruturado em secções de extensão variável, mas unidas pelo predomínio do verso decassílabo, e trata do tempo: o de aqui e agora, mas também o de uma retrospecção ordenada cronologicamente, dando ênfase à memória como eixo de tudo e constituindo a espessura do poeta em tempos incertos. Quando – acontecimentos situados, a ganhar sentido e progressão; indica-o logo a abertura de I (“Estou e não estou em lado nenhum/ passaram tantos anos e foi tão rápido”), numa estrofe em que se abre um princípio de repetição (“Como encontrar”) e de interrogação que vai escandindo todo o texto.

Esse princípio sugere que Quando afinal se expande como uma sequência de perguntas em torno de um núcleo de questões sem resposta que o leitor já conhece, por serem constantes em toda a obra lírica, ficcional e de cariz ensaístico. Vejamos algumas delas.

Na secção I, a infância retorna, primeiro na memória sensorial: “O pica-pau frenético no cipreste/ a tia a tricotar: ‘Não comas mais ameixas’”; conhecemos as ameixas suculentas, trazendo consigo prazeres antigos e pulsionais, mas ainda não havíamos visto esta tia a tricotar, com a pequena batida ritmada das agulhas em ágeis mãos, nem o som do pica-pau. Juntam-se estes sons a outros na formação natural do ritmo, como aquela lembrança do miúdo que pregava pregos numa tábua (2010) – todos guardados numa memória disfórica, agudizada pelo desvanecimento das sensações e do bem que elas representam (“Só o pica-pau já não se ouve/nem se vê a tia a tricotar”). Os sons do Julho presente são outros, ruídos urbanos a perturbar o sossego que “não me deixa ouvir os melros nas traseiras” (os melros, como outros pássaros neste poema, presença possível do natural livre), e dão passagem para a evocação de outro Julho “em que pedra a pedra atravessei o rio” a caminho do exílio. Agora o que se chama é ainda a memória da guerra colonial, dos mutilados e dos feridos, dos emigrantes a salto, “pedreiros poetas tanta gente”. Já em II, os poetas regressam com os rostos dos “livros sagrados” (“Homero Virgílio Dante Shakespeare Camões”, ou, em III, a saga de Gilgamesh e as tabuinhas de Babilónia), sólidos alicerces de um percurso no presente ameaçado pela rapidez sem consistência do twitar, espelho de uma gente que só conhece a efemeridade, o deitar fora, o apagar. Contra isso se erguem a tradição e, nela, o ritmo dos versos martelando na cabeça; este motivo ressurge em VII com o “livro para escrever”, “essa coisa que talvez não seja/ senão um verso” que se lembra do alfobre de Cartago ou de Tróia (IX), um “nome sob a pele”, “palavra” que “roda roda roda”(IX), prestes a emergir.

Quando procede a uma revisão de vida, presentificando o que não volta mais mas saindo do eu para inscrever as vozes do mundo. Exemplares a este respeito são as secções “Jardim público” (VI e VIII), registando o diálogo entre a “D. Eduarda dos jornais” e a “D. Etelvina cabeleireira” acerca do vírus, vox populi que se regista com atenção e carinho. Em VII, acrescentando Rilke, Whitman, Apollinaire, Cervantes, Rimbaud e o Hemingway de Paris ao paraíso dos textos, junta-se-lhes Osip Mandelstam com o seu verso “A poesia é o poder” e os lábios que “mexeu até ao fim” compondo versos no campo de concentração. Ora em VIII, as duas representantes da fala comum que víramos em VI tecem um laço (para elas desconhecido) entre Mandelstam e o passante no jardim público, que regista nas falas delas o seu retrato: “D. Eduarda:/ - Anda a falar sozinho./ - A mexer os lábios?/ - A falar alto./ - Mexer os lábios é que é perigoso.”; assim o poeta se vê no espelho ingénuo mas tão certeiro da gente comum. “Versos bailando dentro em mim”, escrevera António Nobre, respondendo ao Cesário Verde “de luneta de uma lente só” a deambular por entre a luz e as sombras do seu tempo; Manuel Alegre vai com eles e com todos os outros que ecoam no “solitário andar por entre as gentes” camoniano – a falar alto ou mergulhando no mar de vozes em que se ergue a sua.

Do fim se torna ao princípio: Quando é de novo o canto e as armas, a cidade tem nova praça da canção. O poema de agora descreve e fixa o tempo que vivemos e que a datação assinala, e ao mesmo tempo ergue uma bandeira de resistência ao mal, chame-se ele vírus, esquecimento, ignorância, vontade de apagamento dos mais velhos e outras coisas mais. Este livrinho plasma um canto de louvor à memória e ao tempo, a uma história pessoal tecida de factos e de textos, todos os textos escritos, marcando no mapa do poema etapas essenciais da vida – a infância, a adolescência, a guerra colonial e o exílio, incluindo este agora de estar à janela e de ir ao quiosque do jardim público. Este canto a todos nos inclui e implica, a todos nos diz. Nestes tempos duvidosos (Ruy Belo), o poema é a mais pura voz da resistência – sempre, como sempre.