Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Ensaio de Maria Helena da Rocha Pereira escrito em 1994
O legado clássico
20-04-2017 Maria Helena da Rocha Pereira, JL
Sobre o livro de Manuel Alegre "Sonetos do Obscuro Quê"

Há muito que ele espreitava entre os poemas de Manuel Alegre: a forma lírica por excelência, o soneto. E também a sombra de Dante começava a ocupar um lugar de eleição entre outros nomes tutelares da poesia ocidental, desde os gregos e latinos a franceses, ingleses, americanos, espanhóis, enfim, a toda uma constelação sobre a qual o tempo não pousa as suas mãos pesadas. Se, em Praça da Canção, existe apenas um isolado soneto de intervenção («É preciso saber por que se é triste»), em O Canto e as Armas o seu número sobe para oito, sendo todos, com excepção da magnífica glosa camoniana «Aquela clara madrugada que», de reflexão ou exortação política, desde os aparentes «Sonetos de Ulisses», onde a amada é, como em Paul Eluard, a liberdade, até aos «Três sonetos com armas para toda a gente».

Ausentes dos dois livros de poemas a seguir publicados, os sonetos voltam em igual número em Coisa Amar (com destaque para os quatro, à moda de epitáfio, sobre Miguel Corte-Real). Voltam, sobretudo, na colectânea Atlântico, atravessada pelos onze sonetos do «Português Errante», que vão cerzindo as lições das crónicas com a experiência do presente. Dos sete livros posteriormente editados desaparece esta forma, excepto do último, Vinte Poemas para Camões. Mas entretanto surgira Dante: «In mezzo del camin», se intitula a segunda parte de Babilónia, e na quinta, ele é interpelado directamente. Depois, em Chegar Aqui, uma das epígrafes alógrafas é tirada do Inferno, e nessa obra perpassam as alusões ao poeta, à terzza rima, ao círculo dos condenados (com tradução de Inferno XIV. 13).

Os dois — o modelo e a forma — vão confluir no presente livro. Poderá perguntar-se porquê, tendo em conta quanto ao aspecto métrico, que Manuel Alegre, embora use a canção, os decassílabos, a sextina, tem privilegiado a quintilha, a quadra, o romance, a trova («Em trovador me tornei. / Se a voz do povo me chama / eu com ele cantarei» — como diz em O Canto e as Armas).

Poder-se-á lembrar que uma das teses mais conhecidas sobre a origem do soneto lhe aponta também origem popular, resultante da fusão de dois estrambotos sicilianos, um de oito, outro de seis versos. Mas este esquema versificatório teria sido em breve reelaborado por poetas maiores: Cavalcanti, Dante e, sobretudo, Petrarca. É consagrado principalmente à expressão do amor e à reflexão. A sua melodia própria (e não é mesmo a noção de «melodia» que está no étimo da designação?) exige um domínio da forma e dos sons que poucos possuem; e bem assim a concentração num conceito final, que surge como uma conclusão natural, ou então como uma farpa aguda, a apontar noutra direcção. Ora todas estas capacidades estavam presentes há muito na arte deste poeta.

E havia mais. Dante, que compôs, em La Vita Nuova e em Rime o Canzoniere, alguns dos mais belos sonetos da lírica italiana, teve no seu tempo uma activa participação política, que lhe valeu uma vida errante e o levou para longe «di quella nobil patria» (Inferno X. 26). Às afinidades daqui decorrentes vem juntar-se outra que está na essência deste novo livro: a ansiedade ante a fragmentação que ameaça a «soberba Europa belicosa», justamente numa fase da sua longa história em que as aparências decorrentes de actos públicos que deveriam ter um alcance sem precedentes proclamam a união.

Era essa a posição de Dante perante as lutas que dividiam a Itália que ele sonhava unificar. Por isso, não é por acaso que nesta obra de Manuel Alegre o trovador Sordello aparece mencionado no «Soneto 2», numa réplica ao v. 74 de Purgatorio VI, precisamente com uma parte da frase que precede a apóstrofe do poeta à Itália dilacerada da época. No mesmo sentido da identificação vai o verso do «Soneto 3»: Todos somos exilados de Florença

O livro abrirá sob a égide de uma epígrafe dantesca da Vita Nuova, anunciadora da forma escolhida: «I'arte del dire parole per rime», que vai ser o soneto. Esta é a forma disciplinada, ordenada, da grande tradição europeia, que se oporá, no «Soneto 4», qual vento de Pentecostes, à Babel e Nemrod da segunda composição (e note -se a simetria da colocação destes topoi):

Contra a grande desordem o soneto
A Provença a Toscana o Trecento
o vento lexical o paracleto
dicionário de rimas doce vento.

Contra as trevas e o caos eu te convido
convoco o três e os múltiplos de três
o Sordello de Mântua Arnaud e Guido.

Cada uma das dez partes em que se divide o livro terá, além disso, a sua epígrafe dantesca, tirada, ora de Vita Nuova, ora da Divina Comédia. Apenas se exceptua, ocupando quase o centro (na parte VI), uma citação das Rimas, de Cavalcanti, extraída do começo da mais famosa das suas baladas, a que compôs ao sair de Florença sem esperança de regresso (que, de resto, acabou por se consumar mais tarde, devido à doença do poeta). Deixando de parte a vexata quaestio da participação de Dante, aliás seu grande amigo e admirador, na ordem de exílio imposta pelos priores da cidade do Arno, salientemos apenas que este é outro poeta do exílio. Como ele, Manuel Alegre canta feitos e figuras contemporâneas suas (os dois sonetos anteriores exaltam a mensagem de Maio de 68 e a de Che Guevara), culminando na evocação aos «camaradas dos campos de batalha/ as armas e as guitarras destroçadas». Por isso o último terceto dessa última peça do grupo clama, apoiando-se na polissemia de «barbarismo», que tanto é o da linguagem como o da guerra:

Venha o oiro de um vinho de Chianti
e contra o barbarismo bem contadas
as sílabas de Guido Cavalcanti.

Voltemos, porém, ao começo do livro, ou seja, aos «Cinco sonetos da selva escura», que, abrindo com uma ténue intertextualidade camoniana, logo desfeita («Transforma-se a serpente em consoante»), põe na nossa frente «Europa do avesso sarça ardente». Os elementos da linguagem continuarão a ser personificados na quadra seguinte, iniciada sob o signo da desagregação, através do uso do mito virgiliano e dantesco de Cérbero: «três cabeças irrompem do fonema». O soneto começava com a fala do autor com Dante, mas é ainda uma outra figura, a de Bertrand de Born, o trovador limosino do século X IIXIII, campeão da liberdade, que vem identificar-se com ele. As palavras-chave desta parte do livro — a harmonia e a rosa, símbolos de um mundo melhor — fecham a composição:

dai-me a harmonia e a rosa que não há.

Dissemos palavras-chave, porque elas vão reaparecer, com leve modificação, como um leitmotiv, nos dois sonetos seguintes, embora em posições diversas — no meio do n° 2 e no final do n.° 3:

dai-me de novo a rosa e a harmonia.

Falámos há pouco de simetria. Essa completa-se com o soneto quinto. À fala de Dante com o trovador no terceiro verso do soneto 1, vai corresponder a apóstrofe do verso correspondente do soneto 5:

Vem ver ó Dante o século no fim
ajuda-me a romper o ciclo e o cerco.

A aliteração deste último verso, que remete para os círculos do Inferno, após um requisitório aos crimes do homem moderno e às suas ousadias, vai regressar na penúltima linha, para fechar com o mote dantesco inicialmente memorado:

Ajuda-me a romper o cerco e o ciclo.
Na selva escura. In mezzo del camin.

Se neste primeiro conjunto de poemas já perpassavam o átomo e a navegação espacial, no segundo, colocado sob a égide dos versos 71-72 do Canto I do Purgatório, referentes
à liberdade, é uma parte do panorama politico deste século que é evocada, quer no construir e desmoronar do sonho igualitário soviético («0 grande ziguezague») quer no destino amargo da Polónia («Cargas polacas»). Os sonetos em honra dos que tiveram grande intervenção política ou mesmo dela foram vítimas (Salvatore Quasímodo, Lorca, Jean Moulin, no bíblico «A Lira nos Salgueiros»; René Char em «Resistência») alternam com aquelas duas composições, como se formassem uma rima cruzada, neste livro em que nada parece ter sido deixado ao acaso.

Encimado por um terceto do C anto XXVI do Purgatorio (112-114), em que Dante explica ao poeta Guido Guinizelli a razão por que lhe mostra tanto afecto vem, naturalmente, uma terceira parte com cinco eleitos: Rilke, Ezra Pound, Lorca, João Cabral de Melo Neto, Fernando Pessoa.

Retratar em verso a arte e o percurso biográfico de um grande autor — neste caso, todos da modernidade — é uma prática frequente. Os três últimos, por exemplo, inspiraram já outros poemas portugueses (lembre-se sobretudo a «Saudação a João Cabral de Melo Neto», Alexandre O'Neill e «Túmulo de Lorca» e «Em Hydra, evocando Fernando Pessoa», ambos de Sophia de Mello Breyner, ou ainda «Pessoa Revisited», de Rui Knopfli). Mas, se, no caso presente, todos conseguem, com rara felicidade e não menor diversidade de meios estilísticos, desenhar o perfil de cada um, daríamos especial destaque ao de Rainer Maria Rilke, pela maneira como logrou captar a essência da poesia daquele que, como se lê na «chave de ouro», é «o que diz o indizível».

Poetas passam também no meio das acrobacias verbais dos sonetos da quarta parte, em que não vamos deter-nos. É que logo a seguir, tal como no C anto XI do Purgatorio, vão chegar também pintores: Uccello, Botticelli e o grupo constante de Cézanne, Picasso e Modigliani. Se, como se tem repetido desde Simónides, a pintura é uma poesia muda e a poesia uma pintura falante, «Os Cavalos de Uccello» são disso um exemplo excelente, com o seu virtuosismo quase alucinante. O pintor que passou a vida a estudar a perspectiva teria certamente ouvido com infindável deleite como os traços do seu pincel se transmudaram no ritmo frenético que percorre todo o soneto.

Se fosse preciso dar um exemplo da versatilidade estilística de Manuel Alegre, talvez escolhêssemos os «Sonetos de Amor» da sétima parte, que variam entre os jogos verbais do primeiro, o maneirismo do segundo e o ímpeto do terceiro, no qual marcam presença reminiscências literárias de amores toscanos (Beatriz), portugueses (Mariana, Teresa, Florbela), a caminho do terceto final, que culmina num oximoro, novamente com ressonâncias de Paul Éluard:

ela só me cativa e é liberdade.

Principiando com o enigmático verso que Plutão profere, em tom ameaçador, à entrada do Canto VII do Inferno, a VIII parte mergulha num ambiente de terror, de confusão, que o próprio enunciado, feito dos temores do nosso tempo, que irrompem do meio da enumeração caótica e do tumulto das assonâncias, sugere. E, neste mundo as sim pervertido:

- já não há Virgílio
para guiar-me a um reino de harmonia.
Por isso o meu cantar é outro exílio.

O terceiro soneto da série ecoa o do início do livro. A «Europa do Avesso» é agora a «inversa carta mapa do avesso». E, ao anterior «desagrega-se a rosa e a semântica» responde o verso «desagrega-se o mapa e o alfabeto». Também ele termina num apelo urgente:

quem traz canção quem traz a letra e o
som?

Espécie de poética do soneto, passando mais uma vez sob a sombra de Dante e seguindo O'Neill com mestria no seu difícil e famoso exercício dos «Quatorze Versos», em «Soneto do Soneto», e formando um não menos hábil contraste entre os homeoteleutos em catadupa das duas quadras de «Eloquentia» e a acalmia final do último terceto, a lembrar os preceitos do tratado do Florentino:

Mas como na Eloquentia se dizia
as palavras com «ritmo e harmonia»
as «ásperas» e as «doces» misturadas

a nona série vai culminar com uma composição que é indirectamente mais um, e não dos menos belos, elogios da Língua Portuguesa, aquela que Afonso Lopes Vieira dissera estar habituado a falar ao mar e aos ventos. E mais uma vez perpassam neste poeta embebido de camonismo, trechos de Os Lusíadas, que o próprio nome do nosso poeta máximo vem convocar.

Sabem todos os leitores da Divina Comédia que as suas três partes terminam com a palavra stelle, que no Florentino é metonímia do céu e da sua felicidade inalterável, a que o autor aspira. Tem, portanto, como afirmam os comentadores, um valor premonitório e ao mesmo tempo augural. Não é, porém, esse o papel emblemático que assumem aqui asas. Elas funcionam como o símbolo da meta principal das viagens espaciais, da tentativa de desvendar as origens e os limites do Cosmos, velha questão que os primeiros filósofos gregos equacionaram no seu espírito e no seu ensino e que a moderna astronáutica pretende resolver com os nunca sonhados meios técnicos de que dispõe.

Mas este e muitos outros progressos da ciência não despertam no poeta o calor do entusiasmo que no chamado Século das Luzes percorre tantas obras de vates setecentistas, extasiados com os progressos do Homem. É que este saber não é gerador de esperança, mas de ansiedade. E esta ansiedade, que começara por se manifestar ante a desagregação de povos e nações, está agora confrontada com o «Obscuro quê» que dá o nome ao livro e ao seu penúltimo soneto. Por isso, um advérbio de dúvida («mas cuidado com os advérbios», lia-se na página anterior) é tudo quanto resta da esperança para religar de novo o desalento presente ao luminoso verso de Dante:

Talvez o nunca dantes desvendado
em outras naves e outras caravelas
«a caminho do sol e das estrelas».

Estas são algumas das várias leituras possíveis que um notável livro de poesia nos pode oferecer. Mas uma obra de verdadeira arte tem sempre muitas mais, que não caberiam numa simples apresentação. Quem o ler julgará por si, na certeza de que, para além da sedução dos ritmos e da forma, encontrará sempre por trás um espírito empenhado nos grandes problemas do nosso tempo, alguém que sente reflecte nos convida a meditar sobre o destino do homem e, em ligação com ele, sobre o destino e a missão da poesia.

Publicado no JL em 4.1.1994