Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Eugénio Lisboa sobre "Uma outra memória"
Prosas de um poeta
13-04-2016 Eugénio Lisboa, Jornal de Letras

Manuel Alegre, notabilíssimo poeta (...) acaba de publicar um livro de bem apetecidas prosas (retratos, testemunhos, esboços, conferências), a que deu o título de Uma outra memória e o subtítulo de A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos. É um livro rico, variado e, não raro, de leitura empolgante, que recomendo sem reservas: recolhe escritos de ocasião, mas um “escrito de ocasião” não é, necessariamente, um desperdício a enviar para o incinerador.

O estilo é a eficácia da asserção.
George Bernard Shaw

Conheço poetas que não sabem escrever. São bons poetas, manipulam metáforas com alguma perícia e, mesmo dotados de mau ouvido, lá vão construindo um ou outro poema que vale a pena conhecer. Mas são incapazes de redigir uma prosa articulada e escorreita. E também se mostram incapazes de pensar, o que se chama realmente pensar. Dizem, sem pestanejar, as coisas mais arbitrárias e, às vezes, em momentos de menos sorte, os maiores dislates. São poetas, por obra e graça de não sei quê, mas revelam-se rebeldes à sedução da prosa clara, bem construída e bem pensada. Escrevem, muitas vezes, coisas “geniais” mas que, submetidas ao escrutínio severo da razão, se mostram, aflitivamente, sem pés nem cabeça. Há muito disso por aí e aparece até quem defenda - e premeie – patetices que passam por “inovação”. Há até quem defenda que convém ser um bocado iletrado, para se ser escritor que valha a pena. Il y en a de toutes les couleurs. Podia dar exemplos, mas não vou dar.

Manuel Alegre, notabilíssimo poeta, não pertence a esta categoria que acabo de esboçar. Acaba de publicar um livro de bem apetecidas prosas (retratos, testemunhos, esboços, conferências), a que deu o título de Uma outra memória e o subtítulo de A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos. É um livro rico, variado e, não raro, de leitura empolgante, que recomendo sem reservas: recolhe escritos de ocasião, mas um “escrito de ocasião” não é, necessariamente, um desperdício a enviar para o incinerador. Muito escrito de ocasião terá ficado como medalha perene e citável de um grande escritor. Nestas obiter dicta de Manuel Alegre, há várias passagens com suficiente cintilação para evidenciarem vocação para futuras citações que os dicionários hão-de recolher.

Manuel Alegre é um poeta cantabile, um poeta com oficina, que mergulhou, com ouvido aguçado e mente desperta, nos antigos cancioneiros, que a sua evidente modernidade não rejeita. Sabe do ofício – e esta é talvez uma das causas de tanto mau sangue que provoca em oficiantes de uma (des)arte poética, os quais quase nunca visitaram a sério as oficinas onde o canto se fabrica. Nada desassossega tanto um poeta sem “arte poética” como a arte poética que um rival totalmente domina. Não se pode ser oficiante de nenhuma arte sem se conhecer as ferramentas dessa arte: quantos dos nossos poetas já leram as várias artes poéticas que os séculos nos legaram, de Aristóteles para cá? Quantos folhearam um bom tratado de versificação? Não para caninamente lhes obedecerem, mas para saberem do que se tem tratado e estarem conscientes dos “desvios”, quando, com estudado propósito, queiram cometê-los. Não se descobre a teoria da gravitação, odiando a Física, como não se pinta a Mona Lisa, odiando a pintura. Não se faz poesia, odiando figadalmente a grande poesia (este “desapego”, chamemos-lhe, caridosamente, assim, esteve talvez na origem de uma antologia recente, de poesia religiosa, que excluiu poetas como Régio e Miguel Torga: o mesmo seria fazer uma antologia de prosadores de ficção realista, excluindo Eça e Fialho).

Manuel Alegre, sumo oficiante de uma arte poética moderna, mas que foi alimentar-se dos frutos silvestres do grande cancioneiro português, é igualmente praticante de uma prosa lavada, certeira, assertiva, musical, perceptiva e…inevitável (Yeats, grande manipulador de palavras, observava que “as nossas palavras devem parecer inevitáveis”).

Este seu livro, dividido em 9 blocos, dedica um substancial espaço a gente de letras (poetas e ficcionistas: Sophia, Torga, Natália, Cesariny, Eugénio de Andrade, Pedro Homem de Mello, Herberto Helder, Fernando Assis Pacheco, José Carlos de Vasconcelos, Maria Teresa Horta, Luandino Vieira, António Lobo Antunes, etc.) Outro bloco – IV – é dedicado, sobretudo, a gente de acção (Humberto Delgado, Zenha, Soares, Cunhal, Amílcar Cabral, João XXIII, etc.) Outro, ainda, a gentes da música (Amália, Zeca Afonso, Adriano, Carlos Paredes, etc.) O 25 de Abril, a Europa, a Liberdade, a Utopia são “apanhados” noutras secções.

É difícil falar de um livro tão variado e tão rico, sobretudo num espaço limitado como o desta crónica. Por isso, Manuel Alegre – já ficou claro quanto o admiro – perdoar-me-á que, mesmo assim, gaste algumas linhas deste meu texto, assinalando uma omissão, originada talvez num preconceito geracional. Na magnífica conferência intitulada “Uma visão poética”, proferida por ocasião da inauguração da cátedra Manuel Alegre, na Universidade de Pádua, Alegre diz o seguinte: “Cantores da liberdade foram quase todos os grandes poetas do século XX, de Sophia de Mello Breyner a Miguel Torga, passando por Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Alexandre O’Neill, António Ramos Rosa, David Mourão-Ferreira, Mário Cesariny e quase todos os da geração seguinte.” Não podia estar mais de acordo, quer com a asserção, quer com os poetas citados. Mas estranho, pelo menos, uma grande ausência: a do poeta que escreveu o mais extraordinário e eloquente poema-bandeira da verdadeira independência e audácia na busca de “caminhos inexplorados” e que é também o autor de algumas das mais contundentes sátiras que se escreveram contra o Estado Novo, contra os ricos mancomunados com o Estado Novo e com a Igreja casada incestuosamente com o Estado Novo (ver os poemas do livro A Chaga do Lado: “Os felizes à força”, “Reportagem”, “A cidade ideal” e “Non est hic”; referindo-se, a propósito destes poemas acutilantes, à “coragem social” de Régio, David Mourão-Ferreira, numa crítica publicada ao livro citado, no Diário Popular, em 27 de Outubro de 1954, afirmava: “ (…)nem só a indignação o iria conduzir declaradamente aos caminhos da sátira: a isso o predispunha também o seu desassombro e a sua coragem. Espanta como este aspecto da sua personalidade poética tem sido tão negligenciado: Régio é, dos poetas portugueses, de todos os tempos, um dos mais corajosos, dos mais desassombrados. Por tudo isto”, conclui Mourão-Ferreira, “sátiras como Reportagem, _Os Felizes à Força,_ A Cidade Ideal e Non Est Hic ficarão, segundo cremos, como altos modelos do género, em língua portuguesa.”) Eis por que “apagar” o nome do autor de As Encruzilhadas de Deus, de entre os grandes e corajosos “resistentes” do nosso lirismo me parece tão inaceitável como riscá-lo de uma antologia que acolheu poetas preocupados com o problema religioso. Régio pagou, pela coragem de publicar A Chaga do Lado, o preço forte: a Igreja, na figura desse eminente “scholar” que foi o Padre Manuel Antunes, depois de anos de apologias, louvores hiperbólicos e hosanas ao poeta, virou-lhe as costas, em reacção furiosa às sátiras contundentes que não pouparam nem a Igreja, nem o Estado, nem os poderosos empresários da Reportagem... Continuar, pois, a “ignorar” esta grande figura da nossa cultura, a pretexto de nem sei quê, não rima com o discurso eloquente, elegante e limpo, que atravessa este belo livro de Manuel Alegre. O que nos diz, nele, da Europa, do capitalismo selvagem, do “bom socialista” em contraste com o “mau socialista”, ou da tirania dos mercados e da globalização, tem a marca da mesma língua de fogo com que celebra a poesia e as suas várias moradas.