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Manuel Alegre
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Baptista Bastos sobre "Uma Outra Memória":
Um extraordinário livro de um grande português
08-04-2016 Jornal de Negócios

A vida de Manuel Alegre confunde-se com a História do país, num percurso acidentado, mas sempre consagrado à liberdade, no que essa opção significa de honra e de perigo.

Manuel Alegre é um dos maiores poetas da história da literatura portuguesa. Faz parte do imaginário de uma ou de duas gerações que leram ou ouviram o grande português, em épocas ominosas da pátria, a proclamar, com a força poderosa das convicções, que a esperança tem sempre razão. "Mesmo na noite mais triste/ em tempo de solidão/há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não." Pertence ao património moral e cultural da Resistência, e é daqueles que nunca poderá ser acusado de lesionar a liberdade. A sua vida confunde-se com a História do país, num percurso por vezes acidentado, mas sempre consagrado à liberdade, no que essa opção significa de honra e de perigo. É um grande poeta, não é de mais dizê-lo, num tempo em que os leopardos foram substituídos por chacais. Um poeta que se não fixa, apenas, nesse património moral de combate. "Senhora das Tempestades" é um momento altíssimo de criação que pertence aos lugares mais selectos da nossa lírica. Releio-o com a frequência que as circunstâncias exigem.

Alegre acaba de publicar, pelas Edições Dom Quixote, mais um livro notável. "Uma outra história", a que apôs o subtítulo: "A escrita, Portugal e os camaradas dos sonhos." Prosa, e prosa de primeira água, filiada nessa grande tradição portuguesa de memória e de reconhecimento. Um livro de afectos e de cumplicidades, de memórias e de evocações, para que não nos esqueçamos daqueles que foram os autênticos autores de uma comovente história portuguesa. E, também das situações organizadas num país sequestrado, que colocava nas cadeias, no exílio e no desespero os seus melhores filhos.

Eis a lembrança de um homem por quem passaram grande parte dos acontecimentos ocultos ou dissimulados por aqueles que se julgam os vencedores eternos, quando não passam de biltres momentâneos. Para que não nos esqueçamos e não permitamos que, à sobreposse, façam do esquecimento uma espécie de carta-de--alforria. Manuel Alegre é uma testemunha privilegiada, por vezes única, de acontecimentos que homens decentes, corajosos e abnegados fizeram numa luta desigual contra o fascismo. Este livro belíssimo devia ser indicado para que as escolas o lessem e as gerações mais novas, novíssimas, aprendessem a grandeza de uma luta empolgante pela natureza desigual dos que desejavam viver em liberdade e daqueles, perseguidores, que defendiam o contrário, com a tortura, a perseguição e a polícia.

Este livro, composto de vários capítulos, é um acto de pedagogia e um compromisso com a pátria. Há muito tempo que um texto me não emocionava tanto, quanto este "Uma outra memória." Ele ensina quem desconhece ou oculta a verdade de tempos afinal tão perto, e dos quais se não fala por malevolência política e ideológica. É uma pedra de oiro na obra do grande poeta, que foi um resistente generoso, e que pertence ao património mais nobre da vida moral e cultural da pátria. Por igual, ele distingue e abraça os que, de todos os credos, se envolveram na batalha, por vez insana, pela liberdade.

Este livro enobrece o autor e nobilita-nos como leitores gratos.