Manuel Alegre e o Brasil: "Em momentos de escolhas decisivas não se pode deixar de tomar partido."
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Apresentação de Bairro Ocidental
A restauração da palavra poética
26-05-2015 António Carlos Cortez
António Carlos Cortez

Neste texto, o autor retoma e desenvolve a recensão literária "A mente agita a matéria", publicada no JL e apresenta Bairro Ocidental como um "livro extraordinário" que novamente nos vem "pedir uma tomada de posição em face dos ataques constantes que a política tem vindo a perpetrar contra a palavra de poesia."

A mente agita a matéria ou a restauração da palavra poética

Lido Bairro Ocidental (edições D. Quixote), de Manuel Alegre, não podemos ficar indiferentes.

Apesar da descaracterização mental a que as gerações mais novas estão sujeitas, e por muito que se declare que a poesia se faz com palavras e não com bons sentimentos – algo que Alegre sabe muito bem – este livro de poemas comprometidos com uma ideia e uma causa – Portugal – suscita, promove, activa o que em nós há de fidelidade a um valor supremo que a Europa tecnológica e «burrocrata» (Ah, Herberto!) tem vindo a pôr em causa. Esse valor é o da liberdade. Disso nos fala a voz destes textos gizados a régua e esquadro, todos eles herdeiros do que a obra anterior de Manuel Alegre fundou: esse lirismo épico, feito da restauração de formas tradicionais, para nos lembrar que Portugal começou como pátria de poesia. Lirismo-épico que, de livro para livro, se aprofunda como fidelidade a uma língua, a portuguesa e fidelidade a uma linguagem poética que é «música de som e de sentido», como pedia Paul Valery.

Bairro Ocidental é, sob esse prisma, um livro extraordinário, pois articula no seu fazer, quer a língua poética elevada, culta, de camoniana ou pessoana dicção, como não enjeita um léxico mais violento e mesmo certa virulência através da qual a voz de um sujeito testemunha das andanças do país e do mundo. Essa voz atinge-nos na sua digna e autêntica revolta.

Se nos referimos hoje a este livro como possível cântico de exortação a um país e a uma certa Europa que tem estado amordaçada, tal se deve à sensação de que em Bairro Ocidental a literatura, a poesia, novamente nos vêm pedir uma tomada de posição em face dos ataques constantes que a política tem vindo a perpetrar contra a palavra da poesia. Não creio que no actual momento histórico que atravessamos qualquer indivíduo que seja movido por um desejo de mudança possa ficar indiferente ao desafio lançado pelos versos deste livro.

Em nome da palavra certa, certeira, justa, limpa
Tem sido visto, quanto à poesia de Alegre, que o autor não se exime a pensar qual o lugar do poema num tempo em que, no dizer de Michel Meyer, o poema é um não-lugar. Vivemos, de facto, uma época marcada pela ascensão da palavra plástica, desde a publicidade à educação, onde impera o formalismo mais nefasto.

Num ensaio recente de Antoine Compagnon – e em diversos ensaios, diga-se, dos mais diversos autores e nas mais diversas latitudes – a preocupação com que pode a literatura, mais do que tentar definir o que ela é, surge num quadro mais vasto de problemas que não podemos ignorar e que se relacionam com uma espécie de combate invisível que vem sendo travado entre poesia e política, ou entre a linguagem da arte e o que, para Benjamin era a mercantlização da arte e a perda da aura.

Manuel Alegre não tem virado a cara a esse combate e, contrariamente ao que uma certa crítica bem pensante e muito pós-moderna afirma, esse combate não encerra qualquer serôdio romantismo ou qualquer umbicalismo. Trata-se de um combate que, mergulhando as suas raízes numa postura cívica que ao poeta se pede que tenha, poderia promover, congregar vontades e animar a vida em colectivo. Um combate, já agora, encarado por outros antes de Manuel Alegre. Um combate em nome da palavra certa, certeira, justa, limpa. Um combate que, de Novalis a Rimbaud e deste a T.S.Eliot ou Breton se fez em nome da imaginação humana, em nome da vontade de superação do homem, que outra coisa não é senão esse «desejo de futuro» que nenhuma agoridade pode bloquear, como bem vê Manuel Gusmão ao referir-se ao poder da literatura e das artes como discurso de infinitos possíveis verbais. Combate, pois, entre língua técnica e língua de tradição, para relembrar a profecia de Heidegger quanto aos perigos que a humanidade corre quando a palavra de poesia sucumbe ao fetichismo da palavra técnica...

Não foi esse, de resto, o combate realizado por Cesário, poeta que trabalhou os seus alexandrinos como se de cristais se tratassem, em versos «originais e exactos», apurando-os, para que melhor mostrassem a miséria de um país onde nas ruas, ao anoitecer, a soturnidade, a melancolia, «as sombras, o bulício, o tejo, a maresia» lhe despertavam o «desejo absurdo de sofrer»? Não foi esse o combate levado a cabo pelo próprio Pessoa, sempre tão intelectual, mas que exigiu, logo em 1912, uma postura ética por parte dos homens de letras ao ver a decadência de uma geração?

E quanto a Torga, ou Jorge de Sena, não exortaram os seus contemporâneos a uma revolta em nome da liberdade e de que a poesia seria a «pequenina luz bruxuleante» (Sena), transportada pelo poeta, «Orfeu rebelde» cantando como é? Para não irmos mais longe, não foi esse o caminho de luta seguido por poetas tão diferentes como Sophia de Mello Breyner, pedindo à poesia o que a política não podia dar - «uma casa limpa», uma «túnica sem costura»? E que luta foi a de Carlos de Oliveira? Para o autor de Cantata não era o poeta esse vindante que, descendo ao fundo «da mina obscura e insondável» da linguagem queria «acender o granito das estrelas» e dar às «rudes e breves» palavras de ferro a «leve têmpera do vento»? E O’Neill, que clamando por uma poesia não adjectivante entendia dever passar tudo pela refinadora, não foi um dos mais exaltados poetas que tivemos contra a linguagem da política (é ler «Um Adeus Português», um verdadeiro cântico contra quaisquer estirpes do vírus salazarista, poema feito contra a «pequena dor à portuguesa / tão mansa quase vegetal»)...

E (ainda) Ramos Rosa ou Herberto Helder, em cujas vozes o combate entre a liberdade livre da palavra de poesia tanto originou poemas como «O boi da paciência» como esse conjunto de poemas finais de Herberto, os de Servidões onde se destrói a linguagem corrompida das servidões quotidianas para atingir a «língua plena»... que luta foi, de facto, a deles senão a mesma que o autor de Bairro Ocidental igualmente trava?

Contra as palavras que não são daqui
Manuel Alegre sabe bem a tradição a que pertence. Poderia, como Ruy Belo, escrever um ensaio sobre a guerra surda que hoje a palavra poética, a palavra que se quer limpa, tem de levar ao campo inimigo: o campo dessa outra ordem de linguagem, a linguagem política. Em face do economês mais aviltante e que tudo transforma em folha de excel e por meio de cujo léxico especializado e equações herméticas, a dita «engenharia financeira», nos põe de rastos, que nos vem dizer Manuel Alegre neste seu recente livro? Creio que principalmente isto: que se escondem crimes contra a humanidade perpetrados por uma oligarquia de «burrocratas».

Em face de um país que rejeita ser um bairro ocidental, porque fundou uma língua que foi de cultura e de poesia na Europa entre os séculos XII e XIV e soube abrir-se ao contacto com outras culturas e gentes, integrando no seu léxico e na sua semântica formas de dizer o real que nenhum acordo ortográfico feito sem pés nem cabeça (a não ser os pés e a cabeça desse ídolo pós-moderno, o dinheiro, a quem tantos vendem a alma... e o país e língua de Camões); em face de uma aventura do signo que Alegre não quer que seja, actualmente, canto do cisne, é este livro um documento que, daqui a alguns anos, será lido pelos mais jovens com «proveito e exemplo» e, se a «amnésia qualificada» em que temos vivido e formado os nossos jovens, o permitir, será um livro de poemas que lembrará a quem não viu que o fascismo é vírus mutante, hoje com formas insidiosas contras as quais o poeta se revolta e diz lembrando a «Esparsa ao Desconcerto do mundo», de Camões:

Está tudo inverso: o longe o perto o certo o incerto
no grande desconcerto tudo aberto
direito avesso um verso onde tropeço
e um som disperso um tom onde me perco
horizonte encoberto. E há um aperto
no coração um tecto baixo um cerco
um sono sobre o Mundo um desacerto

Para além da acusação aos mandarins da Europa, o dedo acusador de quem escreve aponta aos nossos próprios mandarins. Como Cesário também a imagem de uma atmosfera irrespirável - no caso de Cesário, em «O Sentimento dum Ocidental», um «céu baixo e de neblina», de londrina e ominosa treva, no caso de Alegre um tecto baixo que asfixia, pois a linguagem negra com que se diz e vive o real, e que pesa agora sobre as ruas deste bairro ocidental é essa que se ergue contra nós, os que gostam da poesia de facto e entendem o sentido do combate. Manuel Alegre exclama, reclama para a restauração de uma palavra pura um discurso contra:

Contra as palavras que não são daqui
contra o cifrão contra a agiotagem
contra o défice nosso de cada dia
pela batida do poema
pela guerra da linguagem
e uma cantada luta de libertação
pelas ribeiras da tua língua
pelos salgueiros onde os pássaros
cantam à tarde nas vogais
pelo ritmo da nação pelo seu canto
pelas palavras dos pais dos nossos pais

Vale a pena lembrar Hanna Arendt neste contexto. Se a poesia, como disse um dia Jean Onimus, é um libelo contra toda a sorte de anquilosamento do ser, assim nos ensinou o surrealismo, etapa final de uma poesia moderna que compreendeu quanto a poesia para o ser deve afirmar que a poesia é «aventura da linguagem», para a autora de Homens em Tempos Sombrios, é na poiesis que reside a verdadeira liberdade humana. A política tem de ser resgatada ao império do mecanicismo e do tecnofascismo em curso. O poeta responde a esse repto. Não se enclasura em si mesmo, socorrendo-se unicamente da sua capacidade de pensar a sós. O poeta – Manuel Alegre – sabe que a liberdade existe onde a condição plural do homem não seja desconsiderada. E por isso é que liberdade é acção e um indivíduo só é livre quando está agindo, nem antes, nem depois – é-se livre quando e enquanto agimos.

Poesia feita para ser cantada na ágora
Poesia e política de mãos dadas na poética de Alegre porque a acção do poema convoca a acção política e nesse sentido a acção política só pode ser entendida como liberdade se a liberdade não sofreu nenhuma forma de funcionalização, de instrumentalização. Por isso é que o poema é um labor outro que não se compadece dos resultados imediatos ou do desempenho em si mesmo. O poema é traçado com o rigor e a ponderação de quem sabe que o signo é cisne mas o seu canto um cântico a manter-se vivo. Que nos dizia Arendt? Que, tal como acontece com a poesia, a política deveria ser valorizada pelo seu virtuosismo, no sentido que lhe deu Maquiavel... Não Merkel(avel).... Entenda-se como estamos perto da estrutura profunda dos poemas de Alegre: se a política – que é da polis – deve ser entendida pelo seu grau de virtuosismo, pelo se grau de virtù, é porque a política se dirige a uma audiência e o facto é que Alegre, na dicção que consigo transporta, herdeiro que é de Sophia de Melllo Breyner, não esquece que a poesia é feita para ser cantada na ágora, dita para alguém que ouve. O facto é que os horrores do século XX, a tecnologia como ideologia da formatação – do Nazismo ao Estalinismo – cerceou a liberdade humana como possibilidade real de fazer a «polis» no sentido grego e original do termo: liberdade como consciência da acção virada para o colectivo. Alegre canta, assim, a liberdade entre iguais, obtida, à maneira fundadora grega, não no relacionamento consgo próprio, mas sobretudo na interacção com os outros.

Daí que o lirismo-épico de Alegre propenda a essa mesma tese que Hanna Arendt defendia em A Promessa da Política: se a acção política fosse produto de fabricação no sentido aristotélico, se a política fosse poiesis e não praxis, se tivesse um fim exterior à mesma, não dependendo mais do processo que a gerou, o Homem obteria a «vitalidade do espírito da fundação» (Arendt, 1988): não teria de recordar ou repetir a liberdade livre, pois pela prática poética a condição humana ascenderia a patamar de consciência que abriria o humano a esse infinito «novo começar» ancorado numa promessa da poiesis. Um novo começar que se diz, em grego, «archein»: que traduzido podemos dizer que é sinónimo de governar, de «prattein», isto é, de pôr em movimento, gerar, movimentar, conduzir «com todas as palavras» a comunidade a uma linguagem, a uma palavra restaurada que diz a traição dos tempos:

Não vou tirar palavras do fundo do poço
antes venham da rua ou das estrelas
ou até da puta que as pariu
palavras que servem para tudo
mandar obedecer
vender a alma ao diabo
que venham como são
em letra impressa mal escritas
mal faladas
passadas à socapa por debaixo da mesa
ou coladas ao microfone
em grandes bocas prontas a engolir
palavras cuspidas profundas pervertidas
não há outras senão estas palavras
compradas vendidas
embrulhadas em notas
trocadas em moedas
as mesmas que Judas disse
e com que dia-a-dia
a palavra do homem está a ser traída.

Contra a opacidade da palavra técnica a clareza da palavra poética
Contra a opacidade da palavra técnica a clareza da palavra poética. Pode corresponder, em Bairro Ocidental, a um vocabulário literal, absolutamente descritivo (no que descrever tem de desvelamento do homem na sua condição de bicho nas malhas que os impérios tecem): «Os meus primeiros cadernos estão aqui / cheios de sangue e merda e lama / com poemas escritos à pressa no intervalo / de um combate ou de cócoras a cagar / no meio do mato. Poemas decorados / quando na cela não havia papel / e eram ditos em voz alta ...». Contra a queda do signo na prosa mundana, o poder da rima aliando-se a uma sábia vertente sarcástica, activando, num livro iminentemente lírico, uma forte dimensão panfletária. Noutros textos, por exemplo em «Eis que», o tom comprometido acolhe o registo mais intimista, meditando-se sobre o tempo e o modo como o tempo se traduz em auto-exílio-interior. Manuel Alegre faz do poema a experiência do mundo e o mundo transfigura-se texto, experiência de uma linguagem renovada. O poeta é figurado, para além do que dissémos já, como sujeito toldado de merencória heroicidade: é o ainda o portador da harpa, o mentor do colectivo. Mas sabe-se indesejado: apenas a si assiste, anónimo e involuntário: «Eis que o tempo é uma curva / e ele próprio anda curvado / a cor perdeu a cor / o amor o amor perdeu / não vejo ninguém comigo / ninguém a não ser eu» (p.34).

Bairro Ocidental pode, paradoxalmente, incomodar os que, falando de poesia, vão acusar Alegre de anacronismo ou de outro «ismo» qualquer... Mas o autor de Doze Naus reitera o seu projecto, a sua herança: diz-nos que a poesia pode ser ainda «praça da canção» de onde devemos, para que a Europa nos oiça, gritar o sul, o sol, o sal de um povo que resiste e diz não. A hora que vivemos impõe este livro de versos contra o inverso do mundo. E por muito que se peça ao poeta que desapareça e/ou faça da poesia o desfiar de bacocas experiências nocturnas em bares de ocasião ou cântico dos desencontros regados a desencanto pós-moderno, Manuel Alegre – como outros, que não embarcaram em futebóis fáceis de uma novíssima poesia tantas vezes pífia e banal, como a ditadura do banal que nos escraviza – recusa essa postura pseudomarginal, não traindo o verdadeiro realismo de que se faz a poesia: o realismo da palavra, sabendo que «Uma gramática não guarda a vida. / e o que fica de nós é o que não fica. / Ninguém ressuscita da sua própria / escrita.» (p.36).

Uma exaltante forma de a poesia acreditar na sua capacidade de resistência
É este, portanto, um livro verdadeiro. Não é falsificação ou contrafacção de discursivismos pejados de jargão e jactância, torrenciais e plenos de verborreia.... Insiste Manuel Alegre em pensar o país e os portugueses, seja em quadras ao melhor gosto ibérico, cancioneiril («Cavalos brancos me levaram / por mim por ti se perderam / e nunca te encontraram / e nunca me trouxeram // ... // Por sobre as águas passaram / sobre a espuma e a areia ardente / e nunca chegaram / ao país ausente» (p.31), seja em clave mais intempestivamente saudosa de uma «Paris 64» quando exílio rimava com «a solidão absoluta», o «desamparo das estações de metro à noite / contra a adversidade do mundo»... e «apesar de tudo e contra tudo / amar» (p.46).

Bairro Ocidental é, se quisermos, uma exaltante forma de a poesia acreditar na sua capacidade de resistência e, com isso, não cair na estafada suspeição de si enquanto tal. Desse ponto de vista, o equilíbrio entre as partes do livro, (doze poemas as duas primeiras secções e cinco poemas a parte final) deixa adivinhar uma tripartição pensada, funcionando a secção do meio como suspensão entre o libelo inicial, espécie de exórdio ao auditório a que se dirige (a secção primeira) e a peroração, o relembrar da lição do passado, que é a secção que fecha o livro.

Lirismo magoado e riso perante os alvitres de uma Europa que, entre Cassandras e novos Príamos, não vê que o cavalo de Tróia está já «dentro da cidade», «Resgate», título de um poema que ironiza a linguagem tecnocrática dos troikistas, é dos textos onde melhor se mostra (e demonstra) a atmosfera em que se redigiu este conjunto de 29 poemas.

A palavra poética que fere de morte a palavra política e tecnocrata
Olhando para os milhares de desempregados, para a falência de milhares de empresas, observando e mordendo fundo a fúria contra os diversos tipos de traidores de que Portugal e Europa hoje são feitos, Bairro Ocidental diz isto: «Há qualquer coisa aqui de que não gostam / da terra das pessoas ou talvez / deles próprios / cortam isto e aquilo e sobretudo / cortam em nós / culpados sem sabermos de quê / transformados em números estatísticas / défices de vida e de sonho / dívida pública dívida / de alma» (p.16). Tudo porque, como diz o poeta: «Não podem cortar quem somos». E o que somos, o que nos faz ser do sul passa por essa sageza da ironia e de que o poema que dá título ao volume é excelente exemplo. É que nós falamos de lirismo-épico em Alegre, mas neste livro a dicção alarga-se, expande-se e recupera outra dimensão da palavra poética que morde seriamente e fere de morte a palavra política e tecnocrata. É que em Bairro Ocidental o riso traduz-se em lágrimas. Sejam elas de raiva, sejam de lamento, a mensagem, o poder transfigurador da poesia aí está, fazendo-nos rir, ou sorrir, ou pensar na gravidade do tempo em que:

Na Eurolândia tudo é permitido bruxela-se um país berlina-se outro um dia ao acordares estás eurodido e o teu país efemizado é só um couto. Um sítio à venda: Bairro Ocidental. Não já o rosto com que Europa fita mas a teta dos juros e do capital com sol pròs velhos da Europa rica

Ciente de que uma poesia assim pode estar fora de moda, Alegre não deixa de insistir em certas palavras perigosas («Não digas pátria: essa palavra está malvista / proibida pelo Império Orçamental. / Eurogrupado: tu e os maus da fita / filhos do sul e do pecado original»); ou «povo», o grande esquecido da História. Bairro Ocidental é, em última análise, um livro imerso na experiência contemporânea, fazendo entrar a História no poema, contra o esquecimento e a formatação tentaculares.