Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
António Carlos Cortez sobre "Bairro Ocidental" de Manuel Alegre:
A mente agita a matéria
13-05-2015 António Carlos Cortez, JL, de 13 a 26 de maio de 2015

Lido Bairro Ocidental (edições D. Quixote), de Manuel Alegre, não se pode ficar indiferente. Apesar da descaracterização mental a que as gerações mais novas estão sujeitas, e por muito que se declare que a poesia se faz com palavras e não com bons sentimentos – algo que Alegre sabe muito bem – este livro de poemas comprometidos com uma ideia e uma causa – Portugal – suscita, promove, activa o que em nós há de fidelidade a um valor supremo que a Europa tecnológica e «burrocrata» (Ah, Herberto!) tem vindo a pôr em causa. Esse valor é o da liberdade. Disso nos fala a voz destes textos gizados a régua e esquadro, todos eles herdeiros do que a própria obra anterior de Manuel Alegre fundou (esse lirismo épico, feito da restauração de formas tradicionais, para nos lembrar que Portugal começou como língua de poesia) e que, de livro para livro, se aprofunda como fidelidade a uma língua, a portuguesa.

Bairro Ocidental é, sob esse prisma, um livro extraordinário, pois articula no seu fazer, quer a língua poética elevada, culta, de camoniana ou pessoana dicção (é uma nova Mensagem, este livro?), como não rechaça léxico mais violento e mesmo certa virulência através da qual a voz de um sujeito testemunha das andanças do país e do mundo. Essa voz atinge-nos na sua digna e autêntica revolta. Dois exemplos a ter em conta: o que podemos ler no poema «Velhos cadernos quadriculados» (p.48), a que corresponde um vocabulário literal, absolutamente descritivo (no que descrever tem de desvelamento do homem na sua condição de bicho nas malhas que os impérios tecem): «Os meus primeiros cadernos estão aqui / cheios de sangue e merda e lama / com poemas escritos à pressa no intervalo / de um combate ou de cócoras a cagar / no meio do mato. Poemas decorados / quando na cela não havia papel / e eram ditos em voz alta ...», e o poema «Libertação» (p.26), com a rima aliando-se a uma sábia vertente sarcástica, activando, num livro iminentemente lírico, uma forte dimensão panfletária. Em «Eis que», o tom comprometido acolhe o registo mais intimista, meditando-se sobre o tempo e o modo como o tempo se traduz em auto-exílio-interior. Experiência do mundo e experiência do poema legitimam a figuração do poeta como sujeito toldado de merencória heroicidade: o poeta é ainda o portador da harpa, o mentor do colectivo. Mas sabe-se indesejado: apenas a si assiste, anónimo e involuntário: «Eis que o tempo é uma curva / e ele próprio anda curvado / a cor perdeu a cor / o amor o amor perdeu / não vejo ninguém comigo / ninguém a não ser eu» (p.34).

Bairro Ocidental pode, paradoxalmente, incomodar os que, falando de poesia, vão acusar Alegre de anacronismo ou de outros «ismo» qualquer... Mas o autor de Doze Naus reitera o seu projecto, a sua herança: diz-nos que a poesia pode ser ainda «praça da canção» de onde devemos, para que a Europa nos oiça, gritar o sul, o sol, o sal de um povo que resiste e diz não. Essa crença será, talvez, a única cedência a um certo idealismo que, em todo o caso, não belisca a veemência dos textos e a sua acutilância. A hora que vivemos assim o impõe, por muito que se peça ao poeta que desapareça e/ou faça da poesia o desfiar de bacocas experiências nocturnas em bares de ocasião ou cântico dos desencontros regados a desencanto pós-moderno.

É este, por outro lado, um breve livro. Não se pretende expansivo, a armar a obra total. É um livro verdadeiro. Não é falsificação ou contrafacção de discursivismos pejados de jargão e jactância, torrenciais e plenos de verborreia... Insiste Manuel Alegre em pensar o país e os portugueses, seja em quadras ao melhor gosto ibérico («Cavalos brancos me levaram / por mim por ti se perderam / e nunca te encontraram / e nunca me trouxeram // (...) // Por sobre as águas passaram / sobre a espuma e a areia ardente / e nunca chegaram / ao país ausente» )(p.31). Alegre denuncia os políticos, os que «trazem palavras de outra língua», os políticos e gestores, os banqueiros e agiotas que «quando falam a boca não tem lábios / trazem sermões e regras e dias sem futuro». Precisamente contra essa linguagem sem futuro, o eu pretende a instauração de uma linguagem vital, desafiante, a linguagem da poesia: «Não vou tirar palavras do fundo do poço / antes venham da rua ou das estrelas / ou até da puta que as pariu / palavras que servem para tudo / mandar obedecer / vender a alma ao diabo / que venham como são / em letra impressa mal escritas / mal faladas / ... / não há outras senão estas palavras / compradas vendidas / embrulhadas em notas / trocadas por moedas / as mesmas que Judas disse / e com que dia-a-dia / a palavra do homem está a ser traída» (p.49). Do estilo que o anima, nas imagens que o povoam, até mesmo na nítida verdade ideológica que Alegre aqui depositou, este conjunto de textos é, se quisermos, uma exaltante forma de a poesia acreditar na sua capacidade de resistência e, com isso, não cair na estafada suspeição de si enquanto tal. Desse ponto de vista, o equilíbrio entre as partes do livro, (doze poemas as duas primeiras secções e cinco poemas a parte final) deixam adivinhar uma tripartição pensada, funcionando a secção do meio como suspensão entre libelo (a secção primeira) e a convocação da lição do passado (a secção que fecha o livro).

Lirismo magoado e riso perante os alvitres de uma Europa que, entre Cassandras e novos Príamos, não vê que o cavalo de Tróia está já «dentro da cidade», «Resgate», título de um poema que ironiza a linguagem tecnocrática dos troikistas, é dos textos onde melhor se mostra (e demonstra) a atmosfera em que se redigiu este conjunto de 29 poemas. Olhando para os milhares de desempregados, para a falência de milhares de empresas, observando e mordendo fundo a fúria contra os diversos tipos de traidores de que Portugal e Europa hoje são feitos, Bairro Ocidental diz isto: «Há qualquer coisa aqui de que não gostam / da terra das pessoas ou talvez / deles próprios / cortam isto e aquilo e sobretudo / cortam em nós / culpados sem sabermos de quê / transformados em números estatísticas / défices de vida e de sonho / dívida pública dívida / de alma» (p.16). Contra as palavras dos novos donos da Europa, os «capitalistas da palavra», no dizer de Sophia, Alegre acusa, ironiza, estabelece a caricatura e declara: «Não podem cortar quem somos», legenda que anima esta escrita desenfreada, mas ao mesmo tempo fria, medida, cantabile. Ironia, dissemos, e lirismo. O poema que dá título ao volume, é excelente exemplo de como riso pode traduzir-se em quase lágrimas, sejam elas de raiva, sejam de lamento: «Na Eurolândia tudo é permitido / bruxela-se um país berlina-se outro / um dia ao acordares estás eurodido / e o teu país efemizado é só um couto. // Um sítio à venda: Bairro Ocidental. / Não já o rosto com que Europa fita / mas a teta dos juros e do capital / com sol pròs velhos da Europa rica» (p.18).

Ciente de que uma poesia assim pode estar fora de moda, Alegre não deixa de insistir em certas palavras perigosas («Não digas pátria: essa palavra está malvista / proibida pelo Império Orçamental. / Eurogrupado: tu e os maus da fita / filhos do sul e do pecado original»), e de trazer para o seu livro a tradição cancioneiril, o som em desuso do rimance oral (a «Nau Catrineta», cujos versos são como que o eco de uma literatura perdida), e cujo autor é o povo. E eis aqui, nesta palavra também em desuso - «povo» - um dos aspectos mais relevantes de Bairro Ocidental: é que é um livro imerso na experiência contemporânea, atento às falas e aos seus mais diversos registos, fazendo entrar a História no poema, contra o esquecimento e a formatação tentaculares.