Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
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Urbano Bettencourt sobre os 50 anos de Praça da Canção
Há livros que nos chegam do futuro
22-04-2015 Urbano Bettencourt

Bem sei que vou repetir-me, mas não resisto a adaptar a pergunta que em tempos fiz em circunstância idêntica: Celebramos o quê, quando comemoramos os cinquenta anos de um livro? Se a relação do leitor com um livro é sempre algo de muito pessoal e íntimo, quase secreto mesmo, a verdade é que um acto como este ultrapassa o simples domínio individual para tornar-se uma celebração colectiva em que se cruzam motivações e representações de ordem diversa e que, em síntese, traduz o reconhecimento público do lugar que um livro ocupa no espaço literário e num tempo histórico, sem que isso anule a sua presença efectiva na memória de leitor que é a de cada um de nós.

Praça da Cancão, o livro, conquistou esse lugar graças ao modo como soube exprimir a percepção de um momento funesto da vida portuguesa e dar voz a um sentimento de recusa do conformismo e da submissão ao estado das coisas. Conseguiu-o, além disso, através de uma dicção muito própria, de um discurso poético adequado ao seu propósito: o de ir «direito ao coração de toda a gente» (p. 33) – pois só nestes termos se assegurava a eficácia comunicativa da mensagem poética na sua dupla função de denúncia do presente e anúncio de um futuro outro.

Sobre esse ano de 1965 e sobre o contexto histórico mais vasto em que surgiu o livro de Manuel Alegre, dispensarei aqui o comentário, pois esses elementos estarão demasiado presentes na memória da geração que de imediato o acolheu como livro seu, bem como no entendimento dos que, vindo depois, souberam equacionar esse tempo e dentro dele o papel desempenhado por Praça da Canção. Por outro lado, a introdução preparada por José Carlos de Vasconcelos para esta edição comemorativa apresenta ao eventual leitor um detalhado panorama dos antecedentes da obra, as condições da sua edição e difusão. Porque o modo da sua entrada em circulação é igualmente um dos aspectos peculiares de Praça da Canção, inseparável das condições políticas e sociais do tempo, da ausência de liberdade, do cerceamento do direito de expressão.

Cada leitor terá, a esse respeito, uma experiência própria e se trago aqui a minha é apenas pelo facto de ela poder tipificar a relação do leitor com algumas obras, nesses tempos de policiamento das almas. Na verdade, não tenho uma ideia certa de quando é que Praça da Canção se tornou para mim um livro, enquanto objecto concreto e manuseável, nem mesmo sei se isso terá acontecido em 1971 ou já em 1972, em Setúbal, onde conheci um móvel que, por trás de uma fila cerrada de manuais escolares, protegia dos olhares indiscretos alguns livros e discos só disponibilizados a «gente da casa». Mas consigo situar com exactidão o lugar em que, muito antes, eu tinha ouvido pela primeira vez Praça da Canção, num remoto Verão picoense. E uso o verbo ouvir, porque o texto chegara-me oralmente, nem sequer bem declamado, mas isso era coisa de menor importância nesses tempos em que o sentido era (quase) tudo, muito embora a leveza do verso e o andamento narrativo do «Romance de Pedro Soldado» (pois era esse o texto) não me tivessem passado ao lado, com o seu remate incisivo e em jeito epigramático.

Por ironia (trágica) da história portuguesa, o poema de Manuel Alegre recuperava daquela forma o modo primordial de ser da poesia, enquanto palavra transmitida oralmente, de boca em boca; e a intervenção musical sobre esse e outros textos por parte de compositores e cantores devolvia a essa poesia a sua dimensão clássica de canto, que o próprio título do livro já explicitamente convocava.

No «Romance de Pedro Soldado» inscrevia-se, por outro lado, um dos objectos da denúncia poética de Praça da Canção, a guerra colonial, talvez o elemento mais dramático de um tempo socialmente bloqueado, lado a lado com a dispersão e o desenraizamento provocados pela emigração e pela fuga. Tudo isso perpassa na voz que, de modo ora impositivo, ora amargo e desencantado, se afirma em Praça da Canção, concitando os signos e as imagens de uma pátria aprisionada e reduzida ao silêncio. Mas a denúncia de um país anulado convive com o anúncio e a antevisão de um tempo outro a haver, poeticamente representado em contraponto à denegação e à disforia do presente – por vezes, em anotações pontuais simbólicas ou mesmo referenciais que a história se encarregaria de tornar concretas. Sintomaticamente, o livro termina com o poema «Liberdade», afirmação esperançosa para lá de um tempo de ruínas.

Se há livros que nos chegam do futuro, por serem a expressão de um visionarismo que ultrapassa a opacidade do quotidiano imediato, Praça da Canção é seguramente um deles – pela capacidade de nos revelar, profeticamente, um mundo ainda oculto no tempo da enunciação poética e da sua apropriação pelos leitores (em condições muito precárias, como se sabe). O livro de Manuel Alegre é, no entanto, muito mais do que a sua circunstância (para trazer aqui a alusão a Ortega y Gasset): a sua sobrevivência, a sua legibilidade e a capacidade de comover-nos ainda hoje resultam da qualidade poética de um texto submetido a rigorosa elaboração discursiva e imagética, resultam também do recurso a procedimentos poéticos que, em conjunto, estabelecem a linha divisória entre a arte literária e a simples proclamação panfletária.

Em termos gerais, deve assinalar-se a convivência da vertente popular com a erudita literária, a nível de sistemas métricos e modelos estróficos, com a decorrente diversidade rítmica e melódica, oscilando entre a gravidade/gravitas do verso longo, de filiação clássica, e a leveza das estruturas de natureza popular (a quadra e a redondilha), de onde provém igualmente uma forma narrativa como o «romance» e mesmo um conjunto de imagens e elementos discursivos que atestam a proximidade com esse universo popular. Simultaneamente, a poesia de Praça da Canção é, em boa parte, tocada pela singeleza ou espontaneidade do lirismo trovadoresco nacional (mas em poesia a espontaneidade é um grande artifício, como se sabe), do qual o poeta recolhe ainda, além de algum léxico específico ( trova, amigo, por exemplo), os motivos da separação e da ausência provocadas pela guerra, naturalmente lidos à luz de um diferente quadro histórico.

O que aqui se manifesta é já uma outra coisa, ou seja, a escrita como memória da literatura; não admira por isso que em Praça da Canção se assista à citação e à reescrita de poetas como Camões, Alexandre O’Neill, Fernando Assis Pacheco ou Álvaro Feijó, para referir apenas alguns, num diálogo textual que se traduz numa reiterada ou mesmo renovada significação à luz da actualidade. Consciência literária e poética, digamos assim, mas também consciência histórica que recupera acontecimentos e figuras do passado e os recontextualiza, investindo-os de outros sentidos e possibilitando sempre novas leituras, como acontece com a «Carta do Manuelinho de Évora a Miguel de Vasconcelos, ministro do reino por vontade estranha», poema que ganha ainda outra ressonância quando lido neste ano da (des)graça de 2015; ou como acontece igualmente, embora sob diferente modulação, com a «Canção de Manuel navegador», em que a explícita anotação autoral e biográfica inscreve a viagem, a errância, o expatriamento como um percurso individual que se ultrapassa a si mesmo para constituir o traço genético de um desígnio pátrio, colectivo (neste contexto, torna-se emblemática a metaforização de Fernão Mendes Pinto).

Num tempo de silenciamento, o livro de Manuel Alegre era a praça possível onde tudo isso podia (relativamente) ser cantado, num intuito comunicativo que a cada passo se manifesta, mediante a instituição de interlocutores que o poeta convoca e interpela. Que hoje possamos, em qualquer praça (literal e não metafórica) dar voz aos poemas de Praça da Canção é o sinal de um tempo que este livro soube antever e ajudou a sonhar e a concretizar.

Livraria SolMar, Ponta Delgada, 22 de Abril de 2015,
Apresentação da edição comemorativa dos 50 anos de Praça da Canção