Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
*
Marco Fazzini sobre os 50 anos da Praça da Canção:
Praça da Canção, teatro de solidão: na prisão, sem lápis, memorizava pela música
11-04-2015 Marco Fazzini, in "Il Giornale di Vicenza", tradução nossa

Comemoramos os 50 anos de um livro histórico. Mas também a vida e obra de um poeta que antes de ser um distinto político foi um grande homem. "Praça da Canção", o primeiro livro de Manuel Alegre, editado em 1965, continha textos escritos na prisão, ou na atmosfera sombria de um país ferido, marcado pela violência da PIDE.

Transcrito clandestinamente pelos seus amigos, incluindo Manuel Freire, e aprendido de cor por todos aqueles que, depois de décadas de ditadura, aspiravam à liberdade na sua pátria e à possibilidade de uma troca natural de ideias com outros países, o livro foi mantido vivo graças à música do mesmo Freire, de Adriano Correia de Oliveira e de José Afonso; mas também aos debates, recitais e sessões dedicadas a estes versos, por Maria Barroso e por José Carlos Vasconcelos. Ex-director do "Diário de Notícias", Vasconcelos é actualmente director do "Jornal de Letras": ele próprio, juntamente com uma representação da Embaixada de Portugal em Roma, acompanharão o poeta neste evento de Vicenza, o primeiro de uma série de celebrações em Portugal que lembrarão a coragem e o talento contidos neste canto poético, muitas vezes grito angustiado em favor da justiça para o homem e do direito a viver uma vida digna, livre de perseguições.

Os títulos dos seus livros mais amados e mais provocatórios alertam-nos para uma parceria natural: também “O Canto e as Armas, que se seguiu a “Praça da Canção”, convidava a ouvir a música do texto, um texto que, para ser escrito, por força das circunstâncias, devia ter tido um músico, além de um poeta, como autor. É o próprio Alegre quem reafirma este princípio, quando, numa entrevista em 2012, observa que é tudo uma questão de cadência, de "toada". Trata-se daquela especial musicalidade inerente a toda a poesia, e também de uma necessidade histórica que sugeriu o contexto e a voz para estes poemas, em que a inter-mutabilidade de uso é extremamente bem-vinda, tanto ao ler o texto sobre a página como ao escutar a música, ou o cântico secreto de uma súplica pela liberdade. Alegre recorda que, nos dias passados na prisão, era necessário e imperativo aprender de cor e cantar para si próprio, sozinho, os textos que pouco a pouco estava a compor, porque a poesia não é só musicalidade, mas também luta, voz contra a violência da ditadura, protesto popular (mas não populista) para libertar uma nação inteira da ditadura.

Os diversos arranjos musicais que se fizeram da poesia "subversiva" de Manuel Alegre, desde as famosas interpretações de Amália Rodrigues de textos como “Trova do Vento que passa” e “Meu amor é marinheiro” até chegar à versão de Paulo de Carvalho de “Nambuangongo meu amor,” ou o potencial musical da recente “Balada dos Aflitos”, escrito para e sobre a crise económica europeia de hoje, mostram que, para além do sacrifício de tantas vidas, e do sofrimento dos sobreviventes, está a memória do empenhamento, seja como autores, seja como leitores, intérpretes e destinatários de uma mensagem que possa fazer circular a justiça e a paz.

A memória é o motor que realça o valor de alguns exemplos de vida e que faz sobreviver a música de um texto, quando dentro deste há uma história e um estilo que se mantém, seja porque fala da nossa relação com a natureza, seja porque conta as vicissitudes de um herói ou de um povo que sofre.