Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Opinião
O rapaz-poeta
11-04-2010 Daniel Sampaio, Pública

O rapaz que pregava pregos numa tábua é hoje o poeta Manuel Alegre, candidato à Presidência da República. Na entrevista que deu a Carlos Vaz Marques, na revista Ler de Abril, diz-nos: o novo livro é "uma viagem por dentro de mim mesmo". Percebi agora melhor o seu desejo de ser Presidente quando cita Saint-Exupéry - "a infância é um país" - e me leva a recordar também que "o essencial é invisível para os olhos".

Estou com Alegre neste projectado retorno à essência das coisas. Também eu gosto de Alegre por ele ser lírico, por achar que a poesia é o poder, por não ler poemas nos comícios com a certeza de que todos os que o ouvem desejariam que o fizesse. Por pertencer a um partido sem ficar acorrentado ao pensamento de livro único de quem lá manda. Por ousar discordar sem romper, por concordar sem ser submisso, por confrontar sem afrontar.

Não o diz, mas eu pressinto: está comigo na descrença pela escola formatada, que impede a criatividade dos estudantes e amarra os professores à burocracia ministerial. Acompanha-me na crítica às decisões dos gabinetes do poder, orquestradas por assessores que há muito deixaram de ouvir quem passa. Tal como eu, já pouco espera, por certo, das previsões dos economistas ou da sua estreita visão do mundo. Na entrevista à Ler, tem uma frase assassina: "Aquilo que o Presidente da República sabia de economia e finanças - e sabe - não mudou nada a situação da nossa economia e finanças." Com Alegre (creio), contradigo Paulo Portas, que numa recente entrevista televisiva perguntava a Judite de Sousa se entregava as finanças a Alegre ou a Cavaco, para decidir aí o apoio ao economista: eu peço ajuda nas finanças à minha mulher, melhor em contas do que eu, mas quero entregar o país a um bom governo e o desígnio nacional a um homem das letras.

Não tenho dúvidas também no amor de Alegre à Filosofia, agora desvalorizada no secundário, com a consequência da perda, pelos adolescentes, da última oportunidade de pensar e interrogar o mundo. Foi a Filosofia que me fez escolher Psiquiatria e me ajudou a fazer qualquer coisa com o mistério que habitava dentro dos meus 15 anos. Foi a política que manteve Alegre "envolvido e crítico", mas foi a poesia que o tornou um político singular. Sem poder, pelo menos por enquanto, porque "quem tem esse poder são pessoas que eu acho que não sabem tanto do essencial como os escritores e poetas sabem" (entrevista referida acima).

Quando se anda na rua e se fala com muita gente, como é o meu caso, sente-se a desilusão da política. Ouvimos às vezes lamentos salazaristas, escutamos a desilusão de Abril, quase sempre ouvimos sussurrar a falta de esperança no futuro. No panorama actual, ninguém acredita. Temos a sensação de que o país precisa acordar de um sono que parece não ter fim. "Os novos oráculos são os oráculos da Bolsa e dos mercados" (mesma entrevista), tal como Alegre, eu prefiro os oráculos da poesia ou da literatura.

Não sei se Alegre assistiu, na RTP, a um Prós e Contras sobre a escola e o estatuto dos alunos. Se o tivessem convidado, não teria exibido o discurso paternalista de alguns convidados, a "compreenderem" as ideias dos jovens, só justificáveis pela sua juventude. Estaria do lado do aluno do Camões, que se ofereceu para construir uma nova escola com os adultos, na perspectiva de uma partilha em que os professores decidem mas os alunos são ouvidos: esse é o caminho que Alegre sempre nos ensinou a percorrer.

"Mesmo sabendo que já não há partida/ e que as rimas em ar estão a acabar/ e todo o tempo é agora contra o tempo/ e mesmo sem correr só há corrida."

Que tudo lhe corra bem, rapaz-poeta.