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Opinião
Roteiro biográfico da busca pela literatura
05-04-2010 Elmano Madail, JN

Repositório de memórias íntimas na aparência, o último livro de Manuel Alegre é antes a celebração de um processo duplo e convergente: primeiro, o da aprendizagem do Mundo e dos ritmos que ele contém por um menino que gostava de pregar pregos numa tábua, numa rua do Porto; depois, a reflexão e tradução, por um homem tornado pai e avô, do assim aprendido, enquanto vivendo, para o que convencionou chamar literatura.

Embora o poeta lhe tenha chamado novela, "O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua" acaba por ser, assim, um ensaio autoreferencial sobre a poesia de experiência feita. Que se lê de um fôlego.

Articulado em 33 capítulos breves, será no 24º que Alegre revela, com sensibilidade enternecedora, ao que vem neste apontamento, quando evoca o derradeiro encontro com Sophia de Mello Breyner Andersen, já muito débil no hospital. "Sentei-me ao pé dela e comecei a dizer-lhe um dos seus poemas: 'Ia e vinha / E a cada coisa perguntava', e então ela terminou: 'Que nome tinha'. Fui dizendo poemas de que me lembrava, dela própria, de outros poetas, sobretudo de Camões, que ela pediu, ela ia repetindo comigo, até que, a certa altura, já não dizia as palavras, só a batida das sílabas, poesia em estado puro, só ritmo, só a cadência, só a respiração do poema na sua própria respiração".

Tal demanda, pela tradução literária dos ritmos que descobriu na ponta dos dedos (dos dele e dos outros), é pontuada pelos acidentes autobiográficos (ocorridos ou imaginados) desse menino que aprendeu, por tentativa e erro, com avanços e recuos, a cadência do seu cosmos particular. Cresceu, e converteu-o em literatura. E teve a generosidade de partilhá-la connosco

A ética republicana na ponta da caneta
Nascido em Águeda a 12 de Maio de 1936, Manuel Alegre cursou Direito na Universidade de Coimbra, onde se envolveu na resistência ao regime político da época, o que acabaria por levá-lo ao exílio - onde continuou o combate, celebrizado pelo seu livro "Praça da Canção" (1965) - e ao PS. A obra em prosa viria muito mais tarde, iniciada em 1989 com "Jornada de África" .