Manuel Alegre e o Brasil: "Em momentos de escolhas decisivas não se pode deixar de tomar partido."
Manuel Alegre
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Opinião
O rapaz é ele
02-04-2010 Isabel Lucas, Outlook, Diário Económico

Protagonista político, Manuel Alegre desvia as atenções para a literatura e lança um livro que é uma história de infância. A sua. "O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua" é ficção. Mas até que ponto?

O que se conta quando se conta uma história? No caso de Manuel Alegre a história é quase sempre a mesma, ou melhor, tem quase sempre o mesmo protagonista. Ele, ainda que não nomeado. Ele enquanto personagem de uma história que se vai contando em livros. Na poesia, como na prosa. Depois de ter revisitado a sua experiência de exilado político na Argélia, em "Rafael" , de ter comovido milhares de leitores com a história do seu afecto a um cão, em "Cão como nós" , de se ter revelado nesse poema que continua talvez a ser o seu melhor livro, "Senhora das Tempestades" , Alegre volta a si, agora na infância e num momento em que todos parecem só querer saber da sua idade actual, a do homem que se recandidata à Presidência da República.

Todos os livros são autobiográficos, dizem os teóricos destas coisas. Pois. Mas talvez uns sejam mais do que outros. "O Miúdo que Pregava Pregos numa Tábua" é uma história de infância, de um rapaz que pregava pregos numa tábua e contava as sílabas pelos dedos. Como ele, Manuel Alegre, ainda conta sempre que escreve um poema em cadernos quadriculados. Não é o caso. Aqui está mais interessado em descobrir como escrever um livro. E é à procura dessa resposta que se vai revelando. E o livro cresce acompanhando o crescimento desse rapaz. E o escritor/narrador na primeira pessoa vai-se interrogando sobre quem foi quando era pequeno, nessas partidas feitas pela memória que altera tudo. "Ninguém sabe ao certo quem é quem nem se o que foi chegou a ser ou é fruto da imaginação ou de algo que alguém contou não se sabe quando nem a quem...". É neste universo mais ou menos nebuloso que se situa este livro que pode ser de memórias de infância ou uma biografia ficcionada. Não importa o género. Importa a escrita que é prosa na fronteira da poesia. "Mas onde é que tudo começou? Talvez num lugar chamado Chãs, em Águeda, onde uma velha prima, antes do miúdo entrar para a escola oficial tenta ensinar-lhe a ler. Nunca mais aprendo, se calhar sou burro, diz o miúdo que pregava pregos numa tábua que, nessa altura, devia ter quase seis anos."

E nesse miúdo está o Manuel Alegre de Águeda e a sua relação com os avós. O que deu nome ao estádio Mário Duarte, em Aveiro, e o outro, o republicano. Estão os primeiros versos que aprendeu. "Lá vão elas/ as caravelas". Sabe-se lá de que autor e de que poema. Traiçoeira a tal de memória. E das caravelas passou às naus e aos "Lusíadas" e àquilo que faz dele um clássico entre os poetas actuais. E também está o mar da Foz do Arelho, a mesma praia onde ainda vai de férias.

É um livro de formação. Curto. Uma espécie de novela breve, onde a um ritmo ligeiro dá conta da sua relação com as coisas que ainda realmente lhe importam: o mar, o país, a poesia, o fado, a literatura, a caça, a guerra. "Palavra puxa palavra, um tiro puxa outro tiro. O miúdo que falhou a seixa e deixou o seu pelotão com o estômago a dar horas, traz no seu remorso um outro tiro que infelizmente acertou." Sabe-se lá que guerra era esta. Há uma data. 1947. Foi quando também lhe ofereceram uma pistola de pressão de ar. E quando olhava a criada à espera de ver mais do que a criada. Uma livro que se foi escrevendo até agora. Ou só agora, porque antes esse passado ainda estava demasiado vivo para poder ser contado como ficção. É um poema esta prosa. Até na emoção.