"Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado"
Manuel Alegre
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Crónica sobre a edição catalã de "Cão como Nós"
Um Cão para Amar
30-01-2010 Salvador Iborra, Diari de Balears – suplemento

Kurica, o cão mais humano do que os seres humanos, é a alegoria mais perfeita da nossa condição, o reflexo que se esvai quando o queremos agarrar, que se converte em impossível, em utopia: a utopia de ser mais humano num mundo que o é cada vez menos. Um grande livro, sem dúvida, que não posso deixar de recomendar.

Falar de Manuel Alegre é falar da história recente de Portugal, de uma figura capital na história política do país e de uma figura capital da sua literatura, muito especialmente da sua poesia. Portugal, o grande desconhecido para muitos, é um país feito de literatura, de muita e muito boa literatura. De Camões a Pessoa, a Lobo Antunes, a Sofia de Mello (Breyner), a António Dacosta, a António Cabral, a algum prémio Nobel que omitirei piedosamente, explorar Portugal através da literatura é apaixonante.

O livro que temos em mãos é um exemplo. Breve, talvez demasiado, mas na esteira dos livros em que a brevidade é uma carícia pungente e uma qualidade que nos recusamos a aceitar, como acontece com “Alexis ou o Tratado do vão combate” de Youcernar ou “Morte em Veneza” de Mann. “Cão como Nós” é um desses pouquíssimos livros breves feito para nos comover até ao mais íntimo. Com uma linguagem simples e emotiva, com essa espécie de melancolia dos marinheiros que dizem que a gente de Portugal tem e que contagia, Alegre fala-nos do seu cão, que morreu. Entre o diário e a epístola, entre a narrativa e o ensaio, com a hibridação que caracteriza o romance pós-moderno e se estende a outros géneros - se é que a categoria de género serve para alguma coisa até que alguém a reveja, - pouco a pouco conhecemos e amamos um cão que não é um cão, que suave mas inexoravelmente se torna uma espécie de alteridade nossa, uma alteridade que é uma espécie de sinédoque, um correlato de contiguidade, e nos conduz a esse lado humano que ainda temos dentro de nós no meio deste mundo de tribulações, stress e vida acelerada.

Kurica, assim se chama o cão em homenagem a um texto de Henrique Galvão, militar, escritor e político de oposição ao regime de Salazar, serve de pretexto e restitui a competência estética do texto; pretexto, porque é o nexo de união entre o anedotário próprio de uma narração, tal como as belas descrições paisagísticas, autênticas alegorias telúricas do estado anímico; e restitui a competência literária, porque a poética que se esconde na epopeia do cão em questão é o que lhe dá esse carácter de alteridade que nos emociona. O cão que não é um cão, que é um amigo querido, uma espécie de filho que nos ama, uma espécie de confessor compreensivo, um rebelde com um sinal da integridade que nos falta, ou que é nós mesmos e que quando sofre, envelhece, adoece e treme, nos olha com olhos de terror, de pergunta, como quem nos pede ajuda ou amor, nos despedaça por dentro, nos conduz à mais amarga impotência e à desolação e nos leva, por que não dizê-lo, até às lágrimas.

Poucos livros podem fazer isso na história dos livros, poucos. Só um grande poeta que conheceu uma guerra poderia mostrar-nos com tanta sensibilidade de que matéria impura e às vezes nobre somos nós, seres humanos, feitos.

Que homem não precisa, em certos momentos, do amor do seu cão? A fantasmagoria deste interlocutor muito mais do que retórico é uma das qualidades melhor conseguidas do livro. "Quisso maco" (“cão bonito”) traduz de forma brilhante, num exercício de grande sensibilidade, a filóloga e tradutora Anna Cortils. A adaptação dos jogos da língua, das unidades paremiológicas (ditos populares) do livro merece um comentário à parte. Muitas vezes traduzir é trair o texto original, mas esta é a marca do tradutor, a diferença onde a arte do tradutor se esconde. Creio não me equivocar se afirmar que se houver mais livros traduzidos por Cortils serão sinónimo de um bom texto e bem escolhido.

Kurica, o cão mais humano do que os seres humanos, é a alegoria mais perfeita da nossa condição, o reflexo que se esvai quando o queremos agarrar, que se converte em impossível, em utopia: a utopia de ser mais humano num mundo que o é cada vez menos. Um grande livro, sem dúvida, que não posso deixar de recomendar.

Documentos
Documento em formato application/pdf "Un Gos per Estimar" de Salvador Iborra 159 Kb