"Se publicasse as memórias, lá apareceria o Kurika como companheiro"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre em entrevista a Francisco Balsemão:
“Por vezes tive a sensação de que um discurso pode mudar as coisas”
18-02-2022 E, Revista do Expresso, "Deixar o Mundo Melhor"

Este texto é um resumo, publicado na revista do Expresso, do podcast da entrevista de Manuel Alegre a Francisco Pinto Balsemão, inserida na iniciativa "Deixar o mundo melhor" que celebra o cinquentenário do jornal. À última pergunta sobre o seu contributo para deixar o mundo melhor, o poeta respondeu: "Os livros que escrevi e alguns discursos que fiz. Os gregos diziam que a oratória era a expressão mais alta da palavra, por vezes tive a sensação de que um discurso pode mudar as coisas."
Oiça a conversa na íntegra no podcast do Expresso AQUI

Quando se descobre como poeta?
Antes de saber ler já dizia versos de cor. Rasguei muitos cadernos, atirei fora muitos versos, escrevi à maneira de muitos outros poetas, andei muito tempo à procura de um verso que fosse a minha voz, e a certa altura encontrei-o. Foi em Coimbra por volta dos meus 20 anos, com um poema que se chama “Trova do Amor Lusíada”, que deu origem a muitos fados, até cantados pela Amália.

A sua poesia tem temas principais…
Os primeiros livros reflectem as circunstâncias, a ditadura, a guerra, o envolvimento, (são) uma reflexão sobre a nossa história. Os poemas foram recitados pelo país fora, foram cantados apesar de proibidos. Os livros foram apreendidos, mas circularam em cópias manuscritas e dactilografadas.

Por que escolheu o curso de Direito?
Nessa altura, éramos mais escolhidos do que escolhíamos. Fui para Direito para Coimbra, aprendi um pouco de escrita com o (professor) Manuel de Andrade, era uma escrita quase orgânica.

*Mas isso não contribuiu muito para a poesia…
*Tudo pode contribuir para a poesia, a capacidade de síntese contribui para a escrita.

Foi atleta de natação e fez teatro?
Fui campeão nacional, fiz parte da selecção nacional de natação. Fiz parte dos fundadores do CITAC – Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra. Mas foi no TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra que me destaquei como actor. Foi no TEUC que tive um dos meus grandes mestres, o professor Paulo Quintela (da Faculdade de Letras). Era o nosso ensaiador, um extraordinário actor, fazia os papéis todos. Teve o mérito de levar o Gil Vicente a todo o país. Naquela altura o teatro de estudantes era culturalmente importante, representámos no país todo, em Cabo Verde, fomos às Delfíadas lá fora.

Aderiu ao Partido Comunista?
Aderi ao Partido Comunista e durante uns tempos passei a ser o camarada Ricardo. A minha saída do Partido Comunista inicia-se com a invasão da Checoslováquia (pela URSS em 1968). Toda a gente da minha geração que se destacou na luta estudantil desembocou no Partido Comunista, era a única estrutura política organizada.

Em 1961, foi para a tropa em Angola?
Antes fui para os Açores, onde eu, o Melo Antunes, o Borges Coutinho e mais alguns, tentámos fazer uma ocupação da ilha (São Miguel). A maior parte dos oficiais que lá estavam tinham estado envolvidos na revolta da Sé, no golpe de Beja, na luta estudantil. Tivemos o projeto de fazer desembarcar o general Humberto Delgado. Distribuímos panfletos e, passados uns dias, começámos a ser despachados para Angola ou Moçambique. Fui o primeiro oficial a ser preso em Angola, a PIDE exigiu a minha prisão.

*Depois disso foi para Paris e mais tarde para Argel, onde fez rádio?
*Saí a salto pela quinta dos Montalvão Machado em Chaves, fui para Paris, estava lá muita gente da minha geração. Depois fui convidado para a Conferência da Frente Patriótica, presidida pelo general Delgado, em Argel. Estive dez anos em Argel, fazia três programas na rádio Voz da Liberdade por semana. Os argelinos receberam-nos muito bem. Nunca se intrometeram na nossa vida.

Quando regressou a Portugal?
Depois do 25 de Abril, a 2 de maio (1974). Tinha muitos contactos com o Tito de Morais e com o Mário Soares, que conheci em Paris. Tínhamos um amigo comum, o (compositor) Alain Oulman, que estava sempre a dizer-me: “Tu e o Mário Soares foram feitos para se entenderem.” Não estive no acto de fundação do Partido Socialista, só no I Congresso na Aula Magna (dezembro de 1974), onde fiz um discurso decisivo para o Soares não ser derrotado pelo Manuel Serra. Isso garantiu a autonomia política e estratégica do PS e a possibilidade de o Mário Soares liderar o combate do Partido Socialista pelo rumo democrático do 25 de Abril.

Foi secretário de Estado do I Governo Constitucional, deputado na Assembleia Constituinte, onde estivemos juntos. E depois deputado na Assembleia da República durante mais de 30 anos…
Um recorde (no Parlamento) que só foi batido pelo Miranda Calha e pelo Jerónimo de Sousa, e igualado pelo Mota Amaral.

Gostou de estar no Governo?
Não. É uma das poucas coisas de que me arrependo, não por ter estado no Governo, mas por ter tido um cargo muito ingrato. Fui secretário de Estado da Comunicação Social e porta-voz num período (1976-1977) em que a comunicação social estava toda estatizada. Foi um tormento. O meu trabalho principal nas reuniões do Conselho de Ministros era ter uma guerra danada com o ministro das Finanças para me dar o aval para poder pagar aos jornalistas dos jornais, da rádio e da televisão.

Mais tarde candidatou-se a secretário-geral do PS?
Apareceu o José Sócrates, com quem tinha tido um conflito por causa da coincineração em Coimbra. Havia muita gente a aderir àquela novidade da esquerda moderna; um grupo de pessoas da minha geração, uns ligados ao Jorge Sampaio, outros ao Mário Soares, fizeram pressão para me candidatar, não tanto para ganhar mas para criar um espaço de debate e manter aberta a pluralidade interna do Partido Socialista.

E a candidatura a Presidente da República em 2006? O seu amigo Mário Soares também se candidatou e teve menos votos…
Candidatei-me por irritação, tinha sido convidado por Sócrates e outros dirigentes do Partido Socialista, disse que não queria, insistiram, e um dia veio um dirigente de outro partido avisar-me que estava a ser preparado o lançamento da candidatura de Mário Soares, sem me dizerem nada. Não gostei…não fui à segunda volta por um triz. As minhas relações com o Soares não ficaram bem nessa altura. Mas quando ele ficou doente contactei a família para saber dele e um dia recebi um telefonema do António José Seguro a dizer “está aqui uma pessoa que te quer falar.” Era o Mário Soares, ficou comovido por me ter preocupado com a doença dele, e disse: “Manel, o que lá vai, lá vai, vamos almoçar.”

Qual foi o seu maior contributo para deixar o mundo melhor?
Os livros que escrevi e alguns discursos que fiz. Os gregos diziam que a oratória era a expressão mais alta da palavra, por vezes tive a sensação de que um discurso pode mudar as coisas.