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Manuel Alegre
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Artigo de Manuel Alegre no Público
As origens, a ruptura, um voto
12-02-2022 Manuel Alegre, Público

Tomar ou não tomar o Palácio de Inverno, eis a questão. Mesmo que impossível. Mesmo que só na imaginação. Mesmo que trasvestido de orçamento. Mesmo já sem pôr em causa uma revolução, mas tão só uma maioria de esquerda num país concreto. Eis uma explicação possível para o sentido de um voto.
O povo não entende? Dissolva-se o povo.

Martov critica o “centralismo democrático” proposto por Lenine e o seu conceito de partido baseado num corpo de profissionais organizados para, de fora, introduzir no movimento operário a “consciência política” a que ele por si mesmo não chega. Martov contrapõe um partido aberto orientado por regras democráticas. As propostas vão a votos. Martov derrota Lenine.

Mas na votação para o Comité Central, Lenine obtém maioria. Por isso, apesar de ter vencido a questão ideológica e política, Martov ficará historicamente na lista dos minoritários “mencheviques”. Os “bolcheviques” (maioritários) aparecem como triunfadores, apesar de terem perdido a questão de conceito de partido.

Passou-se no Congresso de Londres do Partido Social Democrata Russo em 1903. Uns anos antes da Revolução Russa. É de aí que data a ruptura em torno do problema central da concepção de partido.

Nesse mesmo Congresso, Trotsky, ainda não alinhado com Lenine, apoia Martov e faz uma declaração profética: “Mais tarde o partido substituir-se-á à classe operária, o comité central substituir-se-á ao partido e, finalmente, o secretário-geral a tudo e a todos.” Esta impressionante profecia, conhecida pela teoria das três substituições, revelar-se-á trágica para a Revolução Russa, onde Trotsky terá um papel decisivo mas muito longe da inocência.

No Congresso de Tours da Internacional, Léon Blum, num discurso histórico, recusou as treze condições impostas pelos comunistas aos socialistas. Dá-se a ruptura. A Internacional Comunista transforma-se num reduto sectário ao serviço da União Soviética e os socialistas criaram os seus partidos autónomos, que nem sempre se portaram bem.

Estas são, no essencial, as origens da ruptura e respectivas consequências.

Martov e os socialistas russos, muitos dos quais marxistas, condenaram o assalto ao Palácio de Inverno como um golpe de estado que punha em causa a legitimidade e o carácter espontâneo e genuíno da revolução soviética. Martov pagou com a prisão e o exílio a fidelidade às suas convicções.

Tomar ou não tomar o Palácio de Inverno, eis a questão. Mesmo que impossível. Mesmo que só na imaginação. Mesmo que trasvestido de orçamento. Mesmo já sem pôr em causa uma revolução, mas tão só uma maioria de esquerda num país concreto. Eis uma explicação possível para o sentido de um voto.

O povo não entende? Dissolva-se o povo.