"Se publicasse as memórias, lá apareceria o Kurika como companheiro"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre no Pavilhão dos Desportos (intervenção integral):
"Somos herdeiros de Léon Blum e de Olof Palm, não de Trotsky nem de Lenine."
27-01-2022 Manuel Alegre

"Somos um partido da esquerda democrática e reformista. Não somos nem nunca fomos um partido leninista. Esta clarificação democrática deve ser feita, mesmo em diálogo e em debate. Somos herdeiros de Léon Blum e de Olof Palm, não de Trotsky nem de Lenine."

Camaradas
Eu nunca faltei ao PS. Venho aqui dar o meu apoio inequívoco ao António Costa e ao PS, porque o Partido Socialista nunca faltou aos Portugueses.

Desde 1974 até hoje, o PS tem a sua assinatura em todas as grandes realizações da sociedade e do país.
- A consolidação de democracia; a aprovação da Constituição da República; a construção do Estado de Direito e do Estado Social – têm a assinatura do PS.
- A criação do Serviço Nacional de Saúde, universal e tendencialmente gratuito, tem a assinatura do PS; recordo o projecto de Lei 157/I, entregue na AR a 23 de Novembro de 1978, assinado por Mário Soares, Salgado Zenha, António Arnaut, eu próprio e outros deputados socialistas. O PSD votou contra, votou sempre contra o Serviço Nacional de Saúde.
- A Segurança Social, não a mista, como quer o PSD, mas a Segurança Social Pública, tem a assinatura do PS.
- A criação do rendimento mínimo garantido (hoje rendimento social de inserção), factor essencial de luta contra a pobreza, tem a assinatura do PS.
- O reforço da escola pública, sem cheque-ensino com quer o CDS, tem a assinatura do PS. Uma Escola pública mais exigente, porque os filhos dos trabalhadores têm direito a um ensino de tanta qualidade como os que vão para os colégios caros.
- Mas também a adesão à CEE, à União Europeia, a criação da CPLP e a abertura de Portugal ao Mundo têm a assinatura do PS.

Estes são valores do PS, partido da liberdade, da tolerância, dos direitos sociais, inseparáveis dos direitos políticos. Estes são valores que estão em jogo no próximo dia 30 e cujo resultado vai determinar o futuro de todos os portugueses.

E por isso não há lugar à indecisão. Não decidir já é uma forma de decidir, às vezes contra si mesmo. Não escolher já é uma forma de escolher, às vezes contra os próprios interesses e direitos.

O PS deve ter orgulho no que fez nos últimos seis anos. Reposição de direitos e rendimentos, importância decisiva do SNS no combate à pandemia, equilíbrio das contas públicas, influência na política externa, como se viu na presidência portuguesa da União Europeia e na negociação do PRR.

Soubemos combater o vírus, saberemos vencer no próximo dia 30.

Vencer para fazer melhor. Melhor no acesso e no reforço do SNS. Melhor no combate ao facilitismo na escola pública, principal factor da mobilidade social. Melhor na habitação, para que as classes médias e os jovens não sejam condenados à periferia nem deixados à mercê da especulação imobiliária.

Melhor no trabalho pelo aperfeiçoamento da democracia. O radicalismo e o populismo nascem da incerteza, do medo, de frustrações individuais que adquirem uma dimensão colectiva.
Há tentativas de desconstrução da democracia dentro da própria democracia. E há várias formas de radicalismo e intolerância.

Que sentido faria termos um governo apoiado ou influenciado por um partido racista e xenófobo? Que diriam os nossos parceiros democráticos da União Europeia? E como seriam as relações com os países africanos com um governo influenciado por um senhor que trata como bandidos os moradores negros dos bairros sociais?

Esta é uma linha vermelha que não se deveria ser passar no Portugal democrático. Com António Costa e com o PS, a extrema-direita não passa. Com o PSD e Rui Rio, já está a passar e isso é uma tristeza para a nossa democracia. O 25 de Abril de 1974 fez-se para derrubar o fascismo, não para que no Portugal democrático possa haver um Governo apoiado ou influenciado por forças da extrema-direita.

Mas que sentido faria um governo estimulado por neo-liberais que, na linha Escola de Chicago, propõem uma taxa única de IRS para ricos e pobres e tentam convencer os jovens a desmantelar o Estado a que devem a sua própria educação?

E que sentido faria pactuar com radicalismos camuflados, supostamente modernos, mas assentes em visões culturais intolerantes, restritivas e empobrecedoras, que tentam impor os seus gostos e proibir actividades seculares do povo português?

O PS é um partido de tolerância. O partido da mãozinha a que os portugueses recorrem quando as suas liberdades estão em risco. Um governo formado pelo PS nunca será refém de um partido de extrema-direita que põe em causa os próprios fundamentos da democracia.

Sempre me bati pelo diálogo e convergência das esquerdas. Mas sei, por vivência própria, que o sectarismo corta a convergência e torna o diálogo mais difícil.

Foi com mágoa e indignação que vi dois partidos da esquerda juntarem os seus votos à direita extrema-direita para chumbarem um orçamento progressista e abrirem esta crise política.

É com mágoa, mas sem surpresa, que vejo alguns dirigentes desses partidos a fazerem campanha contra o PS como se o PS fosse o inimigo principal, retomando uma tradição de má memória histórica.

Somos um partido da esquerda democrática e reformista. Não somos nem nunca fomos um partido leninista. Esta clarificação democrática deve ser feita, mesmo em diálogo e em debate. Somos herdeiros de Léon Blum e de Olof Palm, não de Trotsky nem de Lenine.

António Costa e o PS conseguiram ultrapassar traumas, preconceitos e ressentimentos, derrubaram muros, mas o sectarismo anti-PS não facilita a construção de pontes e de convergências. E é preciso dizer com toda a clareza, se ainda não aprenderam: sem o PS e contra o PS não há soluções de esquerda em Portugal. Não se pode passar a campanha a atacar António Costa e, depois, com alguma presunção, convidá-lo para uma reunião a 31 de Janeiro.

O PS não se engana nem se confunde de inimigo. O nosso confronto é com o PSD e os seus aliados de direita e, pelos vistos, de extrema-direita. O nosso objectivo é vencer as eleições e impedir um retrocesso social e político. E é por isso que no dia 30 de Janeiro, o voto progressista, o voto para consolidar e desenvolver a nossa democracia, no espírito com que ela nasceu e se desenvolveu, esse voto deve ser concentrado no Partido Socialista.

Temos um secretário-geral que é um dos políticos mais prestigiados da Europa e o mais experimentado de todos os actuais políticos portugueses. Temos um partido cuja História se confunde com a própria História da democracia. Vamos ao combate, com a nossa bandeira, os nossos valores, o nosso punho esquerdo, que é, como dizia António Arnaut, do lado do coração.

Camaradas
Em 26 de Janeiro de 1975 realizou-se neste pavilhão o primeiro grande comício do PS. Ainda estou a ouvir as vozes dos milhares de pessoas que dentro e fora do pavilhão gritavam: QUANTO MAIS A LUTA AQUECE MAIS FORÇA TEM O PS.

Ainda estou a ouvir os ecos de Soares e Zenha. Não há quem os detenha. Eles estão aqui connosco. Vamos à luta, vamos à vitória, pelo Serviço Nacional de Saúde, pela Segurança Social Pública, por um salário mínimo digno, pelo direito à esperança, pelo futuro, por Portugal.

Viva o Partido Socialista.
VIVA PORTUGAL.