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Manuel Alegre
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Artigo de Manuel Alegre no Público
Catalunha, uns séculos depois
22-12-2017 Público on-line

A Catalunha falou através do voto, por certo o fará mais vezes. Penso que nós portugueses, independentemente das simpatias pessoais, devemos ser fiéis à Constituição da República e respeitar a liberdade de escolha onde quer que ela se manifeste.

Os resultados das eleições na Catalunha são uma derrota histórica de Mariano Rajoy, da sua incapacidade de negociar e dialogar e da sua persistência em querer imitar o Conde-Duque de Olivares que, trezentos e setenta e sete anos depois, foi finalmente vencido pelos catalães, com votos, sem um tiro. Olivares, Rajoy. E a sombra de Franco.

Mas estes resultados são também uma lição para a União Europeia, sempre alinhada com Rajoy, e para os governos, incluindo o nosso, que pareciam mais empenhados em ser fiéis à Constituição Espanhola do que aos valores da democracia e da liberdade de escolha. Não sei o que se vai seguir. Sei que desta vez não se tratou de um referendo inconstitucional, mas de eleições genuínas, ainda que organizadas ao abrigo do artigo 155, com alguns dos principais dirigentes independentistas presos ou exilados.

Ficou provado que os problemas políticos requerem soluções políticas e não decisões judiciais. Saliente-se ainda que o resultado de Ciudadanos foi conseguido sobretudo à custa do PP, que ficou reduzido a três deputados. Mas a emergência deste partido na Catalunha é um aviso e uma ameaça para o PP nacional.

Tenho pena que as palavras do ex-líder do PSOE, Rubalcaba, não tenham sido ouvidas, quando, num artigo publicado no El País, aconselhava uma revisão constitucional e do estatuto autonómico, numa perspectiva federal.

Seja como for Portugal não tem que tomar partido. Infelizmente já o fez. O Presidente da República e o Governo colaram-se a Rajoy e à Constituição espanhola, o que é quase ridículo, além de me parecer um tanto contrário a uma tradição portuguesa de prudência sempre que se trata dos nossos irmãos do lado. Foi o que sempre ouvi a Mário Soares. “Na Europa, sim, mas nunca atrás ou a reboque da Espanha”.

Enfim, a Catalunha falou através do voto, por certo o fará mais vezes. Penso que nós portugueses, independentemente das simpatias pessoais, devemos ser fiéis à Constituição da República e respeitar a liberdade de escolha onde quer que ela se manifeste.