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Manuel Alegre
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Humildade democrática
24-11-2016 Público

Os povos não se sentem representados por aqueles em quem votaram. Deixaram de acreditar em alternativas dentro do sistema. Estão zangados e sentem-se traídos. Há uma crise de representação e essa é a causa do populismo.

O alerta de Jorge Sampaio teve o mérito de estimular o debate e a reflexão. Diagnóstico bem feito, pistas importantes Só não estou certo que os povos desejem mais Europa institucional. Numa recente entrevista ao Figaro, alguém disse que “os povos da Europa começaram a desprender-se do projecto europeu e propôs “uma conferência refundadora" (para já sem as instituições) por forma a preservar “o modo de vida europeu“, mas distinguindo melhor “o que deve ser tratado ao nível europeu e o que releva da soberania dos Estados membros.” Não foi um populista, foi Hubert Védrine, antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês.

Augusto Santos Silva publicou um artigo que só Francisco Louçã percebeu como resposta implícita a Sampaio. Parece que vai na mesma linha, mas não vai. Sampaio não poupa as responsabilidades da social-democracia europeia. Santos Silva defende um combate contra as tentações populistas. Mas não distingue as pulsões autoritárias da extrema-direita das posições de partidos de esquerda que por simplismo ou conveniência ideológica são metidas no mesmo saco do populismo.

Serão Bernie Sanders, o PCP e o BE ameaças populistas? Serão comparáveis ao que representa Marine Le Pen? Concordo com Santos Silva: ”neste sombrio tempo devemos lutar pelos nossos princípios”. Sem esquecer que foi a traição aos princípios e a abdicação da nossa família política europeia que nos atiraram para o abismo. E também a ilusão centrista ou, como diz Wolfang Munchau, “a falsa crença de que as eleições se ganham ao centro”.

O conhecido editorialista do Financial Times (quem sabe se um populista) sublinha que “esta é a razão que tem levado o centro esquerda por caminhos auto destrutivos”. Martin Wolf, outro populista do Financial Times, acha que “os sociais-democratas têm de se mover para a esquerda” e que se o não fizerem as pessoas vão preferir a direita. No momento em que numerosos observadores, preocupados com a vitória de Trump e “a insurreição da extrema direita”, consideram que uma e outra nasceram, como escreve o New Statesman, das ruinas da terceira via, é bom saber de que princípios falamos.

A pulsão centrista e a arrogância tornaram-se a mãe de todos os populismos. Os ventos sopram num sentido perigoso. Não se via nada assim desde os anos trinta. Com uma diferença: os Estados Unidos eram então a última garantia da democracia. A primeira foi a Inglaterra, que durante trágicos anos defendeu sozinha a sua e a nossa liberdade. Convém não o esquecer, neste momento em que nós, portugueses, temos o dever de não hostilizar os nossos mais velhos aliados, como muito bem compreendeu o Presidente da República.

Convém também não esquecer que Portugal, no actual contexto, é uma excepção e que qualquer nova deriva centrista poria em causa a estratégia que conduziu à formação do governo PS apoiado no parlamento pelos partidos à sua esquerda. Será que este governo também é populista? Para os conservadores radicais talvez seja. Para outros é um novo pioneirismo, como o foi, aliás, o 25 de Abril, que inaugurou no Mundo uma nova vaga democrática. Os tempos são outros e a dinâmica de mudança vai noutra direcção.

Os povos não se sentem representados por aqueles em quem votaram. Deixaram de acreditar em alternativas dentro do sistema. Estão zangados e sentem-se traídos. Há uma crise de representação e essa é a causa do populismo. Eleitores da classe trabalhadora e da classe média americana sentiram-se traídos pelo Partido Democrata, como na Europa, pelas mesmas razões, velhos bastiões da esquerda estão a voltar-se para a extrema-direita. É preciso estar alerta, aqui e na Europa. Mas também é preciso olhar para os factos com humildade democrática.