Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
Artigo de Manuel Alegre n' A Bola
O futebol é uma lição
27-06-2016 Manuel Alegre, A Bola

Nesta hora em que o Brexit obriga a uma nova reflexão sobre a Europa, a festa do futebol aí está para demonstrar como os povos europeus vibram com os seus símbolos nacionais, os seus hinos, as suas bandeiras, as suas cores. Veja-se o rosto dos adeptos a cantar os hinos e talvez se compreenda que a Europa é um espaço comum de uma grande diversidade cultural e identitária. Como, entre outros, o reconheceram Jean Monet ou De Gaulle, não é possível construir a Europa contra as suas nações. Aprenda-se com a festa do Futebol. Ela ensina a corrigir os erros que estão a matar a Europa. Mesmo que alguns não gostem o Futebol é uma lição.

No que nos respeita, aí estão os nossos emigrantes, enrolados na nossa bandeira, a viver e, alguns a descobrir, Portugal através da Selecção. E é por isso que temos de dar tudo por tudo para só pararmos em Paris. Confesso que do ponto de vista competitivo este novo modelo não presta. Não tem havido grandes jogos e o campeonato só agora é que está a começar.

Talvez se possa ganhar o Europeu só com empates, como Fernando Santos não se importaria. Até agora, dentro dos noventa minutos, tem sido assim. E assim se pode continuar até ao fim. Mas eu gostava que fosse de outro modo. Temos Ronaldo e jogadores para ousar jogar e ousar vencer, com bom futebol e com brilho. É certo que não se pode pedir a Fernando Santos que ele mude a sua personalidade. Não se lhe pode pedir que seja um revolucionário e corra riscos que ele não gosta de correr. Mas sendo um homem de tolerância e de crença nos seus jogadores, pode-se pedir-lhe que não tenha medo de apostar naqueles que trazem à selecçao a novidade, a frescura, a força e até pássaros a voar. E aquilo de que o futebol mais precisa: a imprevisibilidade e o inesperado. Foi assim que o golo aconteceu. Ronaldo, Nani, Quaresma. Cada um deles tem consigo o duende de que falava Lorca. O duende de onde nasce a poesia, mas também a jogada nunca vista. E por favor, mister, ponha Renato e Adrien desde o princípio. Não lhe peço uma revolução, mas o óbvio, questão de bom senso, para não se perder mais tempo. E já agora: arranje maneira de o Ronaldo ter mais espaço para correr e rematar como ele gosta. Não leve a mal, sou teimoso como o senhor, estou consigo e com a Selecção. E sou um poeta. Ora um poeta, como Miguel Torga gostava de dizer, nunca se engana. Acresce que o meu sonho de miúdo era ser seleccionador. Se precisar de ajuda, é só dizer. Posto isto, vamos à vitória. E se tiver que ser com empates que seja. Futebol é sofrimento e, à vezes, quanto mais se sofre maior a festa. O país está convosco e vai convosco até Paris.