O único caminho para o futuro de uma Democracia socialmente estável é manter e reforçar a convergência das esquerdas
Manuel Alegre
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Democracia. Apenas Democracia.
14-11-2015 Manuel Alegre, Expresso

"Há cerca de 41 anos, Francisco Balsemão entrou na sede do PS muito abatido. Segundo as embaixadas ocidentais estava tudo no fim. Eu respondi: Estão enganados, agora é que vai começar, vamos fazer a Democracia.
E fizemos. Ela aí está. A alguns dói. Mas é sempre uma festa."

Democracia. Apenas Democracia.

Num seu recente artigo, Henrique Monteiro referiu-se a um meu discurso no I Congresso do PS na legalidade, que teria sido decisivo para a vitória de Mário Soares. Não se tratava então de ser a favor ou contra a unidade da esquerda, mas de garantir a sobrevivência e autonomia estratégica do PS, como condição para liderar o combate democrático. E foi o que aconteceu. O mesmo se passou com a emergência do PRD. Voltei a apoiar Mário Soares, pelas mesmas razões: preservar a autonomia do PS. E foi com o mesmo objetivo que apoiei a iniciativa de António Costa para, num novo quadro parlamentar, negociar com o PCP, o PEV e o BE uma solução política alternativa à coligação de direita, tendo em vista garantir a autonomia do PS e não permitir o seu suicídio político. E sobretudo responder aos problemas concretos dos portugueses.

Tal como em 1975 o PS não aceitou ser comparsa do PREC de esquerda, também agora recusa o papel de satélite do PREC de direita iniciado há 4 anos pelo governo Passos-Portas. Que podia fazer o PS num quadro parlamentar em que uma coligação fundamentalista tinha perdido a maioria absoluta? Viabilizar o governo contra o voto dos seus eleitores? Liderar a oposição? Mas como? Através de sucessivas “abstenções violentas”, atacado pela esquerda, isolado do seu eleitorado, reduzido a muleta da direita, para chegar ao fim igual ao PASOK?

É certo que tem havido uma interpretação errada das legislativas, que são eleições de deputados e não de primeiro ministro. Uma certa direita julga que o poder lhe está destinado por direito divino. Por muito que lhe custe, a esquerda tem uma maioria de deputados na AR. Ninguém e nada a pode obrigar a viabilizar uma coligação minoritária. O acordo PS-PCP-PEV-BE é uma ruptura nos maus hábitos do sistema. Política e constitucionalmente legítimo, o acordo é também democraticamente necessário. Nem “arco da governação”, nem, como agora se pretende, “arco europeu”. Democracia. Apenas democracia, resultante de uma cultura de diálogo e compromisso, tal como o PR anteriormente tinha advogado. A democracia às vezes incomoda.

Durante a revolução, as esquerdas confrontavam-se na rua e no país. Mas convergiam na Assembleia Constituinte para fazer a Constituição. Voltaram a convergir, contra a direita, na aprovação da lei de bases do Serviço Nacional de Saúde. E na segunda volta das presidenciais de 1986 para conseguir a vitória de Mário Soares. Mas os confrontos da revolução deixaram feridas. Problemas políticos não resolvidos, traumas pessoais e afectivos que passaram de pais para filhos. A divisão das esquerdas tem sido a força da direita. E a incomunicabilidade das esquerdas tem sido o seguro de vida do PSD e CDS. A direita podia unir-se e governar. A esquerda não, mesmo quando tinha maioria para o fazer.
Até que a coligação PSD-CDS aproveitou o resgate para fazer uma contra-revolução ideológica e social. O PSD mudou de natureza e governou contra a Constituição, provocando uma ruptura irremediável dentro do sistema. O centro-direita acabou.

Uma direita radical e revanchista tomou conta do poder para ajustar contas com a democracia nascida no 25 de abril, demolir o Estado Social, atacar a classe média, desvalorizar o trabalho, provocar um aumento sem precedentes da desigualdade social, vender ao desbarato os sectores estratégicos da economia e fazer do Estado português uma sucursal do Partido Popular Europeu, que cada vez mais se confunde com a UE. Passos e Portas ressuscitaram a luta de classes, voltaram gerações contra gerações, empregados contra desempregados, funcionários públicos contra o sector privado, portugueses contra portugueses. Criaram o maior confronto ideológico da direita com a esquerda e de um governo com o país. Foram eles os promotores do inevitável reencontro das esquerdas.

Em vésperas de 4 de outubro, no comício do PS em Coimbra, eu disse que era preciso enterrar os traumas do passado. António Costa avisou que não aceitava a ideia do “arco da governação”. Ninguém quis reparar. O centro de intoxicação estava formatado noutro sentido. Agora, tem a desvergonha de querer assustar os portugueses e alertar uma Europa que acha natural e legítima a mudança de governo.

É um momento de viragem e responsabilidade histórica para todos. O PS e as esquerdas assumiram a sua, no quadro da Constituição portuguesa e da tradição parlamentar europeia. Há muita gente que esperou uma vida por um momento assim. Ninguém, nem nenhum órgão de soberania, tem o direito de, com gravíssimas consequências, matar esta esperança.

Há cerca de 41 anos, Francisco Balsemão entrou na sede do PS muito abatido. Segundo as embaixadas ocidentais estava tudo no fim. Eu respondi: Estão enganados, agora é que vai começar, vamos fazer a Democracia.
E fizemos. Ela aí está. A alguns dói. Mas é sempre uma festa.

Manuel Alegre