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Manuel Alegre
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Manuel Alegre, no dia do centenário de Álvaro Cunhal:
“Tinha um inesperado sentido de humor”
10-11-2013 DN

1. Conheci Álvaro Cunhal em Moscovo, por ocasião do Festival Internacional da Juventude. A delegação portuguesa, de que eu fazia parte, estava reunida para um encontro “importante”. Quando ele entrou, percebi logo que era. Não por se dar ares de “importante”, mas, pelo contrário, por uma reserva e uma sobriedade senhorial, algo que uns têm e outros não, um não sei quê que talvez se possa definir como carisma. Fui escolhido para intervir no comício de solidariedade para com os povos em luta. Redigi um texto numa prosa um tanto pomposa, no estilo da retórica das assembleias estudantis. Cunhal veio ter comigo e disse-me, com delicadeza, que o texto continha proclamações abstractas. Era preciso dar-lhe um tom mais despojado e explicar a situação concreta do País.

Fiquei atrapalhado e tentei um novo texto que entreguei para ser dactilografado e traduzido. No dia seguinte trouxeram-me o texto corrigido. A bem dizer era outro, e muito melhor. Compreendi quem era o autor. Perguntaram-me se eu concordava, disse que sim e fui fazer a intervenção. “Belo texto”, disse-me um camarada funcionário no fim. “Cunhal sabe o que faz”, respondi.

2. Pouco tempo depois reencontrei Álvaro Cunhal na III Conferência da Frente Patriótica, em Argel, fina a qual nos instalámos em casa de Pedro Ramos de Almeida, que era, então, o representante oficial do PCO na Frente. Ali vivemos os dois um mês e tal. A certa altura, o Pedro e a família tiveram de se ausentar. Foi então que descobri um outro Cunhal. Era um homem muito culto, gostava de conversar sobre livros, pintura, cinema, Shakespeare, que conhecia muito bem. Quis saber mais de mim, mas também falou de alguns aspectos da sua vida. Tinha uma grande ternura pelo pai, de quem falava com saudade. E tinha um inesperado sentido de humor. Uma manhã deixei-me dormir e fui acordado por Álvaro Cunhal, que trazia o pequeno almoço numa bandeja e me perguntou a sorrir: “Vossa Excelência é servida?” Fiquei envergonhadíssimo e convencido de que ele me estava a dar uma lição. Talvez. Mas creio que estava sobretudo a divertir-se. O certo é que, enquanto ele lá esteve, nunca mais acordei tarde.

3. Encontrei-me outras vezes com ele, em Paris. Mas conto um último episódio, já muito depois do 25 de Abril e das desavenças que tivemos. Eu estava n Hospital dos Capuchos, onde tinha sido operado pelo meu amigo Rui Macedo. Uma manhã, grande alvoroço no hospital. Álvaro Cunhal tinha telefonado a saber do meu estado. Dois dias depois, novo reboliço: um telegrama de Álvaro Cunhal a desejar-me a s melhoras. Dir-se-á que nada disto tem a ver com política. Eu acho que tem. E muito.