" e de tudo o que vi o que doeu / foi ver que se tentou mas que no fundo / mais desigual que nunca está o Mundo."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao JN
"A grande poesia não cabe num tweet"
09-12-2020 Entrevista conduzida por Sérgio Almeida, JN
Entrevista conduzida por Sérgio Almeida

São menos de 40 páginas, mas nelas cabe (quase) tudo. Fulgurante revisão de vida, "Quando" - novo livro de poesia de Manuel Alegre - entrelaça o destino de uma geração com a inquietude de um presente marcado pela "sombra que cresce em toda a parte".

O ano que agora termina já nos tinha dado "As sílabas de Amália", uma reunião das letras e poemas que Manuel Alegre escreveu para a diva do fado. Agora com "Quando", o poeta lança um olhar sobre a vida ampla que tem tido, mas sem deixar de comentar os dias de presente ("um tempo sem horizonte", diz), com todos os desafios e riscos que ele contém.

Este é um livro de combate de alguém que, aos 84 anos, ainda acredita que "nada foi escrito"?
É sempre difícil explicar por que se escreve um livro, mas este veio a crescer dentro de mim há muito. Depois, subitamente, irrompeu. É um livro onde há vários tempos e fronteiras. Das vivências, da escrita, da memória. Não sei se será um poema de combate. É um poema de uma vida. Do meu percurso, da minha geração, mas também de outras. Chegámos todos a este tempo sem horizonte, com muitas pragas dentro de uma praga.

É um dos livros em que a dimensão biográfica está mais presente?
Há, de facto, a evocação de muitos episódios da minha vida, mas há também elementos geracionais e da própria literatura. A dada altura, escrevo que sou primo de Gilgamesh. Vou lá atrás no tempo também, porque em cada verso que se escreve estão todos os versos que foram escritos por todos os poetas. Há também Dante, Virgílio e tudo quanto ficou de nós pelo caminho, seja o olho de Camões em Ceuta ou o braço de Cervantes em Lepanto, a perna do Rimbaud em Marselha...

Foi escrito de um só fôlego?
Foi rápido, mas não levou só um dia.

Vê-se cada vez mais como um poeta da inspiração e menos da oficina?
Sabe, não existe inspiração sem oficina. Sem oficina, a inspiração perde-se. É preciso, como dizia um poeta norte-americano, que a técnica se transforme numa segunda natureza. A poesia nasce de um sopro, de um impulso. Sem isso não sei escrever. Mas isso só dá certo se a oficina estiver amadurecida.

Este "quando" do título pressupõe uma pergunta, mas não tem ponto de interrogação. Cabe também ao leitor decidir onde situá-lo no tempo?
É isso mesmo. O título não tem ponto de interrogação, mas o livro está cheio de interrogações, muitas delas sem resposta. Este "Quando" procura ser a soma das interrogações sucessivas. Nele cabem o passado e o presente, mas sobretudo alguma esperança no tempo que há-de vir, que não sabemos como será.

Para si, essa manutenção da esperança é fundamental?
A esperança é sempre difícil, mas tem que ser construída. É por isso que escrevo que o poema é a última conjura. É uma forma de resistir a este tempo sem tempo e até ao abastardamento da linguagem, contra o politiquês, o economês, o excesso do número.

Pensa que o passado, presente e futuro tendem a fundir-se num só tempo?
Não há tábua rasa. Neste momento, há uma grande questão entre o presente e o passado. É preciso ter uma visão crítica do passado, mas acima de tudo ter memória. Sem isso, não há qualquer futuro. Aos que querem enterrar tudo o que ficou para trás, da História à literatura, relembro que foi um velho de quase 80 anos, Joe Biden, que nos libertou dos demónios que foram soltos por Donald Trump. A idade está na cabeça, no espírito cívico e de resistência, na capacidade de conseguir o impossível.

Pela primeira vez assina com o nome completo, Manuel Alegre de Melo Duarte. Porquê?
Vou dar-lhe uma novidade: se calhar vou passar a assinar com o meu nome completo. Quando era campeão de natação, conheciam-me como Manuel de Melo Duarte. Quando publicaram os meus primeiros poemas eu estava preso e os meus amigos puseram o nome de Manuel Alegre e assim ficou.

Sente-se ainda mais impelido para a escrita quando o país e o mundo vivem momentos difíceis?
Ninguém estava à espera disto. Todos pensavam que as pestes tinham passado e o mundo julgava-se omnipotente, omnisciente e afinal... Está a terra ocupada por uma praga que contém outras pragas. Quando é difícil passear, ir nadar ou caçar, como gosto, escrever torna-se um ato de resistência e de combate.

Escreveu muito durante o confinamento?
Escrevi uma espécie de memórias, que parecem um romance de ficção, porque a minha vida foi muito agitada. Está praticamente escrito, mas quero esperar. Como não tenho cadernos nem apontamentos, é uma história real construída a partir das minhas memórias.

Quando escreve que metade de si "ficou no tinteiro e a outra metade foi a dar a volta ao mundo", significa que entre o homem e o poeta sempre houve uma divisão?
Tive uma vida agitada que passou, além da escrita, por uma intervenção pública, na política e na cidadania, mas essa divisão aparente é a minha unidade. Essas duas metades juntas somam-se e fazem a inteireza.

Concorda que nem sempre toda a gente aceitou bem o facto de ser um poeta com biografia, ou seja, nunca se limitou apenas à escrita?
O Octávio Paz dizia que os poetas não têm biografia, têm um destino. Ora, eu acho que todos têm biografia e destino. Mesmo Fernando Pessoa. Tinha a sua biografia e a dos heterónimos que criou. Há biografias vividas, outras imaginadas, mas o escritor é sempre ele próprio e a sua biografia.

No deve e haver, o que acha que a vida cheia trouxe à sua poesia?
Trouxe-me vivência, saber viver com os outros, mas também a aprendizagem de que, mesmo quando tudo parece perdido, no meio da guerra ou fechado numa cela, há sempre a possibilidade de dar a volta. É a soma das alegrias e das tristezas que completa a nossa vida. A grande lição do livro é a de que a vida e a escrita são inseparáveis. Nisso concordo com o João Cabral de Melo Neto, que criticava os escritores inespaciais, fora do tempo e da História. Ninguém está fora do tempo e da História.

Faz menção no livro ao aburguesamento da poesia. É essa a razão por que há hoje menor fervor poético?
São circunstâncias históricas diferentes. Na minha juventude havia maior necessidade de poesia, havia a ditadura, a repressão... A poesia era uma forma de comunicação e muitas vezes procuravam na poesia mensagens que não existiam. Isso explica que alguns livros, como "Praça da canção" e "O canto e as armas", tiveram o impacto que tiveram. Apesar de proibidos, circularam em cópias manuscritas ou datilografadas e foram cantados. São momentos irrepetíveis. Hoje, vivemos em democracia, há liberdade de expressão e talvez não haja a mesma necessidade de poesia, mas, nos tempos de hoje, precisamos mais de poetas e profetas e menos de economistas, que se têm mostrado incapazes de resolver os problemas.

Nunca há "poesia a mais, pensamento a mais, palavras a mais"?
Há muita gente que hoje pensa que a poesia não é necessária. Mas sem uma dimensão poética, o que vale a vida?

Na era dos tweets, qual o lugar da poesia?
Vivemos nesse tempo, do "clica e apaga", de que falo no livro. Pergunto até se Deus tweeta. E há também políticos que se julgam deuses com os seus tweets. As redes sociais são hoje uma grande praga, uma grande forma de incomunicação. Mas a grande poesia não cabe num tweet. A minha poesia não cabe numa SMS.

A poesia ainda é o poder, como escreve?
Isso é uma referência a Osip Mandelstam, para muitos o maior poeta do século XX. Pouco tempo depois de ele ter escrito que a poesia é o poder, numa carta enviada à Anna Akhmatova, foi enviado para um campo de concentração por causa de um poema que escreveu contra Estaline. Bastou aquele poema, que nem era dos seus melhores poemas, para que fosse condenado. Mas a História veio a demonstrar que ele tinha razão: a poesia é um poder pela força de contrapoder que tem. Mesmo um homem tão poderoso como Estaline teve medo de um poeta e de um poema.

Quem são os devoradores da memória de que fala no livro?
Karl Marx dizia que quem faz julgamentos morais obnubila o conhecimento da História. Quando cortam a cabeça do Colombo estão a cortar cabeça a eles próprios. Foi o Colombo que lhes abriu o caminho para a América. Não podemos enjeitar o momento único das navegações que permitiram aos portugueses e a outros povos encontrar outros países e continentes. A descoberta tem sempre vários sentidos. Descobrimo-los, tal como eles o fizeram em relação a nós. Embora seja necessário um sentido crítico da História, é uma ignorância e uma estupidez julgar factos do passado à luz dos valores de hoje. É totalmente desajustado.

Que sociedade vai sair deste mundo virado do avesso?
Toda a vida me bati por uma sociedade mais igualitária, mas todos os modelos construídos falharam. Desde o modelo saído da Revolução Russa ao da social-democracia. Estamos perante novos problemas e o maior é o das alterações climáticas, provocado pela poluição do mar, da terra e das cidades. São problemas terríveis perante os quais os poderosos continuam indiferentes. O lucro e o poder do dinheiro são mais importantes do que tudo. O planeta não morre, mas a vida pode acabar. Podemos ser os próximos dinossauros. Na origem de todos estão problemas estão as desigualdades, provocadas pelo super poder financeiro que domina todos os outros poderes, seja político, cultural ou financeiro.

O que distingue estes tempos difíceis do presente dos outros pelos quais também já passou?
No combate à ditadura sabíamos que mais cedo ou mais tarde iríamos vencer. Este mundo globalizado cria problemas muito mais complexos e mais difíceis de resolver. Depois da eleição de Trump, assistimos à emergência da China e da Índia, ao ressurgimento da Rússia e às fraquezas da União Europeia. Tudo isto criou no mundo uma grande desordem. Vivemos numa espécie de caos, que tanto pode trazer mais justiça e igualdade como pode trazer coisas terríveis.

"Velhos de todo o mundo: uni-vos", escreve num dos poemas do livro. A pandemia está a ser usada para cercear os direitos dos mais velhos?
Pode haver às vezes essa tentação. No caso da vacinação, pelo menos, há uma resposta positiva de começar pelos profissionais da saúde e pelos mais velhos.

Esta sombra que cresce em toda a parte, de que fala num dos poemas, também se deve aos populismos crescentes e à escalada da extrema-direita em numerosos países, incluindo Portugal?
É um fenómeno global que resulta do falhanço das políticas tradicionais, do centro-direita e centro-esquerda, que não foram capazes de dar resposta aos novos desafios do ultraliberalismo e poder financeiro. Não foi por acaso que o Trump teve a votação em massa que teve. Tivemos o nazismo e acreditámos que fosse um fenómeno irrepetível, mas aí estão de novo os populismos, sob outras formas. Com uma grande diferença: as democracias não estão a ser derrubadas com golpes de estado, mas estão a ser minadas por dentro. Toda a atenção é pouca. Não podemos subestimar os fenómenos populistas, mesmo quando começam com poucos votos.

Como se combatem esses problemas?
Procurando responder aos problemas reais e concretos que levam as pessoas a ficarem descontentes com a política e o sistema.

Como olha para o cenário político atual?
Acabou-se o mito do arco da governação, que excluía o PCP e outras forças de esquerda, e restituiu-se a centralidade. Quando isso acontece, é sempre possível fazer maiorias, à esquerda ou à direita. O centro-direita está muito fraco em Portugal, o que não é bom nem para a democracia nem para o Governo. É preciso uma alternativa mais forte no centro-direita. A política, como a natureza, tem horror ao vazio. A fraqueza da direita tradicional abre espaço aos populismos da extrema-direita. Não me regozijo com a aparente debilidade do PSD.