" e de tudo o que vi o que doeu / foi ver que se tentou mas que no fundo / mais desigual que nunca está o Mundo."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao DN:
"Assistimos à desconstrução da democracia dentro da própria democracia”
21-11-2020 DN
Entrevistado por João Céu e Silva

Em três dezenas de páginas, o poema intitulado 'Quando' faz um primeiro exame da opressão vivida devido à pandemia enquanto questiona os modelos políticos, económicos e sociais que a história arquivou na categoria de falhanços. Manuel Alegre não despe o seu lado político, mas nestes versos “eleva” o Twitter à categoria de Deus e de como as novas tecnologias iludem os que se “incomunicam” através delas.

Quando. Uma palavra basta para um título?
Um amiga e grande poeta disse-me uma coisa interessante sobre essa palavra: “Quando é sempre”. Este 'Quando', sem ponto de interrogação ao longo de todo o poema, resulta numa sucessão de interrogações, e a maior parte delas sem resposta. É uma peregrinação interior e exterior feita de fronteiras físicas, as do exílio, as literárias, as metafísicas e as da escrita. Enfim, uma viagem pessoal e geracional, com várias vidas na vida e tempos diversos até chegar à actualidade, que já designei como um tempo sem tempo.

É um poema de recusa à normalidade, situação que vemos em “modernidades” inesperadas em si. É o caso de “Faz delete, apaga a história apaga o poema apaga o passado. / Twita: viva a noite o vazio o copo a coca a queca.”. Não são habituais em si?
A minha poesia nunca foi sempre igual e tem uma toada que sempre procurei renovar. Estes versos têm a ver também com este tempo actual, o tempo do clique do tweet, e muito com este tempo sem memória, sem passado e sem perspectivas futurantes, porque quando se faz tábua rasa do passado também se fecha a porta do futuro.

Tem a ver com a pandemia?
Isso acontece não só em relação à pandemia, mas em vários sentidos: ignorância da história, a forma ultranarcísica como se vive, no exacerbado individualismo ou no espírito de pequeno grupo ou seita com que se convive, mas, sobretudo, com haver um corte com o passado que é, no fundo, um corte com a memória. Quando isso acontece e não existe uma visão política da história ou de um certo passado e se perde a memória, também se fecha a porta do futuro. É o que está a acontecer.

Afirma que “a ilha da utopia acabará engolida pelo mar” devido aos glaciares estarem a derreter. É mais do que uma metáfora, antes a nova ordem sobre a Terra?
É uma metáfora. É preciso perceber que a nova ordem sobre a Terra é uma grande desordem, porque o problema não é só o planeta morrer, mas a ameaça que paira sobre a vida e a própria vida humana. Se os dinossauros desapareceram, nós também podemos desaparecer. As águas estão, de facto, a subir e as alterações climáticas existem mesmo, portanto quando se pretende ignorar a realidade e se coloca o interesse do poder do dinheiro e de alguns poderosos acima de tudo, então estamos a enterrar a vida e com ela enterrando a utopia e o sonho, enterrando a própria poesia. Quando se ameaça a vida ameaça-se tudo.

Até há pouco tempo éramos alertados para o perigo das alterações climáticas, mas nem todos se preocupavam. Sendo a pandemia até menos perigosa, quando se a ultrapassar, a humanidade ocupar-se-á do clima?
Não sei se a pandemia é menos perigosa, até agora tem sido bastante. Já matou muita gente, vai matar muitos mais e, pelo menos, levou-nos a descobrir que novas pestes e pragas são possíveis. Nós não somos omniscientes nem omnipotentes, e por muito que se tenha evoluído ao nível da ciência, ido ao espaço e se tenha avançado na pesquisa e descoberta de outros mundos e outros horizontes, bastou aparecer este bicho e sentimo-nos no meio de pestes de outros tempos. Apesar de todo o avanço científico e dos meios de que dispomos, que não existiam na Idade Média, somo levados a pensar que outros riscos existem. Os já referidos, as alterações climáticas, bem como a poluição extrema do mar e da Terra, o esgotamento dos recursos e as terríveis desigualdades que estão a lançar para a exclusão de uma vida digna milhões de pessoas.

Quando aconteceu o primeiro confinamento, todos diziam que o mundo não ia mudar assim tanto. Este segundo em curso irá alterar a mentalidade das pessoas?
Acho que a mentalidade já está a mudar. Além dos confinamentos decretados, as pessoas autoconfinam-se e autoprotegem-se, pois estamos perante uma emergência sanitária que ameaça a saúde e a vida, a que sucede uma emergência económica que põe em risco o emprego de muita gente – até de uma emergência cultural e política -, embora muitas pessoas não se aflijam e se defendam com o não quererem saber ou fecharem os olhos. Mas a peste calha a todos!

Reflecte os efeitos pandémicos nos versos, tal como o de navegar nas redes sociais e usado a tecnologia. Para o bem e para o mal, estão muito presentes neste 'Quando'…
Não posso ignorar a importância que têm as redes sociais, os cliques e os tweets, embora não seja grande praticante de computadores e por isso dizer “a sms não é a minha escrita”. Até pergunto no poema: “Será que Deus twita?” Porque o tweet e a utilização das redes sociais têm muito a ver com a espuma dos dias e resultam num trabalho muito efémero. Até digo “toda a gente twita mas ninguém comunica”, porque é também uma forma de incomunicação.

Essa situação de juntar Deus e o Twitter não se espera de si!
É outra metáfora, porque alguns que não são Deus nem são deuses julgam ter na mão esse poder de mudar o mundo.

É uma metáfora para os políticos?
Sim, e também o de se ter esse sentido de Deus, porque a questão religiosa existe nas pessoas, nem como o problema de Deus e da sua existência. Algo que se questiona também na arte, na poesia, e em todos nós, independentemente das nossas crenças.

No entanto refere: “Deus não me ouviu.” Está mais religioso com a idade?
O sentido religioso existe em todos nós, no entanto aí refiro-me a uma situação de guerra. Não é pessoal, mas a que assisti várias vezes em pessoas que não eram muito praticantes mas que, em situação extrema, se viraram para Deus ou Lhe pediram ajuda.

A morte está muito presente neste 'Quando'. “Não te esqueças que morreste em todos os poemas.” Olha para a obra e vê os poemas como epitáfios nas campas dos cemitérios?
Não, mas todos nós deixamos uma parte de si no caminho. Aliás, no poema faço referência a Camões, que deixou um olho em Ceuta, a Cervantes, que deixou um braço em Lepanto, a Rimbaud, que deixou uma perna em Marselha, e a Osip Mandelstam, que morre num campo de concentração. Se todos deixámos um pouco de nós no caminho, outras vezes deixou-se um pouco do nosso corpo, ou noutras a nossa alma nos versos que escrevemos.

Sublinha que o desinteresse pelo passado já estava no Maio de 68. Irrita-o o fim cíclico da história?
Não há fim da história, há ciclos. Eu, que já tenho uma idade avançada, assisti a vários ciclos. No Maio de 68, vi os filhos da burguesia a quererem mudar o mundo e a derrubar o poder do capitalismo. Também assisti a uma cena com um velho comunista que tinha sido um chefe da resistência a querer falar e eles não o deixarem; assobiaram e disseram que se estavam nas tintas para o que ele tinha a dizer. Aqui, tenho um pouco a sensação de que um certo ciclo da história também se fechou: o ciclo da utopia revolucionária. Também se fechou o nosso ciclo revolucionário em Portugal. Se eu falar a uns quantos jovens e até a mais velhos sobre o que foi a resistência na ditadura ou sobre o 25 de Abril, provavelmente também me dirão “estamo-nos nas tintas”. Isso significa que o ciclo de construção da democracia que até inspirou outros países após o 25 de Abril – como a Espanha, a Grécia ou o Brasil – deixou de interessar. Agora assistimos a um período de desconstrução da democracia e dentro da própria democracia. Se antigamente se faziam golpes de estado com tanques na rua, agora é dentro da democracia.

Está a referir-se à aliança política entre partidos como o Chega e o PSD?
Não, nem quero falar disso, estava a pensar nos EUA. Segui – e sigo – apaixonadamente essas eleições e considero que Biden é neste momento um herói cívico. Não é um De Gaulle ou um Churchill, nem um Che Guevara, mas travou um extraordinário combate e venceu. Sei que para alguns mais jovens a Kamala Harris é mais interessante, porventura o futuro, mas foi Biden quem ganhou a eleição. É uma vitória tão importante como sobre o nazismo na II Guerra Mundial, porque a permanência do Trump seria a libertação de outros demónios.

Houve um grande exército de eleitores que facultou a vitória a Biden…
Muito grande, mas a sua figura e o facto de ter compreendido um lado da América que votara em Trump, dos trabalhadores da classe média baixa, além das questões identitárias, pois o que conta mesmo são as desigualdades que vêm das diferenças de classe e de rendimento. Essa é a grande linha da desigualdade que está traçada no mundo, aquela entre incluídos e excluídos.

Insurge-se contra a realidade política actual no poema. Não se referindo a isso, pode-se depreender que não aceita que o PS se apresente às presidenciais sem candidato?
Já defini a minha posição em relação às presidenciais; sou amigo de Marcelo, devo-lhe muitas atenções, mas ele é de direita e eu sou de esquerda, portanto vou votar em quem representa a minha família política, que é a Ana Gomes.

Pergunta no poema “como encontrar palavras novas dentro de palavras velhas”. Iremos ter um mundo novo dentro do velho?
Eu já não acredito nos amanhãs que cantam… acho que não se pode ter as mesmas ilusões que tivemos após as utopias que não tiveram bons resultados na prática. A luta que a minha geração travou conduziu a alguns resultados: a democracia e a liberdade no nosso país, com todos os seus defeitos, mas a verdade é que os modelos falharam. O modelo do socialismo real, o da social-democracia e o do capitalismo não são modelos capazes de resolver as situações. Não tenho na manga uma solução ideológica, por isso digo que o poema é a última conjura. Acho que a arte, nomeadamente a poesia e a libertação da palavra contra este falajar – no poema está contra o Excel e a obsessão do número, o economês que invadiu as nossas vidas – pode ser o princípio de outras libertações.

Contudo, faz um desabafo: “Talvez o poder não tema nenhum poeta.” É autobiográfico?
Neste poema interrogo-me sobre a própria poesia, sobre o tempo em que a palavra poética valeu muito e até contribuiu para o despertar das consciências e para a libertação do país, mas neste momento parece-me que a palavra poética, e até mesmo a palavra em geral, tem menos poder. Deve-se a isso que me refira à ilusão dos tweets e das sms. Portanto, é preciso reabilitar a palavra do homem e a palavra poética. A certa altura escrevo “talvez a poesia se tenha aburguesado”, mas é no sentido de se estar a fazer muitos experimentalismos entre os poetas. Eu sempre os fiz, como queria o Rimbaud, mas agora vivem em circuito fechado e para dentro, são meia dúzia a falar para outra meia dúzia.

O português perdeu o sentido da poesia?
A poesia está a ficar muito fechada ou muito esotérica, até enigmática, e não chega senão ao amigo mais próximo. Ainda continuamos a ter grandes poetas no presente e também os do passado. Até digo “talvez eu seja um poeta arcaico”, porque todos somos feitos de muitos poetas, desde Gilgamesh, ou, no nosso caso, dos trovadores, de Camões, de Cesário Verde, de Camilo Pessanha… O que pergunto é se alguns dos que tentam escrever lêem os clássicos ou os grandes poetas portugueses.

Foi daí que nasceu este 'Quando'?
Este livro também nasceu do isolamento a que estamos obrigados, momento em que reli a 'Eneida' traduzida pelo professor Carlos André, em que voltei ao Dante no original, com a tradução do Graça-Moura na página ao lado, em que li o 'Terra Devastada' de Eliott, em que li o poeta chileno Vicente Huidobro, e todas essas leituras levaram-me à conclusão de que em tempos diferentes os poetas disseram na sua linguagem própria coisas muito semelhantes sobre o sentido ou a falta dele no mundo. Até cito aquela frase escrita numa tabuinha de argila: “Ontem não te vi em Babilónia”. Que é extraordinária, pois é uma frase do quotidiano e que poderia ser escrita hoje.

Hoje, a partir das 13:00, entra em confinamento obrigatório. Escreverá outro poema?
Já fui preso político e escrevi poemas na cadeia – parte dos poemas de 'Praça da Canção' foram escritos na cadeia -, mas ninguém gosta de estar preso, e eu também não gostei. Também não gosto de estar confinado, embora hoje, com esta idade e neste período de reforma, passe muito tempo em casa com os meus livros e papéis. Muitas vezes, quando saio é para fazer o que gosto: nadar no mar, ir à caça ou à pesca, estar com os amigos ou passear. Gosto muito de estar na rua, mas neste momento há uma sensação desagradável pois as pessoas não se sentem à vontade no exterior. Não olham umas para as outras, ninguém anda a sorrir na rua ou então estão de máscara. Pergunto-me como é que este tempo vai marcar a juventude, desde os mais pequenos aos adolescentes… Estou mais preparado para enfrentar essa realidade, mesmo assim o facto de ser proibido sair dá-me logo vontade de o fazer. Daí que perceba a revolta dos mais jovens contra ficarem em casa confinados, até o desejo intenso de transgredirem. A vida não se repete! Lembro-me de que nas vésperas das grandes guerras também a juventude queria viver tudo em dois ou três dias. Faz parte da própria natureza e do impulso da vida.

Referiu que remexe nos seus papeis. Há a promessa de publicar um livro com memórias. O que o faz adiar essa promessa?
Eu já as escrevi, mas não é coisa que tenha grande vontade de publicar. Fazem parte de um passado que se projecta no presente e que teve consequências no presente que vivemos. É uma questão que ainda não resolvi, porque nesses escritos – que não serão memórias – está muito do que nem sempre registei em cadernos ou diários por causa da clandestinidade, e quase parece um romance de ficção baseado em factos reais.

Este poema é um questionamento?
É um conjunto de interrogações sem resposta e põe em causa muita coisa. Pergunto se o que vivi poderia ter sido de outra maneira. É um compromisso com a realidade e também um grito poético de revolta.