" e de tudo o que vi o que doeu / foi ver que se tentou mas que no fundo / mais desigual que nunca está o Mundo."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre sobre o Prémio Camões para Aguiar e Silva:
"O prémio mais justo"
03-11-2020 Manuel Alegre

A atribuição do Prémio Camões a Vítor Manuel de Aguiar e Silva, o “mestre completo” de que falou Maria Helena da Rocha Pereira, é o justo reconhecimento do nosso maior camonista e teórico de literatura. Profundo conhecedor dos clássicos, Vítor Manuel desenvolveu o estudo da poesia de Camões em ensaios como “Camões: Labirintos e Fascínios”, “A Lira Dourada e a Tuba Canora”, “Jorge de Sena e Camões” ou no mais recente e extraordinário “Dicionário de Luís de Camões”, que concebeu e coordenou.

A sua influência como professor e mestre vem desde o clássico “Teoria da Literatura”, uma obra de 1967 sucessivamente reeditada e estudada, a ponto de, no Brasil, o livro ter passado a ser conhecido como “o Vítor Manuel”. Defensor da língua e cultura portuguesas, influenciou sucessivas gerações de estudantes ao longo da sua carreira universitária, marcando-os com o seu elevado rigor e humanismo, ao mesmo tempo que publicava a sua obra teórica e ensaísta, muito premiada e traduzida em várias línguas.

Um dia, em 1997, fui convidado a participar com ele numa sessão para professores em Viseu. A sala estava repleta com centenas de professores, a mesa era composta por Vítor Manuel de Aguiar e Silva, José Manuel Mendes, Clara Crabbé Rocha e eu próprio. Li pela primeira vez em público o poema “Senhora das Tempestades”, ainda inédito. Aguiar e Silva surpreendeu-me com uma interpretação luminosa da minha poesia, que a libertava dos estereótipos e preconceitos ideológicos de que era alvo. Foi para mim um momento de libertação. Peguei numa folha de papel e escrevi de jacto “O que sei de poesia”, um pequeno texto que termina assim: “Porque o poeta traz em si uma ferida e o duende por vezes ouve ‘sonidos negros’. É então que a poesia acontece. Isto é o que sei de poesia. Talvez seja muito pouco. Mas não sei se é possível saber mais.”

Devo-lhe esse momento de revelação. Devo-lhe o prefácio que escreveu para o meu livro “Senhora das Tempestades” e o ensaio sobre a minha escrita que incluiu na terceira e última parte do seu mais recente livro, “Colheita de Inverno”, dedicada a “Ensaios sobre Literatura Portuguesa”. Mas devo-lhe sobretudo uma leitura da minha poesia que a libertou, reconhecendo, como ele próprio sobre ela escreveu, que “O canto poético como redenção e libertação pode ser a última e suprema resposta às perguntas trágicas de Elsenor...”

Mas Aguiar e Silva também teve um papel importante no processo democrático. Recordo o notável discurso que proferiu, como membro da comissão nacional da minha primeira candidatura à Presidência da República, no comício de Braga. Para além da sua brilhante carreira académica, sublinho o elevado sentido de serviço público de que deu provas em todos os cargos relevantes que foi chamado a desempenhar.

Manuel Alegre