"Amália, mais do que ela, é todos nós"
Manuel Alegre
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Intervenção de Manuel Alegre na Academia das Ciências
Amália e povo, a uma só voz
13-10-2020 Manuel Alegre

Quando Amália canta “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, não está apenas a interpretar Camões, está a falar de si mesma e de todos nós, de um destino pessoal e colectivo, um país e um povo. Do mesmo modo que ao perguntar-se “com que voz cantarei meu triste fado”, está a restituir à palavra fado o sentido quase mágico que lhe dava Camões.

Quando tal acontece estamos perante o milagre de alguém que traz dentro de si o legado antiquíssimo do canto popular e culto, algo que não se aprende nem se ensina, está dentro, circula no sangue e na inteligência, vem da raiz e da História, da sua e de Portugal, que ela sabe, não dos livros, mas da vida. Amália canta “Senhora do Almortão” e “Povo que lavas no Rio”, uma canção da Beira Baixa e um poema de um grande poeta e, se formos a ver, é o mesmo canto, a mesma raiz, a mesma identidade.

Por isso ela pode ir dos poetas populares aos poetas cultos, da Beira Baixa a Lisboa ou Paris, pode cantar Alfama e Mouraria, “Com que Voz” e “Gaivota” e é sempre ela mesma e mais do que ela, mas sem nunca ficar na raiz nem no bairro, o seu canto é de aqui e do Mundo. Como diria Fernando Pessoa “tanto mais universal quanto mais português”.

Penso no discurso sobre a cultura que Sophia de Mello Breyner fez na Assembleia Constituinte. Um discurso em que Sophia diz que “nenhuma forma de cultura se pode atribuir o direito de destruir ou menorizar outras formas de cultura”. E acrescenta: “A cultura dos trabalhadores rurais, dos pescadores, a cultura das aldeias longínquas não é uma cultura menor, ela permanece, na sua raiz, uma semente de revolução, pois é uma cultura não burguesa, uma cultura integrada no trabalho e na vida, uma cultura do comportamento humano".

Este é o segredo de Amália, ela nasceu culta desta cultura, a que depois somou a da cidade e do Mundo, da experiência e da vida, dos poetas antigos e dos poetas modernos, que Alain Oulman musicou para ela.

Não se sabe por que mistério, talvez o da poesia e do fado, Amália nasceu marcada para ser e se construir quem foi e como foi, excepcional e única, herdeira de um legado e de um dom, o dom de se dizer e nos dizer, Amália e um povo, a uma só voz.