(...) ainda é Lisboa de Pessoa alegre e triste / e em cada rua deserta / ainda resiste.
Manuel Alegre
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Vírus
06-03-2020

Publicado no livro Sonetos do Obscuro Quê, de 1993, e incluído no livro Sonetos, de 2019, este poema de Manuel Alegre, intitulado simplesmente "Vírus", é uma antevisão poética do que estamos a viver hoje.

Vírus

O buraco do ozono está nos versos
há um rio poluído um enfisema
a cidade morrendo-se e dois terços
da humanidade fora do poema

Há um vírus nas sílabas de Abril
um tóxico no ritmo e na palavra
há pássaros que trazem Chernobyl
e já não fala a água que falava

Na terza rima alteração genética
há uma aranha a cantar de cotovia
de pernas para o ar Hegel e a estética

Eis o inferno. E já não há Virgílio
para guiar-me a um reino de harmonia.
Por isso o meu cantar é outro exílio.

Manuel Alegre

Áudio
"Vírus" dito por Manuel Alegre