"E a quem lhes falava de Deus / eles apontavam a chaminé: / fumo.
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Conferência "A literatura da guerra colonial e a guerra colonial na literatura"
O Livro do Silêncio
21-11-2019 Manuel Alegre
Intervenção de Manuel Alegre

Permitam-me que recorde, com emoção, o Comendador José Arruda, que foi a alma e o símbolo da Associação dos Deficientes das Forças Armadas. Foi ele quem me falou entusiasmado sobre a realização desta iniciativa e foi dele que recebi o convite. Compreendeu, como poucos, o drama pessoal e colectivo da Guerra Colonial e o significado histórico do 25 de Abril. Presto-lhe homenagem, certo de que o seu espírito e o seu exemplo permanecem vivos entre nós.
Gostaria de deixar aqui um apelo ao Senhor Presidente da República para que no próximo desfile do 25 de Abril convide os deficientes das Forças Armadas que, sem desprimor para ninguém, são os mais legítimos representantes dos antigos combatentes da Guerra Colonial.

Num ensaio intitulado Imagens da Guerra Colonial em Poetas Portugueses, a professora Paula Morão afirma que não é verdade que seja escassa a literatura tendo por temática a Guerra Colonial. Diz ela que, ao contrário de ideias feitas, “verifica-se um crescendo de bibliografia, quer de obras, quer de crítica ou de trabalhos académicos sobre esta temática…”.

Não sou historiador nem crítico literário. Estou aqui como um escritor que foi à guerra e sobre ela escreveu poemas, que fariam parte de dois livros, Praça da Canção e O Canto e as Armas, que, apesar de proibidos, circulariam de mão em mão em cópias dactilografadas e manuscritas.

Mais tarde, publicaria também o romance Jornada de África.

Mas, se estou de acordo com Paula Morão quanto ao crescendo de bibliografia, é minha convicção de que sobre a Guerra Colonial, há um livro por escrever e que provavelmente nunca será escrito. Chamar-lhe-ia Livro do Silêncio. O livro das cartas que não foram publicadas, porque nem todos tinham o talento de António Lobo Antunes e, sobretudo, porque foram redigidas para as mães e para as namoradas e não para serem lidas por outros. O livro das cartas daqueles que as sentiam e não as sabiam escrever. O livro das lágrimas choradas e das lágrimas por chorar, dos gritos de dor e angústia sufocados na garganta, o livro do medo, da solidão, ou do sofrimento partilhado, das horas contadas uma a uma, dos dias e das noites que nunca mais passavam, o livro das histórias que cada um guardava para si mesmo porque sabia que, mais tarde, ninguém quereria ouvi-las. O livro que está em muitos diários começados no mato e que por certo lá ficaram ou depois foram rasgados ou queimados. O livro dos que deixaram pedaços de si mesmos pelas picadas, braços, pernas, olhos. E também a própria alma. O livro dos camaradas sepultos ou insepultos nos matos de Angola, Guiné e Moçambique. O livro da solidariedade e da coragem de arriscar a vida para salvar a de um camarada ferido. O livro das acções de que se pode falar com honra, mas de outras que se procuram ocultar e, se possível, esquecer. O livro do tempo em que não havia computadores nem telemóveis, mas apenas, como escreveu um poeta, “um pálido vazio aerograma”. E o zumbido das horas que passavam e não passavam. Esse livro não está escrito. É o livro do silêncio de muitos silêncios feito. Está dentro de todos nós, os que andámos na guerra. Alguns escreveram poemas e romances. Outros não escreveram e nem sequer gostam de falar. Trazem o livro dentro deles. Mas não pode ser escrito nem publicado. Uma parte está dentro do nosso corpo e da nossa alma. A outra ficou para sempre no mato. É uma epopeia do avesso, como disse João de Melo. E as epopeias do avesso não são para ser cantadas.

Tal não significa que a Guerra Colonial não tenha dado origem a poemas e romances e não esteja presente em vários livros, alguns escritos por autores que não foram à guerra, outros por quem lá esteve. Creio ter sido o autor dos primeiros poemas escritos em plena guerra. Mas o primeiro poema a ser publicado foi um soneto de Fernando Assis Pacheco, “há um veneno em mim que me envenena”. Ele chegou à guerra depois de mim, mas o seu livro Cuidar dos Vivos sairia antes de Praça da Canção.

Poder-se-á também falar de José Bação Leal, que morreu na guerra, e do seu célebre: “Tentarei o canto, mesmo de gatas.” Estes são os primeiros sinais. Os romances virão mais tarde: Autópsia de Um Mar de Ruínas, de João de Melo; Nó Cego, de Carlos Vale Ferraz; A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge; Os Cus de Judas, de António Lobo Antunes e Jornada de África, deste que vos fala. Mas o livro da guerra começa antes. Começa quando Salazar aparece na televisão, de óculos na ponta no nariz e um dedo apontado à minha geração: “Para Angola rapidamente e em força.”

É óbvio que os massacres cometidos pela UPA no Norte de Angola exigiam uma resposta pronta. O problema é que o envolvimento das Forças Armadas nunca se inseriu em nenhuma outra estratégia política além daquela que o chefe do regime lhes impôs: “Aguentar, aguentar.” Só Adriano Moreira compreendeu a necessidade de um projecto reformador, que não conseguiu concretizar, porque foi substituído.

A questão, também, é que não se pode separar a situação colonial da natureza ditatorial do regime político português. Fascismo e colonialismo andaram sempre de mãos dadas.

As primeiras iniciativas cívicas dos africanos não colocavam sequer o problema da auto-determinação e da Independência. Limitavam-se a reivindicar as liberdades de associação e de expressão, as mesmas, afinal, que a oposição democrática portuguesa reclamava da ditadura do Estado Novo. E se esta respondia com a prisão, a tortura e o Tarrafal aos democratas portugueses, não admira que viesse a usar de mão ainda mais dura com os africanos, cujos principais dirigentes tinham passado pelas Universidades portuguesas e pela Casa dos Estudantes do Império. Foram, aliás, alguns poetas, como Agostinho Neto e Viriato da Cruz que, através da revista cultural "Mensagem", exprimiram pela primeira vez aquilo a que se pode chamar um sentimento nacionalista. “Vamos redescobrir as raízes, vamos a ser nós mesmos”, escreveria Agostinho Neto. Claro que o sentido desta frase, assim como o de alguns poemas escritos por Neto e outros poetas africanos seriam uma espécie de prólogo da luta política pela Independência. Mais tarde, Amílcar Cabral diria que a luta da libertação é um acto cultural. E acrescentaria uma afirmação curiosa: “O colonizado, ao libertar-se, liberta também o colonizador.”

É tempo de dizer que, mesmo muito antes do início da luta armada, a chamada Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas, já então no exílio, tinha proposto várias vezes ao governo português a via da negociação como meio de se encontrar uma solução para a questão colonial. Salazar recusou sempre qualquer contacto e negociação.

Os massacres perpetrados pela UPA precipitaram os acontecimentos e deram início a uma guerra, cujo nome a censura não permitia sequer que fosse dito. Durante cerca de 14 anos, as Forças Armadas, à custa de muitos sacrifícios, criaram soluções para uma solução política que Salazar sempre recusou e Marcelo Caetano não quis ou não foi capaz de concretizar.

Foram muitas vidas perdidas e mutiladas, muitas carreiras interrompidas, muitos projectos de futuro destruídos. E mais cem mil desertores e refractários espalhados pela Europa. Cem mil jovens portugueses que recusaram a guerra. Este número é a maior acusação à obstinação da ditadura do Estado Novo.

Poderia ter sido diferente? A História não se rebobina nem se refaz. Uma coisa é certa. Não é possível abordar o tema da Guerra Colonial sem ter em conta a opressão exercida sobre o próprio povo português. A guerra era um tabu. Os portugueses não tinham liberdade para a debater e, muito menos, para democraticamente sobre ela se pronunciarem. Criticar a guerra era sinónimo de traição. As próprias notícias eram controladas e censuradas. Neste contexto cada poema era em si mesmo um acto de resistência.

A partir de certa altura, tornou-se claro que não era possível encontrar uma solução para a guerra sem resolver o problema político português. O que coloca uma interessante questão cultural e cívica: o 25 de Abril foi decisivo para o fim da guerra, o estabelecimento da paz e o início do processo que conduziu à Independência de novas nações africanas.
Paralelamente, o nacionalismo africano teve um papel determinante na fragilização do regime português e contribuiu para a tomada de consciência das Forças Armadas sobre a necessidade de, perante a ausência de uma solução política, serem elas a tomar a iniciativa de derrubar o regime em Portugal.

Por razões patrióticas: evitar o esgotamento dos recursos materiais e humanos, restituir a liberdade ao povo português e abrir de novo Portugal ao Mundo, na rota da nossa melhor tradição cultural e histórica. Os centuriões voltaram-se contra Roma. E a queda do regime teve um duplo sentido libertador.

Mas uma revolução não se faz só com armas. Ou por outra: também se faz com a arma da palavra, a arma da escrita. Parece hoje consensual que os poemas sobre a guerra e contra a guerra, lidos, cantados e recitados viriam a ter consequências que não seriam apenas poéticas. Como escreveu ainda Paula Morão: “À distância de meio século, é mais que tempo de ponderar o que a guerra, o exílio e a paz fizeram a uma geração envolvida em combates de tipologia diversa dos anos da Guerra Colonial.”

Citando diversos poetas, como Fiama Hasse Pais Brandão, Sophia de Mello Breyner, Gastão Cruz, eu próprio e Fernando Assis Pacheco, termina com dois versos deste último:

"Dizem que a Guerra passa: esta minha
passou-me para os ossos e não sai"

Esta guerra que não sai dos ossos está presente num dos últimos romances de António Lobo Antunes: Até que as Pedras se Tornem Mais Leves que a Água. Talvez o seu romance em que a guerra é tratada com mais intensidade. Com a singularidade de a narrativa ocorrer quase meio século depois, não em Angola, mas em Lisboa. A personagem principal traz a guerra para casa, dorme com ela, acorda com ela, anda com ela pela rua. E está sempre a voltar ao local do seu remorso: a aldeia massacrada, em Angola, onde ele próprio matou os pais do miúdo, que depois trouxe comigo e acabaria por adoptar.

Tanto os versos de Fernando Assis Pacheco como este romance de António Lobo Antunes trazem-me à memória a frase do grande poeta francês René Char, herói da resistência ao nazismo: “Há guerras que não acabam nunca.”

Os que estiveram na guerra sabem que é assim: a guerra acaba e não acaba. E por isso é que, além de todos os livros que sobre a Guerra Colonial foram ou serão publicados, eu creio que há um outro, o tal Livro do Silêncio, que por certo nunca será escrito.

Lisboa, 20 de Novembro de 2019