Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre na Academia das Ciências
"O Mar e a Língua"
10-07-2018

Manuel Alegre abriu a segunda parte do Colóquio "Unidade e Diversidade da Língua Portuguesa", no dia 10 de julho, por iniciativa da Academia das Ciências, de que o escritor é sócio efectivo, eleito em novembro de 2016.

Há só Mar no Meu País, escreveu o poeta Afonso Duarte. Talvez sem querer, estava a enunciar a génese de uma História e de uma língua. O mesmo seria dito pelo grande geógrafo Orlando Ribeiro: Na posição do território está contido um destino.

Entalado entre a Espanha e o Atlântico, o destino do povo Português foi o de procurar uma saída para outras terras, outros horizontes. Novas Fronteiras, como diria mais tarde o presidente Kennedy.

A Europa jaz posta nos cotovelos
De Oriente a Ocidente jaz fitando …
… o rosto com que fita é Portugal, diria, por sua vez, Fernando Pessoa.

E o que fita esse rosto? Fita o nunca visto, o que está para lá de si mesmo e da distância conhecida. Não havia outro destino senão o de partir, chegar onde nunca ninguém chegara, conhecer o que até então não se sabia. É certo que Salomão disse não haver coisa que não fosse já. Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.

Com as navegações, o destino do povo português foi o de ser pioneiro na abertura do Mundo antigo, centrado no Mediterrâneo, ao Mundo moderno, na primeira globalização da História. Os navegadores portugueses aproximaram povos e continentes, contactaram com outras culturas, ensinaram e aprenderam com elas. Foi um processo que trouxe ao Mundo um novo ver e um novo saber que pôs em causa o saber livresco e os dogmas autoritários. Uma revolução cultural e científica, baseada na experiência, madre das cousas, diria Duarte Pacheco Pereira.

Levávamos mercadorias, armas, gente. Mas também palavras. E a maior de todas as riquezas, a língua. Uma língua que transformava e deformava outras línguas e por elas foi, também, deformada e enriquecida. Levávamos palavras e trazíamos palavras novas. Como disse um poeta angolano a língua portuguesa é uma língua de viagem e mestiçagem. Rio de muitos rios. E muito mais tarde pátria de outras pátrias. Foi sempre ela mesma e outras. Una e diversa. Tanto mais rica quanto menos castiça e mais mestiça. Sem esquecer o português de múltiplas tiranias e de várias resistências. O português da opressão colonial e o português da luta da libertação.

Estranha contradição e, ao mesmo tempo, soberbo privilégio de uma língua que, tendo sido a do sistema colonial, foi também a língua em que os povos começaram a procurar, a pensar e a dizer as suas identidades. Nos poemas, nas revistas, nos textos fundadores, mais tarde na luta da libertação e finalmente na proclamação da Independência. Amílcar Cabral dizia que o colonizado, ao libertar-se, liberta também o colonizador, embora o faça na língua deste. Língua de muitos confrontos. Mas também de paz. Angola independente já estava nos poemas e nos textos em que Agostinho Neto, Viriato da Cruz, Mário de Andrade e outros afirmaram a sua angolanidade e proclamaram: Vamos redescobrir Angola, vamos voltar às raízes, o que de certo modo lembra a palavra de ordem de Garrett: vamos a ser nós mesmos.

E o mesmo aconteceu em Moçambique com os poemas de José Craveirinha e Jorge Rebelo. E também em São Tomé e Príncipe com a poesia de Alda Espírito Santo. E na Guiné Bissau e Cabo Verde com a escrita dos seus poetas e os ensaios ideológicos e políticos de Amílcar Cabral.

E finalmente em Timor, onde as armas e a poesia andaram juntas.

E que Brasil mais brasileiro do que o que vem de Castro Alves a João Cabral de Melo Neto, passando por Manuel Bandeira, Jorge de Lima, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Morais, sem esquecer a prosa de Machado de Assis, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, entre outros.

Como já várias vezes disse, os povos fundaram a língua. E a língua fundou as Nações. Antes de ser Estado, Portugal foi língua, trova, cantar de amigo. Tal como antes de serem Estados independentes os países colonizados foram os poemas dos poetas seus fundadores escritos em língua portuguesa.

Uma língua de navegação, nau capitana, da maior aventura marítima da História. Língua que passa por esse momento único e irrepetível que é o da escrita de Os Lusíadas e de toda a lírica de Camões que, não por acaso, como sublinharam Agostinho de Campos e Hélder Macedo, foi o primeiro poeta europeu a contactar as culturas de outros povos e outros continentes.
Os episódios do Fogo de Santelmo e da Tromba de Água aprendeu-os ele no mar. Camões viajou e viveu o seu próprio poema ao mesmo tempo que o escrevia. Muito do seu saber é o saber de experiência sofrida, amada e trocada. E a sua extraordinária cultura é em grande parte fruto da sua vivência de outras culturas. Camões é, ele próprio, um Lusíada da viagem e da peregrinação da língua portuguesa. E foi nas suas Endechas a Bárbara que, pela primeira vez, um poeta europeu celebrou, em português, a pretidão de amor e a beleza dos cabelos pretos como crítica à vã opinião de que só os loiros são belos.

Ninguém melhor e maior do que ele, a sua vida e a sua escrita, para simbolizar a unidade e diversidade de uma língua que é inseparável do mar e da múltipla viagem afectiva e cultural dos encontros, desencontros e reencontros entre os povos que dela fizeram a sua fala.

Há anos, em Madrid, José Saramago disse que as línguas se cercam umas às outras. E que a língua portuguesa seria uma língua ameaçada. Não estou de acordo. Não só porque é a terceira língua da Europa Ocidental mais falada no Mundo, mas porque é uma língua de grande poesia e de grande literatura, em Portugal, no Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste. A língua em que o cabo-verdiano Germano Almeida acaba de ganhar o Prémio Camões. E em que o próprio José Saramago ganhou o Prémio Nobel.

Concordo com Steiner contra Chomsky: Cada língua é um acto de liberdade que permite a sobrevivência do homem. A multiplicidade e a complexidade das línguas é a única riqueza para os povos despojados de tudo o mais. Com cada língua que morre apaga-se a possibilidade ontológica de ser. Cada língua é algo que tem a ver com aquilo a que Blake chamou o “sagrado do particular”.

Por isso, entendo que a diversidade da língua não é só a sua principal riqueza. É, também, condição da sua própria liberdade.

Foi por isso que votei contra a Acordo Ortográfico e é por isso que continuo a escrever segundo a antiga ortografia. Ninguém pode impor espartilhos a uma grande língua cuja riqueza está na sua diversidade.