Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Prefácio aos "Sonetos" de Camões, editados pelo Expresso
O livro mais actual da poesia portuguesa
04-11-2017 Manuel Alegre, jornal Expresso

Quando perguntaram a Eugénio de Andrade qual o mais fascinante livro da poesia portuguesa, ele respondeu que seria o dos Sonetos de Camões escolhidos por ele. Mas isso é assim desde a 1ª edição de 1595, e das que se seguiram em 1598 e em 1616, apesar dos erros, das lacunas e dos apócrifos. Poucos hoje se lembram de Estevão Lopes, Fernão Soropita e Domingos Fernandes, mas é a eles que se deve a salvação dos sonetos, já que Camões não deixou nenhum autógrafo, talvez porque tenha vivido como um marginal e porque morreu quase como um sem-abrigo.

Livro não só fascinante, mas fundador de uma nova linguagem poética e da consolidação da língua portuguesa tal como hoje a falamos e escrevemos, como gostava de dizer Mário Cesariny. Talvez isso explique a rapidez (para o tempo extraordinária) com que a 1ª edição esgotou. Vivia-se já sob a ocupação espanhola e ler as Rimas de Camões seria uma forma de reencontrar a identidade usurpada.

Não vou demorar-me sobre a controversa questão do cânone e dos apócrifos. A partir de certa altura, como notou o ilustríssimo camonista Victor Aguiar e Silva, verificou-se uma espécie de diástole; dos 66 sonetos iniciais chegou-se aos quase 400 das edições de Juromenha e Teófilo Braga. Seguiu-se, no dizer do mesmo autor, a sístole, um inevitável processo de depuração em que viriam a ter papel decisivo Jorge de Sena e o próprio Victor Aguiar e Silva. Sem esquecer os brasileiros Emmanuel Pereira Filho e Leodegário Amarante de Azevedo Filho. Um ponto comum: o regresso às primeiras edições das Rimas, a busca de um canône mínimo e indiscutível.

Eugénio de Andrade escolheu 54 sonetos para o livro por ele organizado. Na sua interessante e pedagógica antologia, Agostinho de Campos optou por 56, com a originalidade de uma organização temática. E embora sublinhe a pobreza de certas rimas fáceis e finais formados com verbos em tempos pessoais, assinala a necessidade de regressar à poética de Camões e à construção prosódica do verso. E aqui reside a diferença de Camões. Sem violar as apertadas regras do soneto, ele leva o canto muito para além delas. Há no dizer de Camões um dizer outro, único, inconfundível, uma riqueza vocálica, uma maleabilidade e sonoridade da língua em que vogais e consoantes cantam como nunca antes tinha acontecido. Ouve-se “Erros meus” na voz de Amália e dir-se-ia que acabou de ser escrito para ser cantado por ela. Os sonetos são, num certo sentido, o livro mais actual da poesia portuguesa. E uma “festa da língua”, como disse Eugénio. Isso é o que importa, assim como o que eles, através dos tempos, têm significado para sucessivas gerações. Sabiam-se de cor. Quem se propunha ser poeta começava por imitá-los. Namorava-se com eles, copiados à mão e sub-repticiamente metidos num envelope. Sofria-se com eles ou a eles se recorria no amor, na mágoa, na despedida. Quantas “claras e tristes madrugadas” viveram os que, na minha geração, tiveram de partir para a guerra e para o exílio. Para já não falar nas “prisões baixas”. Houve poetas que chegaram a andar ao ritmo dos decassílabos, como eu próprio, confesso.

Camões escreveu sobre o que outros já tinham escrito. Mas como nunca ninguém o tinha feito e nunca mais ninguém o fará. Influências de Petrarca? Com certeza. Mas Camões foi sempre ele próprio. Os seus sonetos são dele e de mais ninguém. Quem seria capaz de em 14 versos contar a história de Jacob, Raquel e Lia rematada com aquele soberbo: para tão longo amor tão curta a vida. Ou de num só verso – Erros meus, má fortuna, amor ardente – condensar a biografia talvez impossível de escrever sobre um poeta para quem bastava amor somente. Como nenhum outro, cantou o amor do amor: está no pensamento como ideia; / e o vivo e puro amor de que sou feito / como a matéria simples busca a forma.

E também aquele amor que é um não sei quê, que nasce não sei onde / vem não sei como e dói não sei porquê.

Quem já se apaixonou sabe que é assim e que não há outro modo de o dizer.

A poesia não se faz com sentimentos, disse Rilke. Poesia é linguagem. Em Camões há aquela natureza cósmica do verbo que faz a grande poesia. Segundo Jorge de Sena, Camões “reduz sempre as emoções a conceitos, conceitos que não são ideias, mas a vivência intelectual delas.”

Não se perca tempo a discutir as eventuais destinatárias dos sonetos de amor, nem as infantas e princesas das várias mitologias oficiais. Alguns dos mais belos versos da língua portuguesa terão nascido das práticas eróticas com a Francisca Gomes, a Tarifa, ou a Antónia Braz de que o poeta fala numa das suas cartas. Essas foram as rainhas pelos seus versos coroadas. Sem esquecer a que só existia no seu muito imaginar, aquela que nunca teve e foi talvez a que mais cantou.

A grandeza dos sonetos não está no Camões-personagem. Está, parafraseando Fernando Guimarães, no “Camões linguagem”. A incomparável linguagem poética de um poeta que ombreia com os maiores de qualquer grande literatura.

Manuel Alegre

13 de Setembro de 2017

Prefácio à edição de Sonetos de Camões, colecção Clássicos de Sempre, jornal Expresso, 11 out 2017