Manuel Alegre e o Brasil: "Em momentos de escolhas decisivas não se pode deixar de tomar partido."
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Lição magistral de Manuel Alegre
"Portugal existe porque, antes de ser Estado, já era língua e poesia"
22-11-2017
Doutoramento Honoris Causa na Universidade de Pádua

"Portugal existe porque, antes de ser Estado, já era língua e poesia. As nações todas são mistérios, escreveu Fernando Pessoa. Esse é talvez o mistério da longevidade de Portugal e da projecção multinacional da língua portuguesa. Nesta língua vos falo, com humildade e embaraço, perante a grandeza da História da Universidade de Pádua, a primeira que ousou afirmar e praticar o livre pensamento, a consciência crítica e o saber experimental, princípios fundadores do humanismo europeu."

Veja a versão em italiano AQUI

Magnífico Reitor

Peço desculpa por não falar na língua de Dante, a que o poeta inglês T.S.Eliot chamou “a língua universal da poesia”. Falo na língua em que Santo António estudou Eloquência, no Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra; falo na língua de Damião de Goes, um dos maiores humanistas europeus, que frequentou esta ilustre Universidade entre 1534 – 1538, depois de ter partilhado com Erasmo, em Basileia, as ideias de liberdade de pensamento e dignidade da pessoa humana, a que se manteve sempre fiel. Regressado a Portugal, seria duas vezes preso pela Inquisição, tendo sido assassinado em condições misteriosas e suspeitas. Com emoção evoco estes dois grandes portugueses de dimensão europeia e universal e cujas vidas estão ligadas à cidade de Pádua.

Antes de ser Estado, Portugal foi trova, cantar de amigo, Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, o dolce stil nuovo trazido de Itália por Sá de Miranda, os Autos de Gil Vicente e, sobretudo, Luís de Camões, a Lírica e Os Lusíadas, esse poema que é um acto de soberania espiritual, em que o poeta exalta “a lusitana antiga liberdade”. Fundador de uma identidade cultural que sobreviveu a sessenta anos de ocupação castelhana, Camões consolidou a língua portuguesa tal como hoje a falamos e escrevemos. A língua em que o Brasil proclamou a sua independência e que Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e Timor Leste adoptaram como língua oficial dos seus países libertos e soberanos. Portugal existe porque, antes de ser Estado, já era língua e poesia. As nações todas são mistérios, escreveu Fernando Pessoa. Esse é talvez o mistério da longevidade de Portugal e da projecção multinacional da língua portuguesa. Nesta língua vos falo, com humildade e embaraço, perante a grandeza da História da Universidade de Pádua, a primeira que ousou afirmar e praticar o livre pensamento, a consciência crítica e o saber experimental, princípios fundadores do humanismo europeu.

Lembro, com respeito, o Reitor Concetto Marchesi que, em 1943, teve a coragem de lançar um apelo aos estudantes contra “a ofensa do fascismo e a ameaça germânica”.

LIBERTAS é a divisa desta antiquíssima e nobre Universidade. A outra escala, foi sempre a minha divisa. Por isso, ainda que pequeno perante tão grande História, confesso que de certo modo me sinto em casa. Pergunto-me, nesta hora, se sou merecedor da distinção que me é conferida. Não sei responder. Posso apenas dizer que fui sempre fiel à liberdade. Lutei por ela, vivi e sofri por ela, por ela escrevi cada verso, cada palavra. Pela liberdade do meu país e pelo direito dos povos colonizados à autodeterminação e à independência. Se é esse o sentido de tão alta distinção, então sim, sem hipocrisia, confesso que me sinto digno da divisa da Universidade de Pádua.

Escrevi alguns livros, nomeadamente os dois primeiros, Praça da Canção e O Canto e as Armas, que tiveram consequências políticas e culturais. Proibidos pela censura e apreendidos pela polícia politica, circularam em cópias manuscritas e dactilografadas, foram declamados em sessões culturais e cívicas, musicados e cantados pelos mais célebres cantores desse tempo. Independentemente de mim, tornaram se dois livros míticos e emblemáticos. Traziam um recado de liberdade e diziam coisas aparentemente inocentes, afirmavam que tinha havido um tempo de partir e era chegado o tempo de voltar, o que, na altura, significava a condenação da guerra colonial e a urgência de libertar o país. Era algo que estava dentro das pessoas, mas só a poesia tinha talvez o condão de revelar. Esses livros traziam também uma visão poética da História e subvertiam os mitos com que o regime salazarista pretendia legitimar-se. Numa interessante tese de doutoramento apresentada na Universidade Católica do Rio de Janeiro, o Professor Mário César Lugarinho caracteriza a minha poesia como “uma ortografia da História.” Não que tivesse a pretensão de, como Petrarca, “revolucionar a interpretação da História”. Procurei dar voz poética, isso sim, à vontade de mudar a nossa própria história nessa hora em que era preciso fazer ao contrário a viagem do caminho marítimo para a Índia e descobrir Portugal em Portugal. Epopeia do avesso. Ou “nostalgia da epopeia”, como escreveu Eduardo Lourenço.

Segundo Nadejda Mandelstam, viúva do grande poeta russo, “em certas épocas, só a palavra poética, pela sua natureza cósmica, é capaz de apreender a realidade.” Por seu lado, para Rainer Maria Rilke “os versos não são feitos com sentimentos” e “…para escrever um só verso é preciso ter visto muitas cidades, muitos homens e muitas coisas. É preciso lembrar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados e despedidas há muito previstas.” Tudo isso é vida e de tudo se faz o poema.

Escrever, para mim, foi sempre um estado de graça. Mesmo nas situações mais trágicas, a guerra, a prisão, o exílio, as muitas despedidas, e o irremediável de muitas mortes. Não tive a possibilidade e também a rejeitaria, de ser um daqueles poetas que, segundo o brasileiro João Cabral de Melo Neto, se pretendem “intemporais e inespaciais”. Ninguém está fora do espaço e do tempo. Ninguém está fora da história. A escrita e a vida são inseparáveis.

A liberdade, afirmou o mexicano Octávio Paz, “não é uma filosofia e nem sequer uma ideia, é um movimento de consciência que nos leva em certos momentos, a pronunciar dois monossílabos: Sim e Não.” A minha circunstância levou-me a dizer não, e a dizê-lo em verso, segundo um certo ritmo, uma certa toada, uma certa correspondência de sons e imagens. Não por qualquer intenção programática, mas por um impulso, uma energia, uma irresistível confiança na força da palavra poética. Apesar da idade e dos desenganos, mantenho, hoje como sempre, a mesma confiança na força libertadora da palavra. Concordo com Octávio Paz: “A actividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método da libertação interior.” Creio que o ritmo da escrita é inseparável do ritmo da terra e das marés. Está antes da palavra e a a palavra cantada ou dançada está antes da palavra escrita. Como o poeta português Teixeira de Pascoaes, eu creio que “a poesia nasceu da dança e que o ritmo é a substância das coisas.” Como ele estou convencido que “a palavra liberta e cria: é a própria terra do Outro Mundo.” Em cada poeta está toda a história da poesia e de certo modo de todas as línguas, a começar pela epopeia de Gilgamesh, a primeira interrogação que o homem gravou na pedra sobre o sentido ou o sem sentido de um destino que continua a não ser revelado. Todos somos herdeiros desse poeta desconhecido. Herdeiros de Dante e da busca circular do número cem. Herdeiros de Homero e da Odisseia, metáfora da errância do homem em busca de uma Ítaca perdida que só existe dentro de si mesmo. Sem Vergílio e Petrarca Camões não teria escrito como escreveu. Segundo o poeta Vasco da Graça Moura, tradutor de Dante e Petrarca, “na poesia europeia, Camões foi dos que compreenderam mais a fundo a dimensão da lírica petrarquiana.”

Podemos talvez perguntar-nos que sentido tem a literatura neste tempo dominado pela ganância e pelo império do dinheiro. A economia única traz a lógica do pensamento único, da cultura única, da língua única. Como disse George Steiner: “Cada língua é um acto de liberdade que permite a sobrevivência do homem. Cada língua é algo que tem a ver com aquilo a que Blake chamou 'o sagrado do particular'”.

Há já uns anos, José Saramago disse em Madrid que as línguas se cercam umas às outras. E que o português, tal como o italiano e o francês, seriam línguas ameaçadas. Não estou de acordo. No que respeita ao português, não só porque é a terceira língua da Europa Ocidental mais falada no Mundo. Mas também porque é uma língua de grande literatura, a língua de Camões e de Fernando Pessoa, dos brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado, dos angolanos Luandino Vieira e Pepetela, dos moçambicanos José Craveirinha e Mia Couto, além de ser a língua em que o próprio Saramago ganhou o Prémio Nobel. E também a língua em que António Lobo Antunes fez uma das maiores revoluções no romance contemporâneo.

Língua de diferentes identidades e diferentes culturas. Essa é a riqueza de brasileiros, africanos, portugueses. Somos diferentes na mesma língua. Uma língua em que as vogais não têm todas a mesma cor. E em que as consoantes, como se sabe, em Portugal assobiam, na Africa cantam e no Brasil dançam. Uma língua onde há a mesma música de fundo: o mar. O mar dos nossos encontros, desencontros e reencontros. Viagem de nós para nós, viagem de nós para o Mundo. Permitam-me que lembre, neste momento, aqueles que me leram versos de Camões e de outros poetas quando eu próprio não sabia ler nem escrever. Nem sempre compreendia o sentido, mas foi desse modo que descobri a música da língua e a toada que para sempre ficou dentro de mim. Permitam-me que partilhe esta distinção com os professores da escola primária que me ensinaram a escrever o português. Permitam-me que sublinhe a importância que para mim tiveram poetas desconhecidos, como os cegos que, na rua onde nasci, em Águeda, cantavam versos de amor e de tragédia, ora inspirados em factos reais ora decalcados dos rimances do Cancioneiro Português. Sou o que sou graças à família, ao povo, e aos poetas com quem aprendi os mistérios e os segredos da poesia até conseguir, a muito custo e depois de muitos cadernos rasgados, um verso meu e uma voz que suponho ser minha.

Esta é uma hora difícil para a Europa e para cada um dos nossos países. Falta grandeza, faltam estadistas, falta uma outra visão da Europa e do Mundo, faltam os largos horizontes da grande literatura. É preciso subverter o discurso cinzento e tecnocrático e recuperar a força primordial da palavra. As perguntas e as respostas não estão nos manuais de economia. Talvez se encontrem em Cervantes, no idealismo de D. Quixote e na sabedoria de Sancho Pança. Talvez seja preciso voltar à Grécia e a Roma, dialogar de novo com Platão, reaprender em Sófocles a tão actual lição de Antígona e redescobrir com Séneca que “cada dia é, por si só, uma vida.” Reler as cartas de Cícero, descobertas por Petrarca e aquela prosa que, mais do que qualquer outra, terá influenciado a história da literatura europeia. Regressar a Elsenor para fazer com Hamlet a decisiva pergunta sobre o ser e não ser. Ou tentar perceber, com Dino Buzatti e o seu fabuloso romance O Deserto dos Tártaros, uma crise que é, sobretudo, uma crise de civilização. Ou talvez decifrar o segredo dos labirintos no “Jardim dos caminhos que se bifurcam” de Jorge Luís Borges. A poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner, minha querida amiga, escreveu três versos em que que diz quase tudo sobre a arte da poesia, que é a arte de perguntar e nomear: “Ia e vinha/ E a cada coisa perguntava/ Que nome tinha.”

Eu leio e releio muitas vezes o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade. Olhando o Mundo actual, apetece dizer com ele: “Tinha uma pedra no meio do caminho/ No meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho”. Que podemos nós fazer em tempo de indigência, como perguntava Hölderlin? O que podemos fazer é o que fazia o xaman das sociedades primitivas: repetir ritmicamente palavras mágicas, esconjurar a crise, reabilitar a poesia e a vida, tirar a pedra do meio do caminho.

A minha idade vai avançada. Tenho por vezes a sensação de ter vivido várias vidas numa só vida e de ter sido várias pessoas na mesma pessoa. Conheci os momentos extremos: guerra, prisão política, exílio. Mas também tive o privilégio de alegrias incomparáveis, como a vitória da revolução dos cravos e a reconquista da liberdade. Costumo dizer que a minha vida foi intensa, densa e tensa. Talvez por isso os meus romances tenham um cunho autobiográfico. Não posso dizer que tenha sido injustiçado. Recebi os principais prémios literários da língua portuguesa. A República concedeu-me as mais altas condecorações. Mas de todos os prémios o mais importante foi o reconhecimento e carinho dos meus leitores.

Uma palavra especial para o empenho com que a Professora Sandra Bagno se tem dedicado, nesta Universidade, ao ensino de língua portuguesa e à Cátedra a que generosamente atribuíram o meu nome. Um agradecimento a todos os professores e estudiosos, alguns aqui presentes, que têm contribuído para a divulgação da minha obra e da de outros autores de língua portuguesa. O meu sentido reconhecimento ao Embaixador de Portugal, Doutor Francisco Ribeiro Telles, e ao Presidente do Instituto Camões, Embaixador Luís Faro Ramos, cuja presença confere a este acto um significado que me honra e reconforta.

Fui e sou, acima de tudo, um escritor e poeta cidadão. Este é para mim um momento único. Nenhuma honra se compara ao Doutoramento Honoris Causa em Línguas e Literaturas Europeias e Americanas que hoje me é concedido. Humildemente e com grande emoção agradeço ao Magnífico Reitor o privilégio de ver o meu nome figurar ao lado dos ilustres personagens que receberam esta distinção da Universidade de Pádua fundada em 1222 com a mais bela das divisas: LIBERTAS, Liberdade.

Manuel Alegre

Pádua 22 de Novembro de 2017