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Manuel Alegre
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A japoneira no cemitério de Nogueira da Regedoura
A japoneira no cemitério de Nogueira da Regedoura
Romance de uma árvore à beira do caminho
23-03-2017

Perto de Espinho havia uma árvore
havia uma árvore à beira do caminho.
E havia um buraco naquela árvore
perto de Espinho.

(E o povo sabia que havia um buraco
naquela árvore à beira do caminho.)

Mas quando vieram os embuçados
à procura de um médico em terras de Espinho
ninguém disse nada sobre o homem escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Esta é uma história que todos sabem
em terras de Espinho.
Esta é a história de uma árvore
à beira do caminho.

Era noite cerrada noite negra
era noite de morte no caminho.
E de repente chegaram os embuçados:
procuravam um médico em terras de Espinho.

Era noite sem lua noite de emboscada
noite de um homem não andar sozinho.
As bocas fecharam-se ninguém contou nada.
Era noite de embuçados no caminho.

Disseram ao povo que havia um ferido.
Mostraram as mãos: seria sangue? Seria vinho?
E ninguém foi chamar o médico escondido
naquela árvore à beira do caminho.

Era noite sem lua noite de sangue
era noite de esperas no caminho
embuçados chegaram. Embuçados partiram.
Procuravam um médico em terras de Espinho.

Já corre um mensageiro para aquela árvore
à beira do caminho.

Há embuçados. Falaram dum ferido.
Mas o sangue que vimos era vinho.

Já o médico sai do seu buraco
naquela árvore à beira do caminho.
(ai a noite sem lua
ai o sangue que tem a cor do vinho.)

Catorze balas o esperavam
catorze balas o mataram nessa noite em Espinho.
E nunca mais o médico se escondeu
naquela árvore à beira do caminho.

Mas todos os anos na mesma noite
em que o sangue correra nessa aldeia de Espinho
mãos invisíveis vinham florir
aquela árvore à beira do caminho.

De novo vieram os embuçados
de novo mataram em terras de Espinho.
Quando se foram já não havia
aquela árvore à beira do caminho.

Mas no dia seguinte no mesmo sítio
onde o médico se escondia perto de Espinho
as mãos dos pobres vinham plantar
outra árvore à beira do caminho.

Manuel Alegre
in "O CANTO E AS ARMAS" - edição de 2017, comemorativa dos 50 anos do livro, revista pelo autor

Poema sobre a história de António Ferreira Soares, o "médico dos pobres" assassinado à queima roupa pela polícia política de Salazar em 1942. Veja mais AQUI