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Manuel Alegre sobre Zeca Afonso, 30 anos após a sua morte
Um provençal moderno
23-02-2017 Manuel Alegre, Expresso Diário

Passaram trinta anos, para mim parece que foi ontem, mas há pelo menos duas gerações que nunca o viram nem ouviram cantar ao vivo. Não sabem dos seus tiques, das suas distracções, do seu inconfundível modo de cantar, uma das mãos a tapar o ouvido, a outra a segurar o microfone, ou então a dedilhar a viola e a cantar para aqueles que se juntavam para o ouvir.
Porquê a sedução e a magia de José Afonso? Talvez porque nele se tenham reunido a música e uma forma de despojamento parecida com uma santidade laica.

Tem-se falado do encanto da sua voz e da sua contribuição, como compositor, para a renovação da música ligeira portuguesa. Mas tem-se falado menos da sua poesia. Ora, em José Afonso, poesia e música são inseparáveis. Como o eram na Provença, cuja lição Ezra Pound tão bem captou. A poesia do Zeca é funcional, é uma poesia feita para ser cantada e para servir de suporte à canção. Está subordinada à música, a sua razão de ser é servir a melodia. Mas depois, se formos a ver, ela dá outro sentido e outra dimensão à própria música. Do mesmo modo que, sem ser cantada, fica empobrecida, às vezes quase sem sentido. É estranho isto, mas é fundamental para entender a obra de José Afonso: a poesia e a música nela nascem juntas. E há nesse processo uma alquimia que transforma uma e outra. Talvez esteja aí a explicação do milagre que é José Afonso.

Repare-se: ele fala do lacrau e do licranço, das bruxas, do cavaleiro à porta da hospedaria. É um imaginário que vem das canções de gesta e dos rimances de cavalaria. Mas também dos contos que se ouviam, em criança, junto à lareira, em noites de invernia. E depois aparece o Pastor de Bensafrim, que vem de Bernardim e suas éclogas. E mais tarde os vampiros e os eunucos, os caídos e os tiranos, os filhos da madrugada, a rola branca, rola fria, repetições, paralelismos, trovas, endechas, cantares de amigo. As suas letras são por vezes destruidoras da lógica e da gramática. Mas é por essa operação alquímica que elas chegam à poesia e ao canto. E põem em causa a ordem estabelecida. É aí que está o segredo, a magia, a sedução. E também a subversão.

Eu não sei como cantaria Arnaut Daniel, o provençal a quem Dante chamou “il miglior fabbro”. Mas talvez nele houvesse essa alquimia, esse casamento irresistível da poesia e da música.
Acresce que Zeca tinha algo de Cavaleiro de uma nova Távola, defensor dos fracos e oprimidos, em demanda de um novo graal: a liberdade entendida como realização da justiça e da fraternidade. De certo modo, ele era, também, um franciscano.

A sua balada é nova e ao mesmo tempo muito antiga. E tudo está nela: a tradição trovadoresca, os rimances, os ritmos de África. E também o sul e o azul, aquele azul de que fala Mallarmé e que era, de certo modo, a cor da sua voz. Porque ele era como a cigarra e precisava do espaço do Verão: Alentejo, Algarve, as planícies, as areias, o mar, um cheiro a África. E também da sombra de uma azinheira.

Foi um homem despojado, por vezes até ao exagero. Talvez as sociedades não consigam suportar a força de um tal despojamento. Por isso o Zeca foi tantas vezes censurado. Mas é certamente por isso que ele continua a incomodar. Eu sei que gostariam de integrá-lo ou transformá-lo num alibi. Mas não é possível. A sua voz está tão cheia de ternura que será sempre irremediavelmente subversiva. Quanto a um tema preferido, escolho a Balada de Outono, porque foi com ela que tudo começou. É a primeira composição em que ele se separa do fado tradicional. Com essa balada nasceu um novo Zeca Afonso.