"Um país tão antigo como o nosso não precisa de ser reinventado"
Manuel Alegre
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Manuel Alegre na Sociedade Portuguesa de Autores:
“Impor uma ortografia única pode dar origem a uma grande desordem ortográfica”
20-05-2016 Manuel Alegre

Diz-se que os prémios não se agradecem. Mas eu estou grato. Grato ao PR por vir aqui entregar-mo no Dia do Autor, o que é um incentivo para todos os autores e um conforto e um estímulo para mim.Grato à Direcção da SPA e ao seu Presidente José Jorge Letria que merece o nosso reconhecimento, não só pelo trabalho realizado, mas também como cidadão, autor e poeta. Creio que no Dia do Autor, é da mais elementar justiça evocar Almeida Garrett, o grande escritor e cidadão, que foi o primeiro a defender os autores nacionais e a apresentar um projecto lei sobre propriedade artística e literária. Lembremos Garrett, aquele que também dizia: “ Temos de voltar à raiz, temos de ser nós mesmos”.

Palavras terrivelmente actuais, neste tempo em que impera o bezerro de oiro e há poderes não legitimados que condicionam as decisões democráticas nacionais e restringem a “lusitana antiga liberdade”.

Por isso, também, é tão relevante a presença do Senhor Presidente da República. Ela significa o reconhecimento do papel desempenhado pela SPA na defesa de direitos cada vez mais ameaçados num mundo cada vez mais complexo e é um tributo à nova dinâmica que José Jorge Letria e a sua Direcção imprimiram à SPA no plano nacional e internacional. Mas acima de tudo, a presença do Presidente confirma que temos à frente da República um homem de cultura, consciente de que um país não é só números e que sem desenvolvimento cultural não haverá nunca um desenvolvimento económico que faça de Portugal um país competitivo.

Portugal não foi grande pelas especiarias da Índia nem pelo oiro do Brasil. Foi grande pela consciência experimental que esteve na origem das navegações que constituíram, em si mesmas, uma revolução cultural e cientifica que mudou a Europa e o mundo. Grande pelos Lusíadas, que imortalizaram essa extraordinária aventura humana. Grande pelo seu povo, pelos seus autores e pelos seus artistas. E é isso que a presença do Presidente, de certo modo, aqui vem lembrar.

O espírito de Garrett continua vivo na obra da SPA mas também na sua acção em defesa da língua portuguesa, a que o escritor Marcelo Rebelo de Sousa é particularmente sensível. O português é a 3ª língua da Europa Ocidental mais falada no mundo. A língua de Camões e Pessoa, mas também de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, de Luandino Vieira e Pepetela, de José Craveirinha e Mia Couto. A língua em que Saramago ganhou o Prémio Nobel de Literatura.

Segundo George Steiner: ”Cada língua é um acto de liberdade que permite a sobrevivência do homem. Com cada língua que morre apaga-se a possibilidade ontológica do ser. Cada língua é algo que tem a ver com aquilo a que Blake chamou ‘o sagrado do particular’”.

A globalização não tem apenas uma lógica de economia única, tem também uma lógica de cultura e língua única, ou pelo menos dominante. Nessa perspectiva, a defesa e divulgação da nossa língua é uma prioridade nacional. Mas não se conseguirá com a imposição de uma ortografia única susceptível de dar origem a uma grande desordem ortográfica. Não se trata de nacionalismo nem de casticismo. A língua não é só nossa. A língua portuguesa é una mas é diversa. Tanto mais ela quanto mais diferente. Tanto mais rica quanto mais mestiça. É nessa diversidade e nessa diferença que reside a grandeza e a força da língua portuguesa.

Sinto-me muito honrado com o prémio que me foi atribuído pela SPA. Quero partilhá-lo com todos os autores, em especial com aqueles que ajudaram a divulgar o que escrevi, lembrando, entre muitos outros, compositores como José Niza, António Portugal e Alain Oulman, interpretes como Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Cília Manuel Freire, Francisco Fanhais, Amália Rodrigues, João Braga e Carlos do Carmo; artistas plásticos como David De Almeida, José Rodrigues e Rogério Ribeiro. Com todos eles e muitos outros está parte da vida e obra que me trouxeram até aqui. Não para parar nem para me sentir consagrado. Mas para continuar e recomeçar em cada dia.

Intervenção de Manuel Alegre na Sociedade Portuguesa de Autores, por ocasião da entrega do Prémio de Consagração de Carreira atribuído pela SPA e entregue pelo Presidente da República em 20.5.2016