Manuel Alegre e o Brasil: "Em momentos de escolhas decisivas não se pode deixar de tomar partido."
Manuel Alegre
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"Sou de Lisboa há séculos"
02-05-2016

"Sou de Lisboa há séculos, desde o início da extraordinária aventura das navegações, em que, pelo mar fora, fomos Europa antes da Europa o ser" disse Manuel Alegre, ao agradecer a Fernando Medina a distinção de que foi alvo com a atribuição, por votação unânime da vereação, da medalha de honra da cidade de Lisboa. Alegre respondia assim ao presidente da Câmara de Lisboa, para quem o poeta "ganhou a honra de fazer parte da história de Lisboa e de Portugal." Manuel Alegre recordou momentos altos dessa história bem como da língua portuguesa, evocando, entre outros, os conjurados de 1640, para concluir: “Ao longo da nossa História tivemos de ser desobedientes para sermos quem somos. Talvez seja a altura de sermos desobedientes outra vez.”

Intervenção de Manuel Alegre

Sinto-me muito honrado com a distinção conferida pela Câmara Municipal de Lisboa. Agradeço ao Senhor Presidente Fernando Medina, a quem se deve a iniciativa, a todos os Senhores Vereadores que a aprovaram por unanimidade e saúdo todos os partidos políticos e movimentos de cidadãos por eles representados.

Eu nasci em Águeda, nasci uma segunda vez em Coimbra e agora, ao receber a Medalha de Honra da Cidade de Lisboa, tenho a sensação, apesar da minha idade, de estar a nascer uma terceira vez .

Completam-se hoje 42 anos sobre o dia em que regressei a Lisboa, depois de 10 anos de exílio, na companhia de Fernando Piteira Santos, grande resistente anti fascista, cuja memória evoco com saudade, assim com a de alguns daqueles que nos esperavam no aeroporto: Maria Lamas, Ramos da Costa, Sottomayor Cardia, Salgado Zenha, José Magalhães Godinho, Manuel Tito de Morais, Raul Rego. Recordo os poetas e autores que nos aguardavam cá fora, Manuel da Fonseca, Maria Teresa Horta, José Carlos Ary dos Santos, Adriano Correia de Oliveira, José Niza, tantos outros. Estela Piteira Santos, Mafalda, minha mulher e nosso filho Francisco, com 8 meses e passaporte clandestino, tinham regressado na véspera de comboio.

Pisar o chão de Lisboa no dia 2 de Maio de 1974 foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Cumpria-se um dos versos de “Praça da Canção”: “…nós voltaremos sempre em Maio.” Voltámos, graças aos militares de Abril, a quem agradeço na pessoa do Coronel Vasco Lourenço, Presidente da Associação 25 de Abril.

Permitam-me que partilhe esta Medalha de Honra com a minha família, com todos os companheiros de resistência, todas e todos os que sofreram prisões, torturas, exílio, todas e todos que ao longo de quase meio século nunca se renderam e mantiveram acesa a chama da Liberdade reconquistada a 25 de Abril. Esse mês que, por razões misteriosas, foi cantado muitos anos antes, nos poemas de Praça da Canção” que falavam do país de Abril e também de “Lisboa com um cravo em cada mão”.

Vivo em Lisboa há 42 anos. Mas na verdade eu estou em Lisboa desde as crónicas de Fernão Lopes, andei por aqui na Revolução de 1383, assisti nas páginas de Camões à partida das naus que foram à Índia, pela mão de Jorge de Sena, Urbano Tavares Rodrigues e António Borges Coelho, estive com António Prior do Crato na Batalha de Alcântara, que sendo uma batalha perdida é uma das mais extraordinárias porque foi travada pelo povo de Lisboa mal armado e por uns restos de cavalaria, contra o mais poderoso exército da Europa, comandado pelo Duque de Alba. Essa é uma batalha, em que mesmo derrotado, o povo de Lisboa mostrou que não aceita ser súbdito de nenhuma soberania imposta e vinda de fora. Mais tarde, como escrevi em um dos “Sonetos do Português Errante”, “…fui Pinto Ribeiro e Antão de Almada”, conjurado de 1640. Ao longo da nossa História tivemos de ser desobedientes para sermos quem somos. Talvez seja a altura de sermos desobedientes outra vez.

Passei a ser poeticamente de Lisboa desde o “Sentimento de um Ocidental” de Cesário Verde, até Fernando Pessoa de “Tabacaria”, “Ode Marítima” e “Lisboa cidade alegre e triste”
Sou de Lisboa há séculos, desde o início da extraordinária aventura das navegações, em que, pelo mar fora, fomos Europa antes da Europa o ser e em que pela 1ª vez os portugueses conseguiram, como disse Fernando Pessoa, que “A Terra fosse toda uma “ e “O Mar unisse já não separasse”.
Estou aqui, perdoem-me esta divagação um pouco estranha mas que os poetas meus amigos por certo compreendem, estou aqui há séculos, nesta capital de Império que, mesmo sem Império, continua a ser uma das grandes capitais do mundo.
Lisboa da Resistência, das grandes manifestações operárias e estudantis, da luta clandestina e da campanha de Humberto Delgado, até à chegada de Salgueiro Maia ao Largo do Carmo. Lisboa da Assembleia Constituinte, onde os deputados de todas as forças políticas, apesar das desavenças ideológicas, conseguiram concretizar o imperativo patriótico de elaborar e aprovar a Constituição da República, que continua a ser a garantia da Liberdade e dos Direitos Políticos e Sociais conquistados com o 25 de Abril.
Lisboa da poesia, do Café Martinho e Fernando Pessoa, do Café Gelo e Mário Cesariny, do Café Monumental e Carlos de Oliveira e Herberto Helder.
Lisboa onde, pela primeira vez, na Faculdade de Medicina, Adriano cantou a “Trova do Vento que Passa” trazida de Coimbra.
Lisboa de povo nas ruas, na festa e na alegria, mas também na dor e no luto, como nos funerais de Sá Carneiro e Álvaro Cunhal.
Lisboa de “Maria Lisboa” do grande poeta David Mourão Ferreira, cantada pela voz incomparável de Amália Rodrigues, que também me deu a honra de cantar poemas meus musicados por Alain Oulman.
Lisboa do poeta Ary dos Santos, “Lisboa Menina e Moça” na voz de Carlos do Carmo. Lisboa de todas e todos os fadistas e compositores, que ajudaram a fazer do Fado Património Imaterial da Humanidade.
Lisboa onde Sophia escreveu:
“Digo:
Lisboa
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse.”
Eu também vinha do Sul a 2 de Maio de 1974. Vinha da Argélia, que acolheu os exilados portugueses com uma solidariedade que não podemos esquecer.
42 anos depois, apetece-me dizer como Sophia:
“A cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse”.