Manuel Alegre e o Brasil: "Em momentos de escolhas decisivas não se pode deixar de tomar partido."
Manuel Alegre
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Manuel Alegre na entrega do Prémio Vida Literária da APE:
"Cada 25 de Abril é um regresso e um novo ponto de partida"
25-04-2016

"A revolução de Abril permitiu-me voltar a casa. Cada 25 de Abril é um regresso mas é também um novo ponto de partida. Não temos força na economia nem somos uma potência militar. Mas temos uma grande História, uma das línguas mais faladas no mundo e um povo que já dobrou muitos cabos. A minha inquietação é, sempre foi Portugal."

Intervenção integral de Manuel Alegre

Tenho a sensação de que o 25 de Abril está a passar por aqui. Passou pela intervenção do Senhor Presidente da República, passou pelo Prémio que me foi atribuído pelos meus pares, passou pelas palavras do Presidente da APE e também pelo significado do gesto de uma instituição bancária que patrocina um prémio literário.

É uma alegria estar aqui convosco, junto de tantos amigos, com a presença do Presidente da Assembleia da República, meu amigo Eduardo Ferro Rodrigues, do Primeiro Ministro, meu amigo António Costa, do Ministro da Cultura, também ele oficiante deste ofício – o que mostra que, em Portugal, quando um poeta sai da política entra logo outro - e sobretudo do Senhor Presidente da República, cultor da língua e dos livros, meu ilustre colega na Assembleia Constituinte, onde juntos votámos a Constituição que é a garantia dos direitos políticos, sociais e culturais, conquistados com o 25 de Abril. Estou confiante em que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa saberá dar à sua magistratura a dimensão cultural, ética, cívica e de proximidade de que os portugueses tanto precisam.

Bem haja, Sr. Presidente, por ter compreendido que o grande défice do nosso tempo é um défice de perspectiva, de esperança e de um pouco mais de sonho e de poesia. Bem hajam todos pela vossa presença e pela vossa amizade.

Pátria de soldados mas também de poetas
O Senhor Presidente da República disse há dias em Mafra que “…esta é uma pátria de soldados”. E disse bem. Mas esta é também uma pátria de poetas. E por vezes de poetas soldados. A única que tem como símbolo um poeta a quem devemos o nosso cartão de identidade como povo e como país. Os Lusíadas são um acto de soberania cultural que resistiu e resistirá sempre a qualquer tentativa de ocupação, tenha ela a forma que tiver. Como gostava de lembrar Mário Cesariny ficámos a dever a Luís de Camões o português que hoje falamos e escrevemos. “Língua da lusitana antiga liberdade”, é também a língua em que declararam a sua independência os países que a adotaram como língua oficial. Não foi por acaso que pouco antes de visitar Portugal, o Presidente Samora Machel fez questão de afirmar: “Camões também é nosso”. Tudo de certo modo passa pela língua e pelo poeta que lhe deu uma dimensão universal.

Permitam-me que lembre neste momento aqueles que pela primeira vez me leram versos de Camões e de outros poetas quando eu próprio ainda não sabia ler nem escrever. Nem sempre compreendia o sentido, mas foi desse modo que descobri a música da língua e uma toada que ficou dentro de mim. Permitam-me ainda que partilhe este prémio com os professores da Escola Primária de Águeda que me ensinaram a escrever o português tal como ele se escrevia antes do Acordo Ortográfico contra o qual votei na Assembleia da República. Permitam-me finalmente que sublinhe a importância que para mim tiveram poetas desconhecidos, quase todos cegos, que na minha rua, em Águeda, cantavam versos simples de amor e tragédia, ora inspirados em factos reais, ora decalcados dos rimances do cancioneiro português. Sou o que sou graças à família, ao povo, e aos poetas com que aprendi os mistérios e os segredos da poesia, até conseguir, a muito custo e depois de muitos cadernos rasgados, um verso meu e uma voz que suponho ser minha.

Agradeço comovidamente a todos aqueles que através de cópias manuscritas ou dactilografadas, ou pelo canto e pela declamação, tiveram a coragem de difundir os meus poemas, quando “Praça da Canção” e “O Canto e as Armas” foram proibidos pela censura e apreendidos pela PIDE. Eram poemas que falavam do país de Abril antes de Abril e de Maio antes de Maio. Não eram livros panfletários mas parece que traziam à poesia algo de novo.
Assim o disseram nessa altura, Eduardo Lourenço, Mário Sacramento, Óscar Lopes e Eduardo Prado Coelho, entre outros.

Regressei do exílio sem livros na gaveta. Abolida a censura continuei a escrever e a publicar: poesia, contos, romances, novelas, ensaios, crónicas, literatura infantil. Ganhei prémios, mas nem tudo foram rosas. O sectarismo e os preconceitos não desapareceram. Por isso não posso deixar de lembrar o admirável prefácio de Eduardo Lourenço aos “Trinta Anos de Poesia” e a notável introdução de Victor Aguiar e Silva ao meu livro “Senhora das Tempestades”. São textos que me libertaram de leituras redutoras e por vezes perversas.

Escrita e vida são para mim inseparáveis
Perguntam-me muitas vezes como consigo conciliar a escrita e a política. Yeats, o grande poeta irlandês Prémio Nobel de Literatura, dizia que se pode preparar um discurso político como quem prepara um poema. Eu costumo dizer que escrita e vida são inseparáveis. Se não tivesse vivido como vivi não teria escrito o que escrevi. Não só em verso mas também em prosa. Algumas das minhas vivências foram ficcionadas e transmudadas em romances, sobre a guerra colonial, a infância, o exílio, os próprios sonhos tão impossíveis de expressar, sem esquecer o cão que não queria ser cão “Cão como nós”, que já vai na 27ª edição.

Na circunstância histórica que foi a minha, jamais poderia ter sido um daqueles poetas ou escritores que João Cabral de Melo Neto acusa de quererem ser “inespaciais e intemporais”. Vivi, escrevi e cantei o meu tempo como soube e como pude, sempre com a insatisfação e o sentimento de que algo ficou por escrever, por fazer ou até por viver. Há quarenta e dois anos eu estava ainda no exílio.

A revolução de Abril permitiu-me voltar a casa. Cada 25 de Abril é um regresso mas é também um novo ponto de partida. Não temos força na economia nem somos uma potência militar. Mas temos uma grande História, uma das línguas mais faladas no mundo e um povo que já dobrou muitos cabos.

A minha inquietação é, sempre foi Portugal.
A minha inquietação é, sempre foi Portugal. Não por acaso, numa tese de doutoramento apresentada sobre mim na Universidade Católica do Rio de Janeiro pelo Professor Mário César Lugarinho e orientada por Nuno Júdice, o autor chama à minha escrita “uma ortografia da História.” E diz que para mim “a História precisa de ser recontada e constitui um terreno poético para a experimentação da palavra poética” e desse modo, “contra o eterno retorno do sebastianismo, abrir caminho à utopia, o tempo outro, o tempo da diferença.”

Peço desculpa por esta divagação. Mas eu tenho cada vez mais a sensação de já não sabermos quem fomos. A nossa participação na Europa não significa a diluição de Portugal, nem a sua transformação no que recentemente chamei um “Bairro Ocidental.” Teremos tanto mais força na Europa quanto mais soubermos projectar no Mundo a nossa vocação histórica. Não podemos esquecer a nossa dimensão euro-atlântica-asiática, ou como diria Natália Correia a nossa dimensão transportuguesa. É essa a nossa singularidade, a nossa primeira e permanente utopia.

Deixo aqui um apelo ao Presidente da República, ao Primeiro Ministro e aos deputados para que a disciplina da História volte a ser uma prioridade do ensino.

Parafraseando Sophia, o 25 de Abril foi a poesia na rua. Ao escolher este dia, o Presidente da República pretendeu por certo celebrar, no mesmo acto, a poesia e o 25 de Abril, que é como quem diz: a Liberdade.