Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre ao JN:
"A Direita está cada vez mais reaccionária e agressiva"
13-04-2016 Enrevista conduzida por Sérgio Almeida, JN

Manuel Alegre regressa à publicação com "Uma outra memória", livro em que recorda algumas das principais figuras com quem conviveu ao longo dos tempos. De Sophia de Mello Breyner a Melo Antunes, de Mário Soares a Álvaro Cunhal, as páginas de "Uma outra memória" trazem-nos a memória de um tempo que Manuel Alegre resgata com a preocupação de combater a crescente falta de memória que, diz, atravessa a sociedade. Preocupado com o estado a que a Europa chegou, acusa a Direita de querer promover "de maneira cruel" "uma nova luta de classes" e defende que é tempo de a Esquerda voltar a assumir o papel que abandonou nas últimas décadas.

Ao contrário do que é habitual lermos em memórias, não há nestas páginas azedume ou ajuste de contas. É sobretudo um livro de afetos?
Este não é um livro de memórias, mas tem memórias. Junta a minha histórias com outras histórias que se cruzaram comigo. Concordo que é um livro de afetos, porque recordo episódios ou histórias de figuras com quem me cruzei. É uma recolha de textos, com alguns inéditos.

Essa ausência de fel não é tanto uma opção sua como uma forma de estar na vida?
É a minha maneira de ser. Tenho irritações, como toda a gente. Sou uma pessoa rebelde em relação às injustiças, mas não guardo rancores. No livro, recordo pessoas com quem tive cumplicidade, mas também desencontros. Felizmente, as cumplicidades prevaleceram sempre sobre os desencontros.

A evocação que faz de figuras já desaparecidas, como o Melo Antunes, Almeida Santos ou Sottomayor Cardia, é também uma forma de mitigar as saudades?
É sobretudo uma forma de recuperar a memória, que cada vez mais estamos a perder. São pessoas que ajudaram a construir o país e a democracia.

Como se contraria essa perda de importância da memória?
É um fenómeno generalizado. Estende-se ao resto da Europa e até do Mundo. Assistimos a um retrocesso civilizacional provocado pela uniformização. Há uma descaracterização crescente dos próprios Estados que nos penaliza bastante. A riqueza da Europa está na sua diversidade. Temos muitos traços comuns, a mesma civilização, mas também muitas diferenças. A nossa identidade está a perder-se e é preciso recuperá-la.

Essas transformações tornaram-no pessimista?
Sou um resistente. Mas também recuso ser um otimista beato. A situação na Europa preocupa-me. Estou mais pessimista do que otimista. É preciso vermos que o pessimismo pode ser fecundo, levando à ação, enquanto o otimismo pode gerar conformismo e ilusão.

Chama aos amigos que foi conhecendo ao longo da vida camaradas dos sonhos. Sente-se um privilegiado por ter conhecido tanta gente diferente?
As circunstâncias históricas da minha vida permitiram-me ter sido companheiro de escrita de Sophia, do Torga ou do Herberto Helder, entre muitos outros. Foi também um privilégio ter travado combates com gente como o Cunhal ou Salgado Zenha.

Não há gerações comparáveis, certamente. Acha, no entanto, que o desaparecimento de grandes vultos da nossa cultura ou política deixou um vazio que não foi ainda preenchido?
Quando morre alguém como Sophia ou Herberto, é inevitável que fique sempre um vazio. Vivemos num tempo com poucas referências. Se olharmos para Espanha, França ou Inglaterra passa-se o mesmo. O papel dos intelectuais mudou muito. Sou do tempo em que eles ainda desempenhavam um papel muito relevante. Mas não faltam apenas intelectuais. Existe também um défice de estadistas. Não temos ninguém que se possa comparar a um Churchill, De Gaulle, Olof Palme. Uma das disciplinas mais importantes, logo a seguir ao Português, é a História. A juventude tem que saber a nossa História. Sem mistificação. Aprender quem somos, de onde viemos, para refletir o nosso futuro.

Por falar nas novas gerações: acha que ideologia política é cada vez mais algo pertencente ao passado?
É muito diferente. Participei há pouco num jantar promovido pelo presidente da República relacionado com o aniversário da Constituição e falámos nisso. Tudo o que fizemos na altura foi com paixão. Havia manifestações, contramanifestações e, no entanto, os deputados constituintes foram capazes de constitucionalizar as mudanças ocorridas. Tínhamos o sonho de construir um país novo.

Tanto destaca lendas como heróis anónimos. Para si, a grandeza não está relacionada com a notoriedade?
São pessoas que marcaram a minha vida, mas também o país. Uns com mais notoriedade, outros com menos. Essa hierarquia não me interessa.

Um dos episódios mais marcantes do livro é a descrição da sua relação com Mário Soares, Partilhá-la com os leitores era um imperativo de consciência?
Apesar de termos travado grandes batalhas, lado a lado e não só, o que retenho é que a nossa amizade suplantou tudo.