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Manuel Alegre
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Lúcio Lara (1929-2016)
04-03-2016 Manuel Alegre, Novo Jornal, Luanda

Não sei ao certo quando e onde conheci Lúcio Lara. Talvez nos tenhamos conhecido desde sempre, ou desde quando ele e alguns outros começaram a ser Angola antes, muito antes da Independência, e alguns outros e eu próprio a lutar pela liberdade do País de Abril muito antes de Abril acontecer. Encontrámo-nos na luta antifascista e anticolonialista. Homem de poucas falas e fortes convicções, como Agostinho Neto, ele costumava dizer que o Povo Português era o principal aliado do Povo Angolano na luta pela libertação. Havia nele uma integridade natural e uma coerência que quase tinham uma expressão física no seu corpo alto e magro e no seu rosto fechado, que escondia, sob aquela máscara aparentemente rígida, a timidez e a ternura da sua personalidade. Participou na construção do MPLA e em todos os combates decisivos pela fundação da República Popular de Angola. Sempre que o via eu via o MPLA na sua essência original. Foi o companheiro mais próximo do Presidente e meu saudoso amigo Agostinho Neto. Muitos viam nele o seu sucessor. Mas ele não quis. Era um homem despojado, que dedicou a sua vida à causa angolana e nada quis para si mesmo. Assim o lembro, de uma austeridade que quase intimidava. Guardo comigo o soluço que lhe ouvi a meio do seu discurso no funeral de Agostinho Neto. Era um soluço pelo seu Presidente, pelo seu Camarada, talvez por si próprio e por todos nós. Lúcio Lara, o duro, era um homem que tinha no seu coração de combatente todos os sonhos de uma geração.

Lisboa, 1 de março de 2016

Manuel Alegre