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Manuel Alegre no festival Correntes d'Escritas 2016:
"Fazer poesia é tirar uma pedra do meio do caminho"
24-02-2016
Póvoa do Varzim

Nos dicionários de língua portuguesa que tenho em casa não encontrei a palavra catarse. Indicaram-me a Infopédia. Aí vi cinco definições. A última, diz respeito à medicina, mas não me identifico com nenhuma das outras aplicadas à literatura, nem sequer com a de Aristóteles. Talvez me aproxime mais da que se refere às cerimónias de purificação que se realizavam na antiguidade.

Creio que a literatura nasceu quando as tribos começaram a reunir-se para caçar. O feiticeiro, através da repetição rítmica de palavras mágicas, procurava convocar as forças benfazejas e exorcizar as forças maléficas. Depois da jornada, caçadores e companhia juntavam-se para contar a caçada. Para contar e ficcionar. Nem os poetas andam longe desse feiticeiro antigo, nem os romancistas dos narradores que contavam e acrescentavam uns pontos a cada conto. A literatura nasceu da linguagem e da imaginação. Poetas e romancistas continuam, com palavras, a procurar mudar e reinventar a vida. E às vezes a adivinhar e antecipar, porque a escrita, como queria Rimbaud, também tem de ser uma vidência, uma certa dose de profecia. Ou ser preferem de bruxaria.

Mas, como escrevi há muitos anos, não sei falar de literatura. Não sei se sei falar de poesia. Sobretudo não sei se a poesia tem alguma coisa a ver com a literatura. Talvez esteja antes ou depois da literatura. Sei, como o poeta russo Mandelstam, que “escrever é um acontecimento cósmico”. E que “cada palavra é um pedaço do universo”. Ou como dizia Klebnikov: “Na natureza da palavra viva esconde-se a matéria luminosa do universo.”

É por isso que ao falar-se de literatura como catarse da existência, eu continuo a ver na escrita uma espécie de cerimónia mágica. De purificação, de libertação, de convocação ou de exorcismo. Mas sem nunca separar escrita e vida. Não sei aliás se é a escrita que purifica (para não dizer purga) a existência, ou se é a vida que se transmuda em palavras. Parece-me que assim o entendia Rainer Maria Rilke – “os versos não são feitos com sentimentos, mas com experiências vividas, escreveu ele em Os Cadernos de Malte Laurids Brigge. Creio que, tal como ele dizia, “para escrever um só verso é preciso ter visto muitas cidades, muitos homens e muitas coisas. É preciso lembrar caminhos em regiões desconhecidas, encontros inesperados e despedidas há muito previstas (…) ”. Tudo isso é a vida e de tudo se faz o poema. Ou o romance.

Escrever, para mim, foi sempre um estado de graça. Mesmo nas situações mais trágicas, a guerra, a prisão, o exílio, as muitas despedidas e o irremediável de muitas mortes. Não tive a possibilidade (e também a rejeitaria) de ser um daqueles poetas que, segundo João Cabral de Melo Neto, se pretendem “intemporais, inespaciais e fora da História”. A liberdade, afirmou Octávio Paz, “não é uma filosofia e nem sequer uma ideia, é um movimento de consciência que nos leva, em certos momentos, a pronunciar dois monossílabos: Sim e Não.”

A minha circunstância levou-me, em certo momento, a dizer não, e a dizê-lo em verso, segundo um certo ritmo, uma certa toada, uma certa correspondência de sons e imagens. E talvez nem tanto por um movimento de consciência, mas sobretudo por um impulso, uma energia, uma confiança na força da palavra poética e na sua capacidade para mudar a vida e o mundo. Havia um grande não para dizer. Um não histórico, poético, cultural. Um não assim pressupunha talvez alguma ingenuidade e uma grande convicção sobre o poder alquímico da palavra. Havia a ditadura e a guerra colonial. Havia a mistificação da História e a urgência de dar a volta aos mitos. Havia um ritmo. Um tom cantabile que vinha dos cantares de amigo, dos cancioneiros e de Camões. Era algo que estava no ar, que se ouvia sem se ouvir. Uma música da língua e do tempo, sob a forma do não e da poesia.

Creio que é esse o mistério da Praça da Canção. Mas sobre isso José Carlos de Vasconcelos sabe mais do que eu. Catarse? Só sei que apesar de apreendido o livro circulou através de cópias manuscritas ou dactilografadas, foi musicado, cantado e declamado. E fez cinquenta anos.

Penso, também, que em cada poeta está toda a história da poesia e, de certo modo, de todas as línguas, a começar pela Epopeia de Gilgamesh, a primeira grande interrogação que o homem escreveu na pedra sobre o sentido ou o sem sentido de um destino que continua a não ser revelado. Todos somos herdeiros desse poeta desconhecido. E também de Homero e da Odisseia, que é, por excelência, a metáfora da errância do homem em busca de uma Ítaca perdida que só existe dentro de si mesmo.

Podemos talvez perguntar-nos: que sentido tem hoje a poesia, neste tempo dominado pela ignorância, pela ganância, pela estupidez e pelo império do dinheiro? Poderá o poema continuar a rimar com a vida? Tenho-me recordado de um poema do poeta italiano Salvatore Quasímodo, Prémio Nobel de Literatura. Começava assim, cito de memória: “E come potevamo noi cantare /con il piede straniero sopra il cuore?” Era o tempo do nazi-fascismo e sentia-se um peso no coração. Apesar dele e contra ele se escrevia e se cantava. Agora voltamos a sentir esse peso, não o de uma ditadura política, nem o de uma ocupação militar, mas de algo que é mais difícil de definir e talvez mais difícil de combater, uma invasão das nossas vidas por forças misteriosas e invisíveis, a que chamam os mercados, que mandam nos nossos países, degradam a nossa cultura, o nosso modo de vida e a nossa civilização, para cortarem as reformas aos velhos e roubarem o futuro à juventude.

Hélia Correia perguntava recentemente, citando Hӧlderlin: “Para que servem os poetas em tempo de indigência?” Ela própria encontrou a resposta. Escreveu A Terceira Miséria, uma magnífica elegia.

É para isso que servem os poetas: para escrever poesia. Cada poema que se escreve é uma derrota da indigência, seja ela cultural, ética, política ou mesmo literária. Uma derrota da indigência e da regressão civilizacional que hoje estamos a viver.

Concordo com Octávio Paz – “A actividade poética é revolucionária por natureza: exercício espiritual, é um método de libertação interior”. Sem esquecer a oralidade, a sonoridade, as correspondências, o ritmo. Creio que o ritmo está antes da palavra e a palavra cantada ou dançada antes da palavra escrita. Como Teixeira de Pascoaes, eu creio que “a poesia nasceu da dança” e que “o ritmo é a substância das cousas.” E como ele estou também convencido que “a palavra liberta e cria: é a própria terra do Outro Mundo.”

Procurar o sentido, mesmo que não haja sentido nenhum, é um acto de resistência. Cantar o amor, formular as perguntas sem resposta, escrever sobre a transcendência, a presença ou a ausência de Deus são actos de resistência. Assim como voltar a Tróia, às sublimes e concretas palavras de Homero e à glória de Heitor, o único herói que tendo sido vencido é um vencedor eterno.

A palavra do homem está pervertida. Pela tecnocracia, pelos interesses, pelo império do dinheiro. E também pela subliteratura. Entra-se numa livraria e quase se desanima. A pequena ou grande revolução que a escrita pode fazer é subverter o discurso instituído e reabilitar a força mágica da palavra. A poesia, dizia Cioran, é linguagem. E só por ela se pode reconquistar a perdida beleza da palavra do homem. Talvez neste sentido a literatura seja uma catarse.

Como o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, nós podemos dizer: Tinha uma pedra no meio do caminho/No meio do caminho tinha uma pedra/Tinha uma pedra no meio do caminho.

O que é que estamos a fazer? Estamos a fazer o que fazia o feiticeiro primitivo, estamos a repetir ritmicamente palavras mágicas, estamos a fazer poesia e estamos a tirar uma pedra do meio do caminho.