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Manuel Alegre
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Recordando a tomada de Ceuta pelos portugueses
21-08-2015

No dia em que passam 600 anos sobre a tomada de Ceuta pelos portugueses, recordamos, pela voz de Manuel Alegre, o sonho dessa partida que iria marcar o início da globalização na época moderna: “Eram duzentos e quarenta barcos / vinte e sete galés e uma paixão / (…) E a flor de Portugal: El-Rei D. João / D. Duarte D. Pedro D. Henrique.” Mas recordamos também a “Elegia de Ceuta”, publicada no mesmo livro (Atlântico, 1981), em que o poeta, citando Zurara e o “grande pranto que os mouros faziam sobre a perdiçom da sua cidade”, vaticina o avesso do sonho: “Ceuta ocupada e nunca tão amada / quem te conquista em ti se há-de perder / E veremos Lisboa subjugada / submetida de tanto submeter / por teu lento veneno envenenada.”

A Partida

Eram duzentos e quarenta barcos
vinte e sete galés e uma paixão
trinta mil marinheiros e remeiros
e vinte mil soldados sobre as águas.

Eram duzentos e quarenta barcos
para saber o como e o porque.
E a flor de Portugal: El-Rei D. João
D. Duarte D. Pedro D. Henrique.

Eram duzentos e quarenta barcos
apontados ao mar e seus segredos
eram duzentos e quarenta barcos
para lado nenhum e toda a parte.

E a flor de Portugal: El-Rei D. João
D. Duarte D. Pedro D. Henrique.

Eram duzentos e quarenta barcos
vinte e sete galés e uma paixão.

Elegia de Ceuta

“Do grande pranto que os mouros faziam
sobre a perdiçom da sua cidade” - Zurara

Nas ruas ocupadas já não há
mercadores de Etiópia e Alexandria.
Ó cidade de Ceuta quem dirá
tua glória perdida e a nostalgia
do cheiro a menta e ruelas da Casbah?

Da Líbia e de Damasco e de Veneza
vinham panos e pedras preciosas
e os navios chamava-os a beleza
teu perfume de pátios e de rosas
Ó Ceuta da agonia e da tristeza.

Ceuta ocupada e nunca tão amada
quem te conquista em ti se há-de perder.
E veremos Lisboa subjugada
submetida de tanto submeter
por teu lento veneno envenenada.

E havia um cheiro a cravo e especiaria
havia pedras panos prata e ouro
e gente do Mar Roxo e Alexandria.
Por isso choram mercadores e o mouro
reza o rosário da melancolia.

E todos os caminhos vinham dar
à flor secreta da cidade neutra.
Choram por ti as gentes de Gibraltar
a rosa de África tu eras Ceuta.
Que podemos fazer senão chorar?

Manuel Alegre, poemas do livro Atlântico (1981)