Custa-me acreditar que não mais ouvirei essa voz que vinha do coração e trazia um apelo: Salvar o SNS
Manuel Alegre
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Maria Barroso - rosto e voz da liberdade
08-07-2015 Manuel Alegre, DN

Era Paris, capital dos exílios, dos sonhos e das ilusões líricas. Eu tinha vindo de Argel com Piteira Santos para nos encontrarmos com Mário Soares. Terminada a deportação em São Tomé, tinha sido obrigado a partir para o exílio em Paris, depois de assistir em Lisboa ao funeral de seu pai. Dirigimo-nos ao Hotel Saint Pierre, onde ele estava de cama com gripe. E foi aí que conheci Maria Barroso. Sabia que, mesmo depois de ter sido compulsivamente afastada do teatro por declamar os poetas da resistência, ela continuava a ler os poemas proibidos, entre os quais os meus. Sabia da sua participação activa em todos os movimentos de oposição democrática, do seu combate ao lado de Mário Soares a quem se juntou em São Tomé, muitos anos depois de terem casado por procuração quando ele estava preso. Sabia da sua acção à frente do Colégio Moderno e do seu papel como baluarte da família. Mas sabia também que ela tinha uma voz própria, não era só a mulher de Mário Soares, era Maria Barroso, uma mulher autónoma, que pensava pela sua cabeça e estava sempre na primeira linha, umas vezes ao lado do marido, outras à frente, outras ainda em sua representação como aconteceu no Congresso republicano de Aveiro. Sabia da sua coragem para enfrentar a adversidade e assumir a liderança da família sempre que Mário Soares estava preso e mais tarde deportado.

E ali estava ela, de novo, junto do marido, em outro exílio. Assim que me viu começou a dizer de cor alguns versos meus, dos que juntamente com outros costumava declamar em sessões semiclandestinas, muitas vezes reprimidas. Havia uma chama nos seus olhos e um misto de revolta e arrebatamento na sua voz. Não só quando lia poemas, mas quando falava da situação no país e da luta pela liberdade. Eu olhava para ela e via Antígona, mais tarde, em certos momentos de cólera, via Medeia.

Depois do 25 de Abril foram muitos os momentos que vivemos juntos. Na luta política, nos comícios, nas manifestações de rua, no Parlamento, defendendo a liberdade reconquistada, construindo a democracia. Mas também em conversas e discussões, nos almoços e jantares em que Mário Soares, sem sequer avisar, aparecia em casa acompanhado por dois ou três. Chegava sempre para todos. Ela intervinha, discordava, por vezes zangava-se, não abdicava dos seus pontos de vista, que quase obsessivamente retomava.

Recordo a leitura de poemas que fizemos juntos, com Sophia. E sobretudo a inesquecível viagem ao Chile, a travessia do estreito de Magalhães, enquanto líamos, em voz alta, os fantásticos poemas de Maremoto, de Pablo Neruda. Foi um momento mágico, que marcou a nossa amizade.

Acompanhou-me sempre nos momentos difíceis. Na morte de meus pais e do meu cunhado António Portugal e nas várias vezes em que fui hospitalizado. Era uma mulher forte, capaz de ser dura e ao mesmo tempo carinhosa. Por vezes intransigente, era uma pessoa de grande abertura e tolerância. Procurava conciliar e também reconciliar os amigos desavindos. Sempre com Mário Soares, mesmo quando às vezes discordava, mas sem cortar as pontes e os laços afectivos.

Não sei se a sua conversão se pode chamar assim, ou se foi antes um reencontro com a fé perdida. A sua posição política não se alterou. O seu socialismo foi sempre próximo da doutrina social da Igreja. A fé trouxe-lhe uma certa paz, mas o seu temperamento não lhe permitia resignar-se perante os males do país e do mundo. Continuou inconformista e radical, na defesa dos valores da liberdade e da justiça social.

Parece que foi ontem. Mas tudo passa. Os combates da resistência, os dias infindáveis da prisão e do exílio, a alegria do regresso, o 1º Congresso do PS na legalidade, os grandes comícios de 1975, a segunda volta da primeira campanha presidencial de Mário Soares, em que Álvaro Cunhal deixou uma lição que não deve ser esquecida – a de que, em momentos decisivos como aquele, é imprescindível a convergência da esquerda. O tempo da Presidência, em que Maria Barroso preservou sempre o seu espaço próprio, ao mesmo tempo que desempenhava com brilho a sua função de Primeira Dama. E também as noites de réveillon em Nafarros, com Sophia a comentar: “Não sei por que se comemora a passagem do ano, o ano está sempre a passar.”

E é verdade. Passaram os anos. Tudo passa. Mas Maria Barroso já está na História. Entrou sem pedir licença. Os que fazem História não precisam de pedir licença. E ela é rosto e voz da liberdade. Uma grande mulher portuguesa.

Manuel Alegre