Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre na entrega da medalha de ouro de Coimbra
30-05-2015

"Creio que ao concederem-me esta honra que tanto me sensibiliza, os representantes da Cidade não vêm em mim apenas quem eu sou, mas uma geração que, no desporto, no teatro, na música, na poesia, e na luta pela liberdade marcou a História de Coimbra e, em certa medida, do país."

Senhor Presidente da Assembleia Municipal, Dr. Luís Marinho
Senhor Presidente da Camara Municipal, Dr. Manuel Machado
Senhoras e Senhores Deputados Municipais
Senhoras e Senhores Vereadores
Ilustres Convidados
Minhas Senhoras e meus Senhores

Com emoção e humildade agradeço a distinção que me é conferida pelos representantes eleitos da Cidade de Coimbra, que tão generosos têm sido comigo, ora sob uma anterior Presidência do Dr. Manuel Machado, ora sob a Presidência do Dr. Carlos Encarnação, ora, de novo, com o Dr. Manuel Machado a presidir à Câmara Municipal. Com emoção e humildade porque mais uma vez se trata de decisão que ultrapassou diferenças políticas e partidárias para se centrar no que a todos nos une: o amor a Coimbra, à sua História, à sua cultura e ao bem supremo da liberdade.

Creio que ao concederem-me esta honra que tanto me sensibiliza, os representantes da Cidade não vêm em mim apenas quem eu sou, mas uma geração que, no desporto, no teatro, na música, na poesia, e na luta pela liberdade marcou a História de Coimbra e, em certa medida, do país.

Por isso eu sinto que neste momento estão aqui muitos outros. Estão os que me ajudaram a ganhar títulos desportivos na equipa de natação da Associação Académica de Coimbra; os que se reuniam no Café Piolho e aí decidiram fundar o Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra (CITAC); os que, depois, no Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, sob a direcção do grande Mestre Paulo Quintela, levaram Gil Vicente e o Teatro Grego aos palcos de Portugal e do Mundo; os que, com tanto idealismo e alguma ingenuidade, redigiram e publicaram o jornal “A Briosa” e, os que, posteriormente, fizeram da “Via Latina” uma tribuna livre da Academia de Coimbra e do movimento associativo dos estudantes portugueses.

Comigo, neste momento, estão todos os poetas de “Poemas Livres” e de “Poesia Útil” e os que, sob a batuta sábia e implacável de Joaquim Namorado, participaram na redacção da revista “Vértice”; estão Fernando Assis Pacheco e José Carlos de Vasconcelos que, antes de mim, publicaram “Cuidar dos Vivos” e “Corpo de Esperança” no “Novo Cancioneiro”; está também o Dr. Ivo Cortesão a quem devo o cuidado e o rigor com que editou e reviu “Praça da Canção”.

Comigo estão os que musicaram e foram a voz de muitos dos poemas que então escrevi. Momento extraordinário esse, o da convergência de um processo de renovação na guitarra, no canto e na poesia, inseparável da mudança que se operava nas ideias e numa nova atitude de responsabilidade e intervenção cívica.

De um modo muito especial, quase físico, eu sinto aqui, a meu lado, António Portugal e Adriano Correia de Oliveira. O primeiro musicou e o segundo cantou a “Trova do Vento que Passa”, que viria a tornar-se um hino emblemático da luta dos estudantes e do combate pela liberdade.

Mas sinto também a presença de José Afonso, Luís Góis, Machado Soares, António Brojo, José Niza, António Ferreira Guedes e tantos outros que pela guitarra, pelo canto e pela poesia contribuíram para fazer de Coimbra uma capital da renovação, da liberdade e da mudança. Todos estão aqui comigo. E também aqueles que encheram as praças e ruas de Coimbra no dia da chegada do General Humberto Delgado. E os que tendo participado connosco nas lutas académicas viriam mais tarde a ser dirigentes dos novos países africanos de língua portuguesa. E ainda os que se sentavam a uma mesa, sempre vigiada, do Café Mandarim: os Professores Orlando de Carvalho e Carlos Alberto Mota Pinto, que aí conviviam e discutiam com alguns estudantes “suspeitos” como Eurico Figueiredo, Carlos Candal, José Augusto Silva Marques, José Luís Nunes e eu próprio.

Não posso esquecer os poetas de Coimbra ou que por Coimbra foram passando através dos tempos, de D. Diniz e Camões até Garrett, Antero de Quental, Camilo Pessanha, Teixeira de Pascoais, Afonso Duarte, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, Carlos de Oliveira. Com todos eles fui descobrindo a música secreta que está dentro da música da grande língua portuguesa. Com todos caminhei, rasgando cadernos, até encontrar a minha própria voz nos primeiros poemas de Praça da Canção.

E também, perdoem-me o devaneio lírico, António Bentes, o melhor extremo esquerdo de sempre, o grande capitão Mário Wilson e aquela equipa da Académica que entrava em campo a monte e de capa traçada. E, claro está, Fernando, o “Formidável,” que a todos nos fotografava mesmo sem rolo.

E finalmente, minha Mãe, republicana fervorosa, que depois de eu partir para o exílio foi um pouco a mãe de muitos outros; e meu Pai, monárquico sem rei, grande campeão que, no futebol, vestiu as camisolas da Académica e do União e, antes de mais ninguém, me transmitiu o amor a Coimbra.

Todos eles são Coimbra e a sua história. Todos eles, de um modo ou de outro, estão na Praça da Canção. Todos estão aqui comigo a receber a Medalha de Ouro da Cidade.

Sem eles eu não seria quem sou. E sendo quem sou, trago comigo um pouco de todos eles.

Durante a ditadura, a poesia, nas suas múltiplas formas, foi uma arma de resistência. Podemos perguntar-nos se hoje, no grande mercado de Mundo, ainda há lugar para a poesia. Vivemos um tempo em que a própria linguagem está contaminada pela cultura do número e pelo império do dinheiro. A crise actual talvez precise de novo da voz dos poetas para descontaminar a linguagem e reabilitar a palavra do homem. Como há cinquenta anos, eu continuo a acreditar no poder mágico e na força libertadora da palavra poética.

Em Dezembro de 1963, escrevi, em Coimbra, um poema, cujo manuscrito vou entregar à Cidade na pessoa do seu Presidente. Trata-se do manuscrito original de “Trova do Vento que Passa” que, desde sempre e para sempre, pertence a Coimbra.

Coimbra,30 de Maio de 2015

Manuel Alegre de Melo Duarte