Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre recorda:
"Algumas coisas que devo a Luandino Vieira"
26-05-2015

Em 1965, a Sociedade Portuguesa de Escritores atribuía o seu Grande Prémio de Novelística a Luuanda, de Luandino Vieira, o que motivou o encerramento e extinção da SPE pela PIDE. Em cerimónia evocativa do cinquentenário dessa data, foi lida a seguinte saudação de Manuel Alegre, que conheceu Luandino quando ambos estavam presos na cadeia de S. Paulo, em Luanda:
Algumas coisas que devo a Luandino Vieira
1. O queijo sul-africano que ele, António Jacinto e António Cardoso dividiram ao meio para o partilhar comigo. Quando uma noite os agentes da PIDE me deixaram ir fazer o necessário, encontrei-o na minha cela. Não sabia a origem, desconfiei de tanta fartura, não lhe toquei. Foi um desperdício.

2. A mensagem que numa outra noite encontrei dentro de uma caixa de fósforos. Vinha assinada por Luandino, dizia que sabiam quem eu era e que um deles estaria sempre acordado durante os interrogatórios e de manhã assobiaria a conhecida canção russa “Plaine, ma plaine”. Ainda hoje guardo comigo esse assobio.

3. A estranha conversa que tivemos sobre Gil Vicente, quando, ao cabo de cinco meses de isolamento, me deixaram passear, acompanhado por um guarda, naquele corredor em frente às celas. Para lá, para cá. “Estou a ler Gil Vicente”, disse ele. Na volta eu respondi: “Já fiz o ‘Diabo’ nas três Barcas”. E assim continuámos. Frase a frase dissemos o essencial. Foi a mais extraordinária conversa que tive sobre literatura e sobre o autor de Todo-o-Mundo e Ninguém.

4. Um belíssimo poema sobre Luanda, assinado por José Graça, que li na cadeia e nunca mais consegui recuperar.

5. A salvação de alguns poemas meus escritos na cadeia e que Luandino conseguiu passar para o exterior.

6. A sua escrita, que só mais tarde viria a ler. Uma escrita que renovou a literatura angolana, abalou o regime fascista e colonialista e mostrou que um livro pode ter mais força que todas as polícias, todas as censuras e todas as armas. Um livro chamado Luuanda, que afirmava a identidade e a liberdade angolanas e estava escrito numa renovada, reinventada e enriquecida língua portuguesa.