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Manuel Alegre
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Manuel Alegre em entrevista à SIC Notícias:
"Dói-me ver um país dos mais velhos da Europa transformado num bairro ocidental"
21-05-2015 Entrevista conduzida por Ana Lourenço, Sic Notícias

“A mim dói-me ver um país, que é dos países mais velhos da Europa, em declínio, transformado num ‘bairro ocidental’, numa espécie de junta de freguesia da Europa, numa Europa que também deixou de ser um espaço de liberdade para ser uma espécie de prisão que contamina tudo. Isto tem que dar uma volta” disse Manuel Alegre em entrevista a Ana Lourenço no jornal da noite da SIC Notícias, a pretexto do seu novo livro de poemas Bairro Ocidental. “E está na altura”, disse ainda o poeta, “de haver outra linguagem”, reivindicando o papel e o lugar da poesia nessa mudança: “a libertação de uma língua ocupada, num país ocupado, a libertação da nossa linguagem de todos os dias pervertida, isso só a poesia o pode fazer”.
Veja a gravação da entrevista AQUI

Ana Lourenço - Como é que se arranca poesia destes quatro anos como fez neste 'Bairro Ocidental'?
Manuel Alegre - Um grande poeta americano, Wallace Stevens, disse que a poesia nasce de um ímpeto, de um impulso. É um misto de mágoa e de revolta. Há coisas que só a poesia consegue exprimir. Se calhar não é pelo ensaio ou pela filosofia, muito menos pelo discurso político. Há coisas que só a poesia exprime - e às vezes antecipa.

É preciso uma distância maior?
Não é uma distância física, é uma distância mental, uma distância de alma, estar de outra maneira nas coisas. Já escrevi poesia em plena guerra, na cadeia. A cabeça e o coração é que têm de estar doutra maneira.

Mas fazer rimas com palavras como “juros”, “mercados”…
A poesia não é só rima, embora a rima me aconteça naturalmente, às vezes até tenho de fazer um esforço para me libertar da rima. Mas é a realidade. A nossa língua, a nossa linguagem, está invadida, está contaminada. E uma função dos poetas é descontaminar a linguagem. A poesia não tem de ser política nem panfletária. A poesia é revolucionária por si mesma. Estou farto de ver a linguagem ocupada pelas questões económicas e financeiras, pela linguagem do pensamento único, pelas empresas de rating, por essas coisas todas – estou farto! Um grande poeta que li na minha juventude, António Nobre, perguntava: “Onde estão os pintores do meu país estranho, onde estão eles que não vêm pintar?” Hoje apetece-me também dizer aos poetas: onde estão os poetas do meu país que não vêm falar disto, de libertar uma língua ocupada, um país ocupado. Há também uma dor nestas poemas – a mim dói-me ver um país, que é dos países mais velhos da Europa, em declínio, transformado num “bairro ocidental”, numa espécie de junta de freguesia da Europa, numa Europa que também deixou de ser um espaço de liberdade para ser uma espécie de prisão que contamina tudo. Isto tem que dar uma volta. A poesia por si mesma não faz a revolução, mas eu acho não há revoluções nem mudança sem uma poética da revolução e da mudança. Isso aconteceu noutros tempos históricos, até aqui em Portugal. E está na altura de haver outra linguagem, não só na poesia, mas também na música, na pintura. Essa libertação de uma língua ocupada, num país ocupado, da nossa linguagem de todos os dias pervertida, isso só a poesia o pode fazer – mesmo utilizando essas palavras, mas contra elas.

Ainda podemos chamar pátria a este 'Bairro Ocidental??
Eu não desisto deste país. Uma pessoa pergunta onde é que está o país. Bem, o país está nas pedras, nos Jerónimos, na Batalha, está no mar, está nos campos, está nas ruas. Mas está nos poetas, desde D. Dinis, Sá de Miranda, Camões, até aos nossos grandes poetas mais recentes, Herberto Helder e Sophia. Se eu for procurar o meu país, a minha Pátria, tenho de a procurar na poesia e tenho de a afirmar, na medida das minhas possibilidades, também na poesia.

Viu no domingo o que se passou no Marquês de Pombal?
Vi as imagens posteriores, também em Guimarães, que são imagens muito chocantes. Um comentador desportivo disse e muito bem que aquilo não é um problema de futebol, é de desestruturação da sociedade, de desagregação de valores. Houve uma imagem que me deixou perplexo que foi o assalto aos armazéns do Guimarães, em que não eram só marginais, nem só pessoas que fazem do vandalismo uma causa, eram famílias, mães e filhos… Isto significa que o país está doente. Quando há desemprego, pobreza, quando há esta submissão, quando se vendem os bens estratégicos, fundamentais, - qualquer dia só falta vender os Jerónimos e a Batalha - o país está doente. E só um país doente é que permite uma coisa dessas, quer o que aconteceu em Guimarães, quer o que aconteceu naquilo que era uma festa.

Olhando para os meses que temos pela frente, até por essa urgência de cura, de regeneração, diga-me duas ou três prioridades.
Tem de haver um debate pelos valores, pela liberdade, pelo sentido de responsabilidade. Era preciso despertar os portugueses, que eu acho que estão quebrados, adormecidos, conformados, talvez com uma grande mágoa, mas nem todos são poetas e não sabem exprimir isso. Uma liderança política, neste momento, tinha de suscitar essa revolta moral contra esta desestruturação da sociedade e tinha que reafirmar o país no contexto europeu. Portugal deixou de ter uma voz. Eu não sou anti-europeu, mas a Europa é uma forma de cultura, feita de diversidade, um projecto de paz entre Estados iguais e soberanos. Isto faz-me lembrar a teoria de Brejnev, depois da ocupação da Checoslováquia, quando achou era preciso uma “soberania limitada”. Agora também temos uma soberania limitada, para defender os bancos, para defender o neo-liberalismo e uma forma abstrusa de capitalismo. É a mesma coisa. Mas eu acho que era preciso dar voz ao país, não ter medo da palavra pátria nem da palavra Portugal e reabilitá-la, haver uma voz portuguesa forte na Europa. Nós sozinhos não fazemos uma revolução. Nem é fazer espectáculo ou fitas lá. É ter uma voz própria lá mas sobretudo aqui . É muito fácil dizer: dar esperança aos portugueses. Não é isso, é preciso despertar. É um dom que se tem ou não se tem. Despertar e dar sentido de futuro. Os jovens são formados pelo Estado, médicos, enfermeiros, e emigram. Não têm culpa, mas isto é terrível. A prioridade neste momento é uma prioridade ética e também de liberdade e responsabilidade das pessoas, de resistência àquilo que nos querem impor, ao pensamento único, à ideia de que não há outra solução. Há sempre outras soluções.

Vamos ter os dois principais órgãos do Estado, Assembleia da República e Presidente da República, em redefinição. Onde estão os pilares de referência?
O voto vai decidir isso, mas Portugal está em crise de referências, algumas delas são já muito velhas e as muito novas ainda não emergiram. Espero que haja qualquer coisa que faça emergir novas referências. Para mim as referências estão na história, na história já feita e que nos ajuda à história por fazer. E estão nas nossas grandes vozes, nos nossos grandes poetas, que nos dão também um sentido ético, um sentido de país que se está a perder.

A entrevista encerrou com o poeta a ler “Resgate”, um poema de Bairro Ocidental que já foi lido em público duas ou três vezes, uma das quais em Itália, traduzido e no original. “As pessoas têm sido muito sensíveis, até em Itália, como aqui”, disse Manuel Alegre antes de ler o poema, que “tem a ver com toda a Europa mas sobretudo com a Europa do sul.”
Veja o poema Resgate AQUI