"Abril de mão na mão e sem fantasmas / esse Abril em que Abril floriu nas armas"
Manuel Alegre
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À chegada a Lisboa, em 2 de Maio de 1974 Com Piteira Santos (dt.ª), vendo-se ainda Ramos da Costa (um dos fundadores do PS), Maria Lamas, Sottomayor Cardia (ao fundo) e duas crianças, João Fiadeiro e a irmã
À chegada a Lisboa, em 2 de Maio de 1974 Com Piteira Santos (dt.ª), vendo-se ainda Ramos da Costa (um dos fundadores do PS), Maria Lamas, Sottomayor Cardia (ao fundo) e duas crianças, João Fiadeiro e a irmã
Manuel Alegre ao JL pelos 50 anos da Praça da Canção
Na encruzilhada da História
17-03-2015 JL, dossier especial, 21 de janeiro a 3 de fevereiro de 2015
Entrevista de Maria Leonor Nunes

Havia um “não colectivo para ser dito” e Praça da Canção veio dizê-lo. Eis o segredo de um livro implicado “numa encruzilhada” do país, uma “epopeia do avesso”, a que se somou a força do “lirismo da tradição” e a “crença” numa palavra capaz de mudar o mundo. É o que diz ao JL Manuel Alegre, um poeta “invadido pela História” e que sempre procurou separar a política da poesia. “Essa cisão é a minha unidade”, garante. “Mas se não tivesse vivido como vivi, não teria escrito o que escrevi”.

JL: Chamam-lhe muitas vezes ‘o poeta da _Praça da Canção’_. Marcou-o decisivamente esse seu primeiro livro?
Manuel Alegre: Foi um momento irrepetível. É um livro que sobreviveu ao tempo, continua a circular por aí.

Tornou-se mítico?
Sim, é um fenómeno. Por outro lado, fiquei prisioneiro desse livro, porque tocou imenso as pessoas, algumas que nem sabiam ler nesse tempo, mas ouviam as canções e ficavam com os versos na cabeça. Foi um livro que entrou nas pessoas, deu a volta ao país, de diferentes formas, e marcou gerações. É difícil que volte a acontecer comigo ou com outros.

Mas a seguir, escreveu _O Canto e as Armas._
E muitos outros. Por exemplo, mais tarde Senhora das Tempestades, que do ponto de vista poético tem outra espessura. A Praça da Canção tem que ser visto no seu contexto e tem realmente força. Durante muito tempo, onde quer que chegasse, lá vinha a Trova do Vento que Passa (risos).

Aborrecia-o?
Quer dizer que continuou atual. Até me comovi há pouco tempo, quando passei por uma manifestação da CGTP e vi um coro de gente a cantar “Há sempre alguém que resiste”. Mas houve uma altura em que já tinha complexos, porque não sou apenas o poeta da Praça da Canção.

Como o relê hoje?
Reconhecendo tanto os defeitos como as virtudes. Como diz o José Carlos de Vasconcelos no prefácio desta edição, o seu sucesso foi por efeito da própria poesia. Se fosse um panfleto político não o teria tido. A novidade era a da poesia, que entroncava nos cancioneiros, nas trovas, uma síntese de tradição e modernidade. Também integrava nomeadamente algumas coisas dos surrealistas, como primeiro percebeu António Ramos Rosa. Nesse sentido, é um livro original. E foi incómodo para o regime, mas também para alguns, porque a certa altura, houve leituras redutoras, mesmo maldosas.

Porquê?
É que foi proibido e censurado pela Pide, mas teve outras formas de censura, porque talvez fosse muito ‘chato’ para alguns o seu impacto. Julgo que é o livro mais difundido em vida outros poemas meus e de outros poetas. Não se muda a História sem consciência crítica política, sem cultura, e isso chega também através da literatura. Há livros que em certos momentos, pelo seu conteúdo, por qualquer coisa de único e singular, atingem as pessoas e contribuem para a mudança. Não é que a poesia por si mesma faça revoluções, mas não há revoluções, nem mudança, sem uma poética. A Praça não é um livro político, nem sequer tem poemas panfletários. Só que teve efeitos políticos.

Dar sentido à Pátria

A ideia de país, de pátria, é muito forte no seu discurso poético. De que maneira isso contribuiu para a identificação com os leitores da época?
O regime tinha-se instrumentalizado a História e eu dei a volta a isso pela via poética. Não rejeitei a História, nem a ideia de Pátria. Assumi-a e dei-lhe um outro sentido, tal como aos mitos que fazem parte da nossa cultura, como o de D. Sebastião. As pessoas foram sensíveis a isso, é o segredo do livro.

Muitos dos poemas foram recitados, cantados, antes da sua edição. Porquê?
Eu fazia os poemas e dizia-os aos amigos, em sessões, mesmo antes de os escrever. Daí um traço de oralidade da minha poesia. De certa forma foi um livro anunciado.

Como chegou à sua arte poética?
É muito difícil de explicar. Houve uma fase em que lia muito Rilke, Hölderlin. O poema “São como deuses”, integrado na Praça da Canção, é significativo do que era a minha poesia um pouco antes. Mas também gostava dos romanceiros, dos cancioneiros e lia muito Camões. De repente comecei a escrever aqueles poemas, o mais antigo dos quais a Trova do Amor Lusíada. Tinha a ver com o ritmo do tempo, a música que andava no ar, porque havia na altura o processo de transformação da canção de Coimbra com Zeca Afonso, as baladas. Mas já Sophia dizia que a poesia não se explica, implica. E se implicou foi por virtude de um certo lado mágico, que há naquelas metáforas, por vezes subversivas, nas trovas. Aqueles poemas saíram com tal espontaneidade que hoje não seria capaz de escrever daquela maneira.

Em que sentido?
Era preciso ter também uma certa ingenuidade, uma crença quase bruxa na força das palavras. E eu tinha. Acreditava nessa força mágica e que pela música da palavra se podia mudar o mundo.

O livro saiu, já estava no exílio. Como recebeu o primeiro exemplar?
Com um misto de satisfação e de grande tristeza por já cá não estar. Mas tudo isso contribuiu para a lenda do livro. Os ecos foram chegando, mas só depois do 25 de Abril tive realmente consciência da ‘bomba’ que tinha sido, em conversas com várias pessoas, até com militares. Salgueiro Maia, por exemplo, tinha-o como seu livro de cabeceira. Penso que sobretudo foi o impacto cultural que levou as pessoas a refletir e a ver Portugal de outra maneira.

Algum dos poemas do livro tem um significado especial para si?
Talvez Nambuangongo, Meu Amor, que foi muito marcante. Hoje possivelmente não diga tanto às pessoas. Vasco Graça Moura gostava muito dele. Essa podia ser uma escolha de um ponto de vista estritamente poético, mas também Canção com Lágrimas, todos os poemas da guerra. E Trova do Vento que Passa é mesmo um bom poema. Ou Explicação do País de Abril. É difícil escolher.

A poesia ajudou-o a resistir na guerra?
Há guerras que nunca acabam, como dizia René Char. Todos temos traumatismos, perdi lá amigos, como o Manuel Ortigão, a quem dedico Canção com Lágrimas. Mas ultrapassei, pelo próprio processo da minha vida, pelo exílio, pela luta contra o regime, que continuei, pelos poemas que depois escrevi. Não fiquei a escarafunchar na ferida.

Fora, a olhar para dentro

No exílio, teve notícia da forma como a Praça da Canção se tornou uma ‘bandeira’ da luta contra o fascismo?
Era uma maneira de estar presente. Estando fora, estava dentro. Aliás, estive no exílio sempre a olhar para dentro. Nunca me integrei, nem resignei, dediquei-me quase por inteiro à luta política, à Voz da Liberdade. O meu objetivo era mudar o regime e voltar. Estive sempre lá e aqui. Isso vê-se n’ O Canto e as Armas e no que escrevi depois. A poesia era uma forma de estar aqui. A mais funda. O barco para Ítaca também tinha essa ideia do regresso.

Nunca deixou de acreditar nesse regresso?
Foi um exílio muito longo, com momentos difíceis, mas também com uma vida muito intensa. Era a idade das utopias, dos movimentos de libertação, encontrei pessoas fantásticas, que andavam a fazer revoluções, a mudar o mundo. Todos sentíamos que estávamos a mudar a História e mudámos mesmo. Havia períodos de mais esperança, outros de desespero, porque o regime estava sólido, nos primeiros anos de guerra até se fortaleceu, mas tínhamos a convicção profunda de que mais tarde ou mais cedo, íamos voltar. Aliás escrevi Voltaremos em Maio

E voltou mesmo, a 2 de Maio de 1974. Teve a receção que esperava?
Quando saí da porta no aeroporto, houve uma pessoa que me levou ao colo e que não conhecia. Era o Manuel da Fonseca. Também lá estava a Maria Teresa Horta, o Ary dos Santos e outros poetas, cantores, professores a distribuírem os meus poemas. Não o esqueço.

Chegou onde já estavam as suas palavras...
Sim, havia essa presença dos poemas dactilografados, copiados à minha espera. Ainda hoje, por vezes há pessoas que me vêm mostrar os seus exemplares manuscritos. Foi esse o mistério, o destino e o lado mágico da Praça da Canção.

Esses poemas ganharam, nos últimos tempos, uma nova força?
Infelizmente. Dada a situação histórica do país, que teve a festa do 25 de Abril, uma grande esperança e que, neste momento, está com a sua soberania reduzida ao mínimo. Há uma espécie de doença, de tristeza nacional, quase de decadência como raramente se viveu. A poesia volta a ter uma grande importância, se os poetas souberem resistir e voltarem a afirmar a força histórica do país, o sentido de pátria, numa perspectiva de futuro.