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Manuel Alegre
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Foto de Rui Ochoa - 1987
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1919 - 2004
Sophia
01-07-2014 Manuel Alegre
Um retrato escrito por Manuel Alegre

Sophia é, por certo, um dos poetas que mais perto está da pulsação inicial e mágica da palavra. E por isso a sua poesia, como toda a verdadeira e grande poesia, pode ser dita, cantada e até dançada.

Talvez porque, antes de uma relação escolar com a literatura, ela tenha tido a revelação da poesia. Como ela própria conta: “Na minha infância, antes de saber ler, ouvi recitar e aprendi de cor um antigo poema tradicional português, chamado “Nau Catrineta”. Tive assim a sorte de começar pela tradição oral, a sorte de conhecer o poema antes de conhecer a literatura. ( ... ) Toda a minha vida tentei escrever esse poema imanente”.

A sua poesia tem sido, como diz noutro texto, uma perseguição do real. Com Sophia, o poema escreve-se, por assim dizer, a si mesmo. Ela própria confessa o medo de intervir, para que o poema não se desagregue. Não que não haja ofício, saber literário ou, como queria Pound, a técnica transformada em segunda natureza. Mas não há literatice, não há corrupção nem perversão do estado de escrita, tão perto, afinal, do estado de transe do primitivo oficiante. Penso, aliás, que só se pode escrever assim, quando se tem, como Sophia, o dom da língua e o domínio perfeito da técnica.

Ela reabilita a palavra poética e o sentido mágico do poema. Os seus versos mais fulgurantes parecem colhidos do ar e trazem-nos de novo “a tradição mais pura” e aquela “flama inconquistada”, que outro poeta cantou. Muitas vezes temos falado, nas nossas conversas à volta da mesa, de certos livros difíceis de ler até ao fim, porque neles nada acontece: não há história, nem portas a bater, nem correntes de ar, nem cheiros, nem vida. Quem ler com atenção a escrita de Sophia verá que ela está carregada de sabores, de cheiros, de um ângulo de luz na janela, de um reflexo de sol ou de sombra que de repente atravessa o quarto, dos rumores da casa onde há sempre um deus fantástico, de pássaros que cantam no jardim, de memórias, vivências, da presença-ausência do mar, das procelárias, dos ventos, dos barcos e dos barros, das ânforas, dos ofícios, dos rostos. E também dos homens, das suas cadeias, das suas injustiças, dos seus combates. Como ela própria diz: “O poema não fala de uma vida ideal mas de uma vida concreta”. E nesse seu falar a transfigura. E a busca de uma “relação justa com a pedra, com o rio, com a árvore”. E quem procura uma relação justa com as coisas procura necessariamente “uma relação justa com o homem”.

E por isso é que Sophia considera que “a poesia é uma moral” e que “o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia”.

E este é outro aspecto essencial da poesia de Sophia: o rigor, a comunhão, a partilha, a inteligência e a intransigência da liberdade e da justiça, a contenção, a tensão e a atenção, como sinal de exigência e da responsabilidade perante si e os outros. Não é uma poesia de facilidade. E se nela as palavras têm frequentemente o fulgor da cal e da luz do sul, outras vezes vêm carregadas de noite e de sombras. Apolo é muitas vezes atravessado pelo sentido trágico, pelas fúrias, talvez até pelo demoníaco.

Fiel aos seus traços essenciais de alma e de carácter, a escrita de Sophia não é uma escrita contente e satisfeita consigo mesma. Não se repete, nem refaz, como outros, o mesmo poema sempre com as mesmas palavras. A poesia de Sophia é uma poesia que constantemente se reinventa e se renova, sem cair no novo riquismo literário de seguir a moda. E é por isso que não pára de surpreender e que cada livro seu é sempre uma festa.

Resta-me acrescentar que gosto muito de Sophia. É uma das pessoas e um dos poetas sem os quais não posso passar. E o resto não se explica, porque, como a Sophia costuma dizer - “A poesia não se explica, a poesia implica”.

Manuel Alegre