Espero merecer a honra que me concederam e continuar a rimar o meu poema com a minha vida.
Manuel Alegre
InícioManuel AlegreNotíciasAgendaOpiniãoPresidenciais 2011LinksPesquisa
YouTube Twitter FaceBook Flickr RSS Feeds
> Discurso Directo
> Discurso Indirecto
Manuel Alegre a propósito do seu livro "País de Abril":
"Um país, uma língua, a liberdade"
09-04-2014 Manuel Alegre
Texto lido no Quartel do Carmo no dia 9 de Abril

Há quarenta anos, parece que foi ontem, eu estava ainda no exílio. Vi, em Argel, pela televisão, as imagens da tomada do Quartel do Carmo. Foi um privilégio viver esse momento, ainda que de longe. É um privilégio estar hoje aqui a revivê-lo com todos vós. Sem armas. Com poemas e canções que, em outro contexto histórico, também foram armas. Porque o mal, disse Eduardo Lourenço, combate-se com a criação, a poesia e a música.

E a poesia também foi uma arma contra esse mal português que foi a ditadura do Estado Novo. Poemas que foram armas antes das armas. Ao longo de quase meio século, a poesia portuguesa manteve acesa aquela “luz bruxuleante” de que falou Jorge de Sena. Uma pequena luz, que era a luz do inconformismo e da esperança.

De Afonso Duarte, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Adolfo Casais Monteiro, José Régio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, David Mourão Ferreira, Natália Correia, Mário Cesariny, José Gomes Ferreira, até aos poetas da minha geração, a poesia portuguesa, na diversidade e pluralidade das suas vozes, criou uma poética da liberdade muito antes da liberdade ser reconquistada. Evoco todos esses poetas, que foram meus mestres e estão aqui comigo, juntamente com todos os resistentes e todos os militares de Abril.

A todos convoco na apresentação desta antologia que é, por um lado uma celebração dos 40 anos do 25 de Abril, por outro um alerta ou, até, talvez, um acto de resistência. O mal está aí outra vez. Não como ditadura e guerra colonial, mas sob a forma do pesadelo da austeridade, do ataque aos serviços públicos de saúde, educação e segurança social, da desvalorização do trabalho, dos cortes de salários e pensões e, talvez pior, do corte da esperança e do futuro. Há de novo um dogma e um pensamento único. Mas há também uma linguagem única, o economês anglo-americano de tecnocratas que gostam de falar em inglês mas muitas vezes falam um mau português.

As nossas palavras estão ocupadas, o poder soberano da língua está cercado por taxas de juro, números, cifrões e vocábulos que não são nossos. Cortam-nos as múltiplas dimensões da vida e a música das vogais. Por isso eu penso que é de novo tempo de poesia para libertar a língua e nos restituir um certo sentido de festa e de liberdade, que é o essencial do 25 de Abril. Somos cigarras do sul e gostamos de cantar, como António Nobre, “o sol, o mar, a fartura da seara reluzente, o vinho, a graça, a formosura, o luar.” Portugal, esse “milagre contínuo”, como disse também Eduardo Lourenço, é uma paixão.

É essa paixão que está nesta antologia, onde há poemas que ainda andam por aí. Alguns foram escritos na guerra, na cadeia, na clandestinidade e no exílio. Mas não vou pedir desculpa pelo facto de terem sido lidos, cantados e de, apesar de várias censuras, terem circulado e continuarem a circular. A poesia é para ser partilhada. E eu não sou daqueles poetas a que João Cabral de Melo Neto chamava, com ironia, “inespaciais e intemporais”. Não me fechei na torre de marfim de uma escrita esteticamente asséptica. A história entrou, sem pedir licença, pelos meus versos dentro e está nos poemas desta antologia. Gostaria que eles fossem de novo um alerta e um apelo.

Ninguém quer perder Portugal como “futuro do passado”. Ninguém quer que a língua portuguesa deixe de ser a pátria que Camões e Pessoa nos legaram. Ninguém quer que o 25 de Abril seja uma data inofensiva no calendário.

Um país, uma língua, a liberdade.

País de Abril. 25 de Abril. Sempre.