Descobrir não é criar. Chegámos sempre ao que, antes de nós, já lá estava. Mas em cada chegada aconteceu uma dupla descoberta: a dos outros por nós e a de nós próprios pelos outros.
Manuel Alegre
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Manuel Alegre a Ana Lourenço, a pretexto de "País de Abril":
“O voto pode abrir o caminho a uma revolução democrática”
08-04-2014 SIC Notícias

“O voto pode abrir o caminho a uma revolução democrática” afirmou Manuel Alegre em entrevista conduzida por Ana Lourenço na SIC Notícias, a pretexto do lançamento do seu novo livro de poemas, “País de Abril”. Lembrando que “nós não pedimos licença a ninguém para fazer o 25 de Abril”, Alegre defendeu que “a mudança tem de começar por nós. Temos de ter estabilidade nas finanças, mas não desta maneira. A destruição de duas ou três gerações por essa razão é um crime. Então é preferível a revolução, porque isso é uma nova forma de totalitarismo.”
Veja a entrevista AQUI

Alegre insistiu ainda em que “não basta mudar as equipas, é preciso mudar a política” e
"libertar a linguagem – esta linguagem de trapos, ocupada pela linguagem anglo-americana, em que as pessoas de poder se exprimem muito bem em inglês mas não em português". Para Manuel Alegre, "há outras dimensões da vida, não é só taxas de juro, dinheiro, cifrão. Também aí é preciso dar a volta". E, depois de afirmar que “este é um tempo que talvez precise de poesia, de arte, para se libertar da linguagem num sentido único”, o poeta concluiu: “É preciso um alerta, é preciso reavivar o espírito do 25 de Abril, um espírito de mudança e de esperança. Não se pode viver sem esperança. E a função da poesia também é dar esperança e alento às pessoas."

Transcrevemos em seguida o essencial da entrevista:
Ana Lourenço – Gosta de rosas, mas adivinhou os cravos. Como se explica isto, 40 anos depois, quando revisita estes poemas?
Manuel Alegre - Isso são bruxarias, não se explicam. Pode-se fazer um esforço de racionalização. Eu estava nessa altura nos Açores, depois em Angola. Abril e Maio são meses de que sempre gostei muito, vivi em Coimbra, a primavera era uma coisa fantástica, talvez uma saudade de Portugal. Mais estranha é essa história dos cravos, porque eu gosto de rosas, "Fiz da rosa a minha flor". Mas em 67 escrevi “Lisboa tem um cravo em cada mão…” Mesmo a história do microfone (de "Poemarma" ) com um esforço, posso tentar uma explicação. Eu trabalhava na radio, na Voz da Liberdade, muitas vezes à noite, sem saber quantas pessoas nos estavam a ouvir. Pode ter sido essa vontade de fazer do meu microfone esse microfone. Mas é um esforço de racionalização, porque esse é daqueles versos que aparecem feitos.

AL – Faria tudo outro vez?
MA – Vivemos a vida que vivemos, vive-se apenas uma vez, a esta distância podemos rever isso como um filme, mas na altura não, são momentos difíceis. Tive uma vida agitada, com momentos muito dolorosos. Quando se faz 26 anos na cadeia, isolados, quando víamos morrer amigos, quando se parte para o exílio e não se sabe quando se volta… Dez anos de exílio nessa altura, entre os 27 e os 37 anos, é duro, porque é o tempo do esplendor da vida. Também houve momentos bons e tínhamos o estímulo de estar a lutar pela libertação do país, a fazer história, sobretudo num tempo em que havia a ideologia da revolução. Mas o balanço da minha vida é o que é – não posso vivê-la outra vez, mas não me arrependo.

AL – A minha pergunta não era tanto sobre a sua vida, mas sobre o poema escrito 20 anos depois. Que balanço faria agora?
MA – Esse poema podia ser escrito agora e para pior. Foi escrito numa altura de grande indignação, tinha sido negada a pensão ao Salgueiro Maia e dada a ex-Pides. O 25 de Abril tinha um programa, o programa do MFA (democratizar, descolonizar, desenvolver). Dentro da revolução houve várias revoluções, algumas até contraditórias. Mas o 25 de Abril do programa do MFA foi uma revolução vitoriosa, porque se fez a democratização, institucionalizou-se a democracia e o país hoje não tem nada a ver com o dessa altura, apesar da regressão. Houve serviços que se criaram, como o Serviço Nacional de Saúde, a Segurança Social. Em muitos aspectos da vida houve transformações políticas e sociais muito importantes. E fez-se uma Constituição em que os direitos sociais estão instituídos ao lado dos direitos políticos. Quem não tem direitos sociais, quem não tem trabalho, quem passa fome, quem não sabe como criar os filhos, não tem a mesma liberdade.

AL – Teve uma voz sempre crítica contra o discurso da inevitabilidade. Estamos a acabar este período de três anos, desaparecerá do discurso político essa “almofada” da inevitabilidade. Voltando ao seu poema dos vinte anos depois, acha que esta pode ser a hora?
MA – O voto pode abrir o caminho a uma revolução democrática. Há várias formas de revolução. Em democracia, as transformações devem-se fazer pela via democrática. O documento dos 74 teve a grande virtude de acabar com essa inevitabilidade do pensamento único, com a linguagem única, com as palavras ocupadas. Foi já um acto de insubmissão de pessoas de grande prestígio de esquerda, de direita, do centro. A reacção oficial do governo foi de afligir um pouco, pelo dogmatismo, pela insensibilidade. A maneira como Durão Barroso se referiu a Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, insinuando que o tinham assinado por razões pessoais, é lamentável, repugnante.
Vivemos uma hora difícil. As empresas de “rating” são um instrumento de uma nova forma de ditadura, acima dos estados, acima da democracia. É aí que é preciso bater o pé. Na Europa, com certeza, mas também aqui. Nós não pedimos licença a ninguém para fazer o 25 de Abril, que abriu o caminho depois à transformação na Espanha, na Grécia, no Brasil. A mudança tem de começar por nós. Temos de ter em conta a estabilidade nas finanças, mas não desta maneira. Não podemos apontar como único horizonte possível a destruição de duas ou três gerações por essa razão é um crime. Então é preferível a revolução, porque isso é uma nova forma de totalitarismo.
É por isso que não basta mudar as equipas, é preciso mudar a política, mudar o pensamento único, libertar a linguagem – esta linguagem de trapos, ocupada pela linguagem anglo-americana, em que as pessoas de poder se exprimem muito bem em inglês mas não em português, há outras dimensões da vida, não é só taxas de juro, dinheiro, cifrão. Também aí é preciso dar a volta. Eduardo Lourenço disse recentemente que é preciso voltar à criação artística. Este é um tempo que talvez precise de poesia, de arte, para se libertar da linguagem num sentido único.

AL – Há tempos quando se referiu ao candidato do PS às europeias elogiou-o como um homem que lê livros.
MA – A minha geração lia muito. Também não havia computadores, a televisão era a preto e branco, tremida. Havia os cafés, onde discutíamos livros, filmes, tudo. Tenho dito a amigos mais novos: vocês deviam falar menos tempo ao telefone, menos tempo no twitter, ler alguns livros essenciais.

AL – Voltando ao manifesto dos 74, este grupo improvável, que juntou Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix a Francisco Louçã, conseguiu mais este documento do que todos os esforços de união à esquerda…
MA – Isso demonstra que o consenso é possível quando há um objectivo. Aquilo a que assistimos agora é um faz-de-conta. Ninguém quer diálogo nem consenso nenhum, o que gostariam era de ter o PS e outros atrelados a esta política de pensamento único. Não é legítimo pedir a um partido como o PS que vá fazer consensos para manter esta política de austeridade, de empobrecimento, de ataque ao Serviço Nacional de Saúde, a todos os valores que são a razão de ser do PS.

AL – Este manifesto teve um objectivo maior que os esforços de união à esquerda?
MA- Foram mais longe, mas também havia um objectivo preciso, a dívida. Tenho dito que seria fácil unir a esquerda, não para uma estratégia comum, mas em torno de cinco ou seis pontos concretos – o Serviço Nacional de Saúde, o sistema público de educação, a segurança social pública, as leis laborais, a dívida. Se calhar era mais fácil procurar outros caminhos sem fazer imposições à partida. Porque quando se diz “só dialogo se”, então não há diálogo nenhum. Fiz muitos esforços nesse sentido, não fui infelizmente bem sucedido. Mas isso já vem de trás. Vem desde a revolução russa, desde antes, desde o congresso do partido social-democrata russo em Londres, em 1904, com a divisão entre mencheviques e bolcheviques. Essa divisão tem raízes muito fundas. Durante a ditadura houve muitas acções comuns, houve uma união, mas mesmo assim havia muitos atritos, nem sempre foi fácil.

AL – Podem as esquerdas reconhecer que podem juntar-se sem que isso implique uma fusão ideológica?
MA – Não só as esquerdas, mas as pessoas boas do país. Manuela Ferreira Leite ou Bagão Félix, outros que assinaram, Silva Lopes, outros, neste momento de crise nacional, não são pessoas que possam ser deixadas à margem. Tive um programa (na televisão) com Bagão Félix e muitas vezes convergíamos. Se houver pessoas com boa vontade e sentido patriótico, com vontade de mudar as coisas e com capacidade de diálogo, independentemente de razões ideológicas, com um objectivo comum – é possível chegar a acordo.

AL – O seu livro custa 5 euros. Não é por acaso?
MA- Não é por acaso. Fez-se uma grande tiragem, de dez mil exemplares. Não é a primeira vez.A “Senhora das Tempestades” também teve uma primeira edição de dez mil e uma segunda edição de 5 mil, e a primeira esgotou muito rapidamente. Estes poemas de “País de Abril” estão todos publicados. O livro tem uma história: houve um militar de Abril, Pedro Ferreira, que queria um poema sobre o 25 de Abril para o Vitorino de Almeida musicar. E eu disse: mas eu tenho muitos poemas que falam de Abril antes de Abril, dispersos em vários livros. Fui ver. Havia ali uma certa coerência entre o antes, o durante e o depois. Estes poemas, assim juntos, fazem um novo livro. Mas este livro é para chegar às pessoas, não é para obter lucros, é uma forma de celebrar o 25 de Abril, mas é para as pessoas lerem. É um acto de alerta e resistência. Aliás está nos “tops”, o que é raro acontecer com um livro de poesia.

AL – Para que o poema possa ser uma arma?
MA – Já foi, vem aí um tempo em que se calhar pode voltar a ser.

AL – Qual é a mensagem que vai deixar amanhã no lançamento do livro?
MA – É preciso preservar, é preciso mudar. É preciso um alerta, é preciso reavivar o que foi o espírito de resistência, o espírito do 25 de Abril, um espírito de mudança e de esperança. Não se pode viver sem esperança. E a função da poesia também é dar esperança e alento às pessoas.